Coluna

Clube-empresa: o que temos a ganhar com esse modelo de gestão?

8 maio, 2019
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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O noticiário recente envolvendo quatro agremiações brasileiras tem agitado os bastidores do futebol neste primeiro semestre de 2019: falo, aqui, sobre a aproximação de clubes e investidores.

Quem retomou esse movimento foram os irmãos João e Walter Moreira Salles, conhecidos herdeiros do segmento financeiro que, segundo a imprensa, desde o final do ano passado cogitam comprar o futebol do Botafogo.

Mas se no Rio de Janeiro o projeto ainda não evoluiu, em São Paulo já há acordo assinado: há menos de um mês, quem deu um passo nessa direção foi a Red Bull, marca de energéticos dona de alguns clubes de futebol pelo mundo.

Não bastasse já possuir uma equipe na Série A do Campeonato Paulista, a companhia de origem austríaca resolveu aportar dinheiro no tradicional Bragantino. A aliança coloca a marca Red Bull na disputa da Série B do Brasileirão 2019, num modelo de gestão que nasce promissor e já com história para contar, a recordar os inesquecíveis títulos do time de Bragança Paulista – o Estadual de 1990 e o surpreendente vice do Brasileiro de 1991.

Mais recentemente, quem ganhou manchete na imprensa esportiva foi o CSA, de Alagoas – um dos caçulas da Primeira Divisão Nacional de 2019. Há poucos dias, seu presidente declarou haver um grupo de investidores chineses disposto a investir no clube (leia aqui).

Embora essas possibilidades gerem alguma euforia em quem vive o universo do futebol, fato é que não falamos de algo inédito no Brasil – no máximo, incomum. Basta ler esta reportagem do portal Terra, do longínquo ano de 2009, para relembrarmos o que naquela época já eram denominadas “parcerias de sucesso e fracasso” no futebol do País – em referência, especialmente, ao que vivenciamos no final da década de 90. De qualquer forma, a conjuntura agora é outra.

O Governo Federal começa a manifestar intenção de liberar e regulamentar a possibilidade de, num futuro próximo, os clubes se transformarem em Sociedades Anônimas (SA’s), inclusive com oferta de ações na Bolsa de Valores e/ou abertura de capital a investidores internacionais.

Seria, sem dúvida, uma quebra de paradigma e a aproximação definitiva com o modelo de gestão vigente em diversos países e ligas – inclusive, de outras modalidades.

Quem me conhece ou acompanha meu trabalho sabe que sempre defendi uma nova forma de objeto social para os clubes e a abertura de capital a investimentos externos, mas com manutenção da gestão e controle do negócio pelas agremiações. Entendo ser este um caminho possível para a sobrevivência dos clubes, com ganho real de competitividade em relação às equipes de fora – sobretudo as europeias.

Mas, claro, esta não é uma tarefa fácil para a realidade brasileira, onde a torcida tende a não aceitar a hipótese de seu time ter um dono – ou diversos –, boa parte dos dirigentes não cogita mudar o modelo atual e os investidores em potencial, naturalmente, brigariam pelo controle do negócio no qual vão colocar dinheiro.

Por isso, pensando em argumentos para tentar conciliar o maior número possível de interesses, propus-me um exercício que, agora, compartilho com vocês. Suponhamos que conseguíssemos desenhar um modelo híbrido de gestão, com clube e investidor atuando em conjunto e com objetivos claramente delineados, quais seriam, afinal, os ganhos possíveis para os stakeholders envolvidos?

Listo oito que me vêm à mente sem muito esforço. São eles:

1. Cultura de Planejamento Estratégico de curto, médio e longo prazo;

2. Valorização das áreas de Marketing e Comercial dos clubes;

3. Melhor relação com o mercado, aumentando a credibilidade da instituição perante patrocinadores e parceiros em potencial;

4. Profissionalização da gestão – e consequente redução da interferência política;

5. Manutenção de projetos que precisam de mais tempo de implantação e consolidação, livres de impactos causados por mudanças de diretoria ou influência política;

6. Foco no cliente (torcedor) e maior proximidade com os sócios, em busca de fidelização – e, por consequência, perenidade da receita oriunda de quadro social, com perspectivas reais de ascensão contínua independentemente dos resultados de campo;

7. Fluxo de caixa e orçamento responsáveis, com limites, áreas de responsabilidade e verbas estabelecidas para realização de projetos, minimizando ou extinguindo o conceito atual de caixa único – que geralmente destina mais de 80% das receitas apenas ao Departamento de Futebol; e

8. Estabelecimento de plano de carreira e investimento em treinamento e qualificação de colaboradores – e não apenas dos que estão diretamente ligados ao Departamento de Futebol.

Não tenho dúvidas de que há muitas outras vantagens pró-clube-empresa. Mas simplesmente replicar o que deu certo em outras épocas, praças e cenários, sem considerar as peculiaridades culturais e desportivas vigentes por aqui nos dias atuais, é, para mim, ampliar as chances de aumentar as taxas de insucesso – e frustração – com relação a este modelo tão promissor.

 

(Com edição de Ricardo Mituti)