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Coluna | “Faltam 1.470 dias para o Hexa! Catar 2022!”

Jorge Avancini aponta caminhos estratégicos para que o futebol possa repensar o seu modelo de gestão de olho no futuro

10 jul, 2018 Escrito por MKT Esportivo
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Por Jorge Avancini – Executivo de Marketing Esportivo
(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Na última sexta-feira (6), a Copa do Mundo da Rússia acabou para o Brasil, após derrota por 2 a 1 para a seleção da Bélgica.

De todos memes e manifestações nas redes sociais mundo afora – além das resenhas e crônicas da imprensa esportiva -, o que mais chamou minha atenção foi uma mensagem que circulou no WhatsApp. Nela, escrita sobre a camisa da Seleção Brasileira, a frase que dá título a este artigo: FALTAM 1.470 DIAS PARA O HEXA! CATAR 2022!

 

E por que esta frase chamou minha atenção? Primeiramente, porque ia na contramão dos posts que passaram a inundar a internet e os celulares após o apito final, com críticas à equipe de Tite, ataques personificados a Fernandinho, Neymar e Gabriel Jesus e a típica busca por culpados pela eliminação de mais uma edição da mais importante competição do futebol mundial.

Ainda que muitos torcedores brasileiros não apostassem na seleção canarinho – e outros tantos sequer se dissessem empolgados com o torneio, conforme, inclusive, abordei em meu primeiro artigo neste MKT Esportivo (relembre aqui) -, uma queda sempre é doída e leva a análises.

Por isso, antes de começar a escrever esta coluna, resolvi esperar alguns dias, deixar a poeira baixar e refletir com algum equilíbrio, despido de emoção, sobre o comportamento do brasileiro em relação a mais esta eliminação. Afinal, será que esse sentimento pelo hexa no Catar era excesso de otimismo de algum torcedor muito apaixonado?

Para minha surpresa, dois dias depois da derrota para a Bélgica tudo parecia voltar à normalidade, sem mais lamúrias. Minha impressão foi a de que os brasileiros aceitaram a queda com resignação e um sentimento do tipo “até que fomos longe demais“.

Nesse ínterim, claro, brotaram teorias para justificar a perda: falta de humildade de jogadores, comissão técnica e dirigentes; excesso de marketing e falta de profissionalismo; atletas com carreiras construídas no exterior – e, portanto, sem vínculo afetivo com o Brasil -; excesso de preocupação com a imagem pessoal, em detrimento ao foco na bola, e outras tantas mais. Diante delas, passei a me perguntar: qual a real validade de uma justificativa depois do ocorrido?

Ora, se por outro lado as razões que explicariam a eliminação não recolocam o Brasil na disputa pelo hexa na Rússia, por outro algumas delas ao menos podem servir para fomentar reflexões para ajustes de rota daqui por diante. E é aqui que o post de WhatsApp que empresta título a esta coluna ganha um segundo – e fundamental – sentido para mim.

Fica claro que o futebol no Brasil ainda é gerido de forma amadora, sem profissionalismo ou com a seriedade que mereceria – algo oposto o que se observa na Europa, Estados Unidos e até mesmo em alguns países asiáticos.

Por aqui – e, justiça seja feita, também em outros países latinos -, continuamos sempre apostando no talento de um novo Pelé, Garricha ou Maradona. Cremos na genialidade de um salvador da pátria que vai colocar a faixa no peito e a taça no armário. E é isso, com as bênçãos dos céus.

Mas a realidade é que nosso modelo de gestão do futebol continua apegado a conceitos dos anos 50: sem planejamento e administrado por gente com pouca – ou nenhuma – experiência.

Foto: Francisco Seco/Associated Press

A tão propalada profissionalização do futebol brasileiro jamais se consolidou; segue no papel, com um ou outro case de sucesso, que quase nunca se sustenta por muito tempo. Os clubes ainda são políticos, e isso só joga contra.

A Confederação, que ao menos em tese deveria se responsabilizar pela organização e potencialização do produto Futebol Brasileiro e seus clubes pelo mundo, segue mais preocupada em vender a Seleção do que cuidar de seus afiliados e apoiar o desenvolvimento do esporte no País. Resultado? Desde 2006 – portanto, há quatro Copas -, o que reina é a tristeza que voltou a nos assombrar ao apito final do jogo contra a Bélgica.

Por tudo isso, a eliminação na Rússia deveria servir de lição aos protagonistas do futebol canarinho – e, reitero, é aqui que as justificativas para uma derrota ganham real valor.

Após a queda num Mundial cujo troféu permanecerá no Velho Mundo – algo que se repete também desde 2006 -, que olhemos o que está sendo feito de bom lá fora e implementemos as muitas mudanças que há tempos se fazem necessárias: mudanças de estatutos; de duração de mandatos; de união entre os clubes; de ajustes para transformação dos clubes em empresas; de divisão mais justa de receitas; de remuneração do quadro diretivo; de estabelecimento de metas e cobranças por resultados; de transparência na prestação de contas; e de adoção de planejamentos factíveis pelas gestões. Urge, ainda, a revisão do calendário anual, do formato dos torneios estaduais e regionais e dos modelos estruturais dos clubes que são os grandes geradores deste conteúdo.

Ou isso, de uma vez por todas, ou continuaremos apenas a formar e perder talentos em tenra idade para mercados mais competitivos e endinheirados – e seguiremos reclamando de estádios vazios e de competições de conteúdo e qualidade questionáveis, enquanto os europeus ganham cada vez mais terreno dentro dos nossos próprios quintais, convertendo nossos filhos em seus torcedores, clientes e consumidores.

Por essas razões – e talvez por outras que deixei de listar neste artigo -, a frase FALTAM 1.470 DIAS PARA O HEXA! CATAR 2022! faça tanto sentido e tenha mexido tanto comigo: precisamos começar imediatamente a pensar em 2022, 2026, 2030 e no futuro de longo prazo daquela que ainda é nossa maior paixão. Só assim poderemos ter chances reais de celebrar o hexa, o hepta e o octa, voltando a ocupar o posto que nos tornou mundialmente famosos por décadas: o de País do Futebol.

Que venha a Copa do Catar – mas que, até lá, as coisas por aqui possam mudar bastante.

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