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Indústria

Falta de governança corporativa explica o aumento do endividamento dos clubes brasileiros

Jorge Avancini apresenta caminhos que visam acabar com o amadorismo administrativo presente no futebol do país

11 out, 2018 Escrito por MKT Esportivo

Por Jorge Avancini
(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Mais uma temporada caminha para seu final, e pouca coisa mudou nos maiores clubes do futebol brasileiro.

Em relatório recente sobre as contas dessas agremiações, o Itaú BBA constatou que as receitas cresceram 16% em 2017, batendo, juntas, quase R$ 5 bilhões. Contudo, os gastos com negociações de jogadores e outros investimentos também aumentaram, comprometendo a saúde financeira e ampliando o endividamento de algumas delas. Em síntese: a situação, que já era ruim para muitos, ficou ainda pior.

Os dirigentes e gestores dos Clubes, que poderiam ter equacionado melhor as finanças, mais uma vez perderam a oportunidade de fazê-lo. E sabe o que é ainda mais preocupante? Há clubes que correm risco real de perderem os benefícios do Profut e se afundarem em dívidas impagáveis.

Das 27 agremiações analisadas pelo Itaú BBA, somente quatro foram apontadas como bons exemplos de gestão financeira: palmas para Flamengo, Grêmio, Palmeiras e São Paulo.

Diante desses dados, pelo menos três perguntas não podem deixar de ser feitas. A saber:

1. Por que isso acontece?
2. Por que essa situação só se agrava?
3. Por que esse modelo falido de gestão nos Clubes brasileiros não é substituído por modernas técnicas de gestão?

Uma possível resposta em comum é que tais resultados estão relacionados justamente ao modelo de gestão adotado pelos clubes – modelo este atrelado a ultrapassadas práticas de gestão.

Intrigado com essa postura – a mim completamente equivocada -, e baseado nas informações do relatório do Itaú BBA, procurei um especialista para tentar compreender as razões que ainda sustentam esse amadorismo administrativo e como nós, executivos e dirigentes, podemos colaborar para a pavimentação de um novo caminho. Quem me mostrou um norte possível foi o Economista José Kleber Corrêa de Barros Ziede, Sócio Sênior da KMZ Associados, de Porto Alegre (RS), consultoria especializada em Governança Corporativa e Gestão para empresas e instituições sem fins lucrativos.

Segundo meu interlocutor; a saída para nosso futebol seria a adoção do modelo de gestão baseado em Governança Corporativa.

Em estudo recente realizado pela KMZ, Ziede constatou que os clubes brasileiros são administrados muito mais pela emoção do que pela razão – algo que um torcedor mais antenado já percebeu há tempos.

Em sua maioria, esses clubes são associações sem fins lucrativos, com gestão pouco profissional, cujos dirigentes eleitos, muitas vezes, sequer têm formação ou experiência em suas respectivas áreas de gestão – e isso me faz lembrar uma história que ouvi, certa vez, sobre um advogado ambientalista que cuidava do Marketing de um gigante do futebol brasileiro.

O consultor explica – e eu corroboro, baseado em minha experiência de duas décadas – que o modelo de gestão, bem como a atuação dos dirigentes, tem foco no curto prazo (entenda-se, no próximo campeonato). Não há preocupação com planejamento de médio e longo prazo. Por consequência, as receitas ficam sempre limitadas às tradicionais – bilheteria, venda de jogadores, patrocínios, direitos de imagem e quadro social (quando há). Na prática, os dirigentes não conseguem vislumbrar outros caminhos de aumento da arrecadação, e tudo isso, somado, leva a uma situação errática e arriscada de geração de caixa e sustentabilidade das finanças.

Paralelamente, os Conselhos Deliberativos – órgãos de tomada de decisões, assim como as assembleias de associados (quando há, mais uma vez) – são geralmente compostos por pessoas com pouco – ou nenhum – conhecimento acerca das questões que envolvem o dia a dia da administração dos clubes. Na prática, elas validam o cenário descrito no parágrafo anterior: preocupam-se muito mais com os resultados de campo e com a política interna, do que contribuem, de fato, para a formulação de estratégias e objetivos de médio e longo prazo.

Pressionados – pela torcida, imprensa, oposição e até mesmo por seus pares – por resultados imediatos, os dirigentes investem na formação de grandes elencos, o que consome parcela significativa do caixa e infla as despesas. Definitivamente, trocam a saúde financeira da instituição por um título (a qualquer preço, literalmente). É quando ganha campo uma máxima que costumo mencionar nas minhas aulas e palestras: para eles, o que importa é faixa no peito e taça no armário. Mas, será mesmo?

Alguém ainda pode contra-argumentar, defendendo o papel dos Conselhos Fiscais. Sim, eles seriam essenciais se, de fato, conseguissem atuar de forma ostensiva na fiscalização das contas da entidade. Ocorre que, muitas vezes, os conselheiros fiscais ficam à mercê das poucas e “muito bem” selecionadas informações disponibilizadas pela Administração e pelas correntes políticas que gerem o clube, limitando, portanto, o importante papel desses órgãos.

Diante desse cenário, o consultor José Kleber Ziede aponta oito desafios a serem enfrentados pelos clubes, como forma de modernização dos modelos de gestão – e, registre-se, compactuo com todos. São eles:

1. Eleger conselheiros com perfil e responsabilidade corporativa;
2. Eleger dirigentes tecnicamente preparados para enfrentar a gestão de um clube;
3. Administrar os movimentos políticos e reduzir a polarização nos órgãos de decisão;
4. Construir uma visão de médio e longo prazo (cinco e dez anos, respectivamente), e não apenas com foco no resultado por temporada;
5. Administrar com mais transparência;
6. Buscar a constante profissionalizar da gestão, seja do dirigente ou dos colaboradores;
7. Ampliar as fontes de receitas, respeitando patrocinadores e investidores; e a mais importante de todas;
8. Construir um modelo de gestão e governança que fomente a perenidade administrativa do clube, independentemente da política interna, garantindo a continuidade dos projetos e a manutenção dos colaboradores em seus cargos, sem risco de desligamentos por motivos políticos, mas tão-somente por performance baseada em metas preestabelecidas, a já conhecida meritocracia.

Ao trabalharem esses oito pontos, os clubes terão construído um modelo de gestão capaz de abordar e discutir aspectos fundamentais para a sustentabilidade econômica e financeira. Da mesma forma, terão estabelecido um novo patamar administrativo, voltado à obtenção de resultados mais consistentes dentro e fora das quatro linhas, sem o imediatismo histórico que impera.

Importante frisar que as federações estaduais, assim como as demais instituições que compõem a organização do desporto brasileiro, também deveriam assumir seu protagonismo nesse processo. Cabe a elas apoiar e disseminar, entre os dirigentes, a urgente necessidade de profissionalização e de gestão consciente, sob pena de situações caóticas e muitas vezes irreversíveis – e ninguém aqui, por certo, consegue imaginar um clube grande quebrado a ponto de fechar as portas, como já ocorreu num passado distante, certo?

Às vezes penso que esse “mundo perfeito”, como costumam dizer os pragmáticos de plantão, é patamar inatingível na realidade do futebol brasileiro, em cujas raízes há muito daquele traço difamatório da cultura brasileira, do jeitinho. Mas se Flamengo, Grêmio, Palmeiras e São Paulo estão conseguindo romper a ordem vigente, de uma maneira positivamente às avessas, por que não manter o otimismo e acreditar que o futuro pode ser menos nebuloso? Sim, é difícil – inclusive para mim, admito. Mas, no dia que eu parar de ter esperança, é porque deixei de gostar e acreditar no futebol.