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Coluna | A repetição de uma fórmula incerta: será mesmo este o melhor caminho?

Embarcando em icônicos cases do futebol brasileiro, Jorge Avancini debate sobre apostar em patrocinador único para montar uma equipe competitiva

8 nov, 2018 Escrito por MKT Esportivo

Por Jorge Avancini
(Com edição de Ricardo Mituti)

 

No último dia 31, o Palmeiras caiu para o Boca Juniors nas semifinais da Copa Libertadores da América.

Mais do que a tradição do torneio e o peso das duas camisas, também estava em jogo a validação de uma arriscada estratégia de gestão e marketing adotada pela segunda vez pelo Alviverde: a de apostar no modelo de patrocinador único para montar uma equipe competitiva – a exemplo do que aconteceu nos anos 90, quando o clube saiu de um incômodo jejum de títulos e voltou a brilhar no cenário nacional graças aos esquadrões montados com dinheiro da então patrocinadora Parmalat.

Embora o Verdão venha apresentando bom desempenho nas últimas temporadas – e, inclusive, desponte como candidato ao título do Brasileiro 2018 -, vale lembrar que, neste ano, o time já havia sido eliminado em outra semifinal: a da Copa do Brasil, para o Cruzeiro.

Com essa gangorra dentro das quatro linhas, o que muita gente questiona é a real eficácia desse modelo de patrocínio – hoje, protagonizado pela empresa de crédito Crefisa. Afinal, até quando vai a relação entre clube e parceiro comercial? E se o patrocinador resolver abortar os investimentos? Que plano B teria o Palmeiras para não reviver o período amargo pós-Parmalat – que, entre outras lembranças desagradáveis, culminou com duas quedas para a série B e uma “quase terceira” em pleno ano do centenário, em 2014?

Foi em busca de respostas para essas perguntas e resolvi conversar com o jornalista Cassiano Scherner, professor doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Trata-se de um tema que ele pesquisa desde 2011 e esta transformando essa história em livro, provisoriamente intitulado de Quando fomos campões – A dupla Ca-Ju e as Conquistas dos Anos 1990, com previsão de lançamento para novembro de 2019. Nele, o autor aborda o impacto do patrocínio da Parmalat nos anos 90 para os times de Caxias do Sul (RS), em especial o E.C. Juventude e seu arqui-rival a S.E.R. Caxias.

A respeito do chamado modelo de cogestão Palmeiras-Parmalat, Scherner conta que, por ser à época um fato novo no futebol brasileiro, a expectativa era que o patrocínio dos italianos fosse algo efetivamente revolucionário, que nos guindasse ao nível de ligas europeias. O clima era de euforia – sobretudo, claro, entre os torcedores e dirigentes dos clubes patrocinados. “Tenho certeza que, depois do nosso exemplo, empresas farão fila para administrar outros clubes”, destacava o então presidente da Palmeiras, Carlos Facchina Nunes (https://glo.bo/2QlLfGT). De certa forma, isso realmente aconteceu. Vamos à história recuperada pelo jornalista.

Em 1997, o Grupo Excel – Econômico investiu no Corinthians, América-MG, Botafogo-RJ e Vitória-BA. Na mesma época, o Vasco fez uma parceira com o banco americano Nations Bank. Em troca da exploração da imagem do clube por um período de dez anos, o fundo aplicou R$ 70 milhões em São Januário.

Um pouco mais tarde, veio a parceria do fundo americano Hicks Muse Tate and Furst (HMTF) com Corinthians e Cruzeiro. Na seqüência, Flamengo e Grêmio se acertaram com a ISL, empresa suíça de marketing esportivo.

“Todos estes acordos, convém ressaltar, foram conseqüência direta de dois movimentos”, atesta Cassiano Scherner.

No campo dos negócios do esporte, ainda no final dos anos 80, a TV Bandeirantes adquiriu os direitos de transmissão do campeonato italiano – então a mais importante e competitiva liga de futebol do mundo – e passou a exibir grandes jogos, com grandes ídolos, ao telespectador brasileiro. Esse investimento se consolidou na década seguinte, com o advento dos canais por assinatura e a ampliação da oferta de conteúdo de outras ligas. Paralelamente a isso, o Brasil se abriu ao capital externo.

É neste contexto que a cogestão Palmeiras-Parmalat se efetiva, menciona o jornalista. E que transforma o futebol verde e amarelo – e, registre-se, cogestão porque a multinacional de laticínios participava das decisões estratégicas do clube, em conjunto com seus dirigentes. Para isso, contratou um executivo do esporte (embora do vôlei): José Carlos Brunoro, que chegou a ter status de ídolo com os atletas que comprava para o Alviverde.

Ao longo dos oito anos de parceria, o saldo foi bastante positivo: nove títulos – inclusive o da Libertadores, em 1999, então inédito. Inesquecível? Sem dúvida! O problema veio depois, com o fim do patrocínio.

Ainda que tenha conquistado o Paulistão de 2008 e a Copa do Brasil de 2012, a vitoriosa história palmeirense foi manchada pelos rebaixamentos – algo tão inédito quanto a própria Libertadores.

O clube precisou se reinventar. Pelo menos em termos administrativos. Mas não o fez de maneira tão eloqüente.

A partir de 2013, o Palmeiras trocou de credor: saíram os bancos, entrou o então presidente recém-eleito, o milionário Paulo Nobre. Sozinho, o mandatário injetou mais de R$ 200 milhões de recursos próprios no clube a juros menores que os de mercado – a paixão falou mais alto do que a razão -, segundo noticiou exaustivamente a imprensa esportiva à época e pelos anos seguintes. Em campo, o time faturou a Copa do Brasil de 2015 e o Brasileirão 2016. Na prática, Nobre fez o que fez a Parmalat – ao menos em partes.

Aliás, nada muito diferente do que faz, hoje, a conselheira-investidora Leila Pereira, proprietária da Crefisa e do Centro Universitário FAM, que bancam a folha salarial do time verde e branco.

Dentro das quatro linhas, apesar das quedas para Cruzeiro e Boca Juniors, Leila – que, importante ressaltar, tem pretensões políticas de assumir a presidência do clube em um futuro não muito distante – e toda nação alviverde esperam o título do Brasileirão como validação do modelo de gestão vigente.

O troféu parece mesmo estar rumando para o Allianz Parque. Mas insisto na pergunta: o que vem depois?

Permito-me usar deste espaço para fazer o papel de advogado do Diabo, dirigindo a você, que me lê até aqui, perguntas complementares às que fiz ao autor do livro sobre a Parmalat: time competitivo e conforto financeiro proporcionados por pessoa física ou jurídica que, por diversas razões, pode mudar de humor de uma hora para outra, são mesmo a melhor e mais segura saída para um clube de futebol?

Talvez você tenha opinião diferente da minha – e, claro, eu te respeito. Mas, para mim, a resposta é não.

A tentação é grande, reconheço. Mas o preço é alto demais em caso de separação. E ainda que ninguém se una a outrem pensando em divórcio, não custa nada lembrar das palavras do poeta: que seja eterno enquanto dure. Enquanto dure.

A mim parece melhor, nesses casos, estar bem para seguir em frente. E, no futebol, estar bem é ter um clube administrativamente equilibrado para sobreviver a esse tipo de intempérie. Porque, ou é isso, ou juntar os cacos – o que, via de regra, nesse universo, significa sofrer na Série B, com exposição limitada e queda nas receitas.

É preciso resistir ao desejo do dinheiro fácil se ele vier de uma única fonte – ou, em outras palavras, não colocar todos os ovos num mesmo cesto, sob pena de perdê-los, em vez de somente alguns, em caso de acidente. Em respeito à torcida (embora nem sempre ela se preocupe com a gestão), à história e ao futuro das nossas seculares agremiações esportivas, ser prudente é mais inteligente.