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Entrevistas, Opinião MKT

“O futebol brasileiro como marca é uma proposta imensamente atraente”, aponta especialista

PhD e professor, Simon Chadwick analisa atual momento do futebol chinês e os caminhos para o Brasil fortalecer sua imagem no esporte

17 jan, 2017 Escrito por MKT Esportivo

A China está no centro do futebol mundial. Com o objetivo de se tornar uma potência da modalidade até 2050 e seduzindo atletas de nome com salários astronômicos, a liga chinesa se fortalece e aterroriza equipes tão logo sua janela de transferência se abre.

Para se ter uma ideia, até o final de dezembro, as equipes chinesas haviam gasto € 400 milhões em contratações, contra € 398 milhões da última temporada. Vale ressaltar que a atual janela do país fecha apenas no dia 26 de fevereiro. Até lá, a estimativa é que os chineses desbanquem os gastos dos clubes espanhóis em jogadores.

Para entender sobre os bastidores do esporte chinês e o que motiva tais investimentos, o MKTEsportivo entrevistou uma das maiores referências da indústria esportiva mundial e um profundo estudioso do mercado esportivo local. Simon Chadwick, PHD em patrocínio esportivo, com mais de 600 artigos publicados e professor de empreendedorismo esportivo na Universidade de Salford, na Inglaterra, nos detalhou os planos ambiciosos do governo chinês e o que está por trás do investimento de empresários do país em clubes da Europa.

Conversamos também sobre a badalada Premier League, que para Simon, segue o modelo de negócio das ligas norte-americanas. Por fim, o profissional deu sua visão do porque nossos clubes não são atrativos comercialmente no estrangeiro e quais caminhos devemos seguir para alcançar a excelência.

 

Nos últimos vinte anos você tem sido o principal estudioso do mercado esportivo chinês e acompanhou o crescimento do país no setor desde então. De 2008, quando foi sede dos Jogos Olímpicos, até 2016, quais os principais fatores que você destaca que colocaram a China no centro do futebol mundial e que a transformou numa poderosa indústria esportiva?

O anúncio mais importante da última década foi feito em novembro de 2014 pelo Presidente Xi Jinping. Naquele momento, ele declarou uma visão que, até 2025, a China terá criado a maior economia doméstica em esporte do mundo. Para levar a China à alcançar esse objetivo, Xi identificou o futebol como um esporte importante. Ele não quer apenas que a China sedie a Copa do Mundo, mas que ela ganhe o Mundial.

 

O Brasil foi o principal alvo dos clubes chineses que buscaram fortalecer seus elencos com novos jogadores. Pra você, por que o futebol brasileiro? Como explicar salários que superam os € 40 milhões anuais para jogadores como Tevez e Oscar?

O futebol brasileiro é bem considerado na China, pelo sucesso e também por seu estilo de jogo. A China quer reproduzir esses dois fatores, consequentemente os jogadores e treinadores que estão trabalhando lá agora são uma tentativa dos chineses em aprender sobre o Brasil. Ao mesmo tempo, os jogadores brasileiros já demonstraram ser bem dinâmicos quando se mudaram para Europa. Já os europeus mostram muito menos mobilidade. Pelos níveis de salários e taxas de transferências, é uma clara demonstração de vontade, que mostra a força e abundância dos chineses.

oscar-china

Se antes era considerado um plano audacioso, se tornar uma potência no futebol até 2050 já pode ser considerada uma realidade? Além de empresas, o governo chinês tem investido para desenvolver o setor?

O governo central chinês não tem realmente investido em futebol. Os investimentos têm vindo de governos provinciais, de empresas e de organizações de fora do país. A forma como a China trabalha é o Estado emitindo um decreto e outros no país trabalham para assegurar que as ações necessárias sejam tomadas. Uma referência para China é o Japão, um país que em menos de 20 anos conseguiu desenvolver seu futebol e ganhar uma Copa do Mundo (feminina, em 2011). Quanto ao objetivo para 2050, eu acho relativamente modesto. Ao passo que ganhar a Copa do Mundo seja um imenso desafio, os recursos e as intenções da China indicam que o seu futebol melhorará drasticamente.

 

Na Inglaterra, Aston Villa, West Bromwich Albion e Wolverhampton Wanderers são exemplos de equipes que hoje são de propriedade de capital chinês. Qual o principal objetivo destes investidores ao adquirir uma equipe?

Eles querem ser vistos como publicidade para apoiarem a visão do Presidente chinês. Além disso, desejam tirar vantagem das oportunidades comerciais mundo afora, aprender mais sobre como trabalhar na indústria do futebol, criar conexões com os tomadores de decisão para ajudá-los a ganhar contratos comerciais, muitos deles que frequentemente não estão relacionados ao futebol.

 

A Premier League anunciou recentemente que seus clubes poderão negociar patrocínios para manga. Tida como a liga mais poderosa do mundo, abrir um novo espaço na camisa mostra uma dificuldade em arcar com os altos salários dos seus elencos?

A Premier League sempre seguiu um modelo norte americano de esportes, ou seja, ela buscou comercializar suas propriedades a fim de criar novos fluxos de receita. Em um nível, isso é contraprodutivo, porque sinaliza para os jogadores e seus agentes que os clubes da Premier League têm mais dinheiro e provavelmente são capazes de pagar mais em termos de taxas de transferência e salários. Porém, em um outro nível, dois são os efeitos benéficos de tal fluxo de receita: 1) ajudam os clubes da liga a cumprir os termos do Fair Play Financeiro da UEFA; 2) habilitam os clubes a assinar com os melhores jogadores do mundo. Sendo assim, fortalecem a proposta da ‘marca Premier League’ em ser a melhor liga do mundo.

O que é crucial é que tais desenvolvimentos sejam gerenciados cuidadosamente, coisa que a liga inglesa tem feito muito bem.

Stoke City v West Ham United - Premier League

O Brasil foi sede dos dois maiores eventos esportivos do mundo. Desde o seu anúncio, novas estruturas foram erguidas e muito se falou sobre o legado que ambos deixariam. Por que grandes eventos sempre acabam se tornando sinônimo de corrupção?

Em essência, eu acho que o esporte tem um problema de governança. A maioria dos esportes e eventos ligados à eles são originários de um tempo onde havia consideravelmente menos dinheiro no segmento. Consequentemente, gerenciar um esporte era relativamente uma prática menos desafiadora do que é hoje. Como o dinheiro fluiu para ele, em todo o mundo, a prática de governança do esporte não manteve o passo e são indiscutivelmente imprópria para tal fim. Existe muito pouca transparência e franqueza no esporte, além dos procedimentos para monitoração e controle da prática de corrupção não serem desenvolvidos o suficiente. Por isso, o esporte se tornou um ambiente onde indivíduos inescrupulosos são capazes de fazerem seus tipos de negócios.

 

Diferentemente de Manchester United, Barcelona e tantos outros, os clubes brasileiros não são conhecidos no exterior. Diversos são os fatores: base de fãs concentrada no país, calendário que impossibilita pré-temporada, torneios pouco atrativos e etc. Como um clube brasileiro pode internacionalizar sua marca se sua atuação está limitada apenas ao seu continente e/ou país? 

Países, ligas e seus clubes devem querer comercializar-se e se estabelecer como tal. A Premier League e os clubes ingleses buscaram ativamente construir seus negócios no exterior. Isso requer uma predisposição para a comercialização e então a cultura e as decisões tomadas permitirão que isso aconteça. Essas são provavelmente as razões principais pelas quais o Brasil e seus clubes não são uma força comercial no futebol global. O futebol brasileiro como uma marca é uma proposta imensamente atraente. Por aqui, a pré concepção das pessoas é que são jogadores altamente qualificados e que atuam em um ritmo acelerado. Isso é um ativo estratégico que o Brasil e as autoridades do futebol deveriam buscar capitalizar.

 

Qual a particularidade positiva e negativa que você destaca sobre a indústria esportiva do Brasil? Temos uma característica que nos diferencia em algum quesito e que deveria ser melhor explorada?

A percepção do mundo é de que o esporte brasileiro é habilidoso e atlético, porém mal organizado e gerenciado. Além disso, a maioria das pessoas provavelmente enxerga mais o futebol que o basquete ou vôlei quando olham para o Brasil. Uma grande responsabilidade nos ombros dos dirigentes do esporte brasileiro é que eles precisam desenvolver e acentuar uma proposta de marca esportiva baseada nos seus pontos fortes já estabelecidos. Precisam também ser comercialmente mais experientes e olhar para fora. Por fim, é necessário olhar além do futebol somente como a plataforma sobre a qual se projeta a ‘marca brasileira’ e suas características.