Coluna

Brasil x Europa: no futebol, a distância só aumenta

6 jun, 2019
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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Não é só um Atlântico a distância que separa a América do Sul do Velho Mundo. O futebol, acredite, tem se mostrado mais largo – e profundo – que o vasto oceano e separado ainda mais esses dois continentes, protagonistas históricos no esporte mais popular do globo.

Dois importantes eventos acontecidos recentemente reforçam essa minha tese. O primeiro, realizado em São Paulo (SP) em meados de maio, reuniu profissionais para falar sobre gestão e negócios no futebol brasileiro. Já o segundo aconteceu em Madri (ESP), no último sábado (1): falo da final da Champions League, o mais importante torneio de futebol interclubes do mundo.

OK, você pode perguntar: mas o que um congresso de futebol no Brasil tem a ver com a final da Champions? Para mim, tudo – e isso porque não há nada, absolutamente nada, que aproxime o futebol enquanto negócio praticado aqui e na Europa.

Explico e contextualizo.

No evento realizado na capital paulista, um congresso de dois dias, ficou evidente a distância cada vez maior que separa a gestão do futebol feita no mundo e no Brasil. E vale registrar, aqui, que não falo apenas de Europa; Estados Unidos e China, dois importantes mercados consumidores – hoje também produtores de “conteúdo futebol” -, tratam melhor dos bastidores da modalidade do que nós.

A cada novo palestrante, painel de debates ou case internacional mostrado no evento, minha convicção acerca do quão obsoletos estamos só aumentava. Isso sem falar na ausência quase absoluta de dirigentes de alto escalão, que, na minha opinião, deveriam ao menos ter dado as caras no local, ainda que só de passagem. Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

É verdade que, por outro lado, notei um número bastante expressivo de jovens empreendedores e novas soluções para o universo do futebol – dentro e fora das quatro linhas. Ao menos isso foi animador.

Sou de uma geração que começou a se envolver com a modalidade no final dos anos 90. Na ocasião, tínhamos pouco – ou quase nada – que nos ajudasse a tocar o dia a dia do clube. Referências? Só mesmo as velhas práticas de gestão até hoje vigentes.

A internet começava a ser olhada com mais carinho. A moda era criar um site. Só anos depois é que surgiu o Orkut, o pai das redes sociais. Graças a esse conceito é que começamos a nos relacionar institucionalmente, de maneira mais íntima, com torcedores e clientes.

Não havia muita bibliografia disponível. Havia, sim, era muita dificuldade para trocar experiências e intercambiar ferramentas de gestão que ajudassem o clube a sair do lugar comum.

Muitos fornecedores vinham beber diretamente na fonte – entenda-se, nos clubes. E era esse contato o responsável por startar o desenvolvimento de produtos.

Hoje percebemos uma mudança radical nesse contexto.

As redes sociais e os smartphones reduziram distâncias.

Todos somos geradores de conteúdo, e muitos têm a capacidade de desenvolver softwares, soluções ou mesmo criar startups capazes de aumentar performance e/ou gerar receita – direta ou indireta – ás agremiações. A questão, agora, em meio à profusão de ofertas, é escolher corretamente os produtos e parceiros que poderão fazer a diferença.

O ponto é que nada disso faz sentido – ou gera resultado real – se nossos clubes continuarem administrados de maneira amadora, sem transparência ou valorização de quadros técnicos, capacitados e especializados.

O mundo mostra, e os números da Champions League e de suas equipes comprovam, que o modelo brasileiro de gestão do futebol – se é que podemos falar em gestão do futebol no Brasil – está completamente ultrapassado e equivocado. Se hoje já está difícil competir de igual para igual com os times europeus, imagine daqui a dez anos…

Houve um treinador brasileiro da velha guarda, atualmente desempregado, que há algumas semanas disse na televisão que supervalorizamos profissionais estrangeiros. Abusando da ironia, deu a entender que, pentacampeões que somos, não temos nada a aprender com quem venceu menos do que nós.

Ora, se antes os talentos brotavam dos terrões e campos de várzea com bastante frequência e alguma perenidade, hoje já não podemos nos amparar nisso. Primeiramente porque há algum tempo não vemos surgir craques aos borbotões, como no passado. Em segundo lugar, porque não conseguimos reter os talentos que surgem, diante da força do Euro e do Dólar. E é aí que voltamos ao tema Champions League.

Liverpool e Tottenham fizeram uma grande final em gramados espanhóis.

Além da beleza, da disciplina tática e da intensidade da partida, o duelo de ingleses só comprova que gestão profissional faz toda diferença na busca por resultados. E, aqui, falo especificamente do vice-campeão Tottenham, que há anos vem se preparando para figurar entre os protagonistas do futebol mundial – investindo, inclusive, num moderníssimo estádio.

Mais do que um dono rico capaz de montar um esquadrão estrelado, com os mais caros jogadores do planeta, o clube londrino tem como filosofia administrativa o trabalho com foco em resultados. Pois é!

Já quanto aos campeões, chamou minha atenção uma notícia veiculada ainda no fim de semana, sobre o uso de dados, tecnologia e a presença de um físico teórico da renomada Universidade de Cambridge nos quadros do Liverpool (leia aqui). Então, não temos mesmo nada a aprender com os gringos?

Sobre a final da Liga enquanto evento, creio ser desnecessário dispensar mais do que três ou quatro linhas desta coluna para registrar algo que quem acompanha ou vive o futebol já sabe bem: show de organização, profissionalismo e aproveitamento de oportunidades – antes, durante e depois da partida. Só a Copa do Mundo da Fifa, na minha opinião, é mais grandiosa do que a Champions – embora não tão mais. Brasileirão? Se comparado à Liga, parece pelada de final de semana entre amigos.

Você, que chegou até aqui, pode até me chamar de profeta do fim do mundo – com alguma razão, admito. Mas penso que se a situação não mudar radicalmente em terras brasileiras – e em curto prazo -, a linha do horizonte no Atlântico irá se afastar milhares de quilômetros do nosso País.