Indústria

Clubes de futebol devem promover transformação social

Enumerando experiências de sua vasta carreira, Jorge Avancini destaca a importância de ações sociais promovidas dentro do futebol

12 set, 2018

No momento que nosso país passa por inúmeras dificuldades para oferecer um serviço digno nas áreas social, educacional e de saúde, em que sucessivos governos, sejam eles municipal, estadual ou federal não conseguem suprir e cumprir seu papel estabelecidos em suas constituições, que seria prover as melhores praticas de serviço e apoio em função das elevada taxa tributária cobrada dos cidadãos e da iniciativa privada. Onde precisamos assistir estarrecidos com a nossa história ser destruída pelas chamas que consumiram o Museu Nacional do Rio de Janeiro por total negligencia das autoridades ao longo de anos. Acaba sobrando para cada um de nós, cidadão, empresas  ou instituições promover e suprir assistência educacional e social aos mais carentes, esperando que o resultado desse trabalho em médio e longo prazo traga uma sociedade melhor e mais justa para o nosso País e para o futuro das novas gerações.

Sempre fui um defensor de ações sociais promovidas pelos clubes, principalmente se isso ocorre de forma organizada, sistêmica e continua para as comunidades carentes que tenham identificação com a Instituição e seu DNA.

Parto do princípio que um dos pilares essenciais de um clube de futebol de grande massa deveria ser o de devolver para a comunidade o tanto que de seus torcedores e simpatizantes ele clube recebe, seja por meio de mensalidades, aquisição de produtos oficiais ou bilhetes para jogos.

Para mim, inclusive, os clubes brasileiros deveriam ter esse viés social escrito em seus planejamentos anuais (claro, refiro-me àqueles que fazem planejamento).

Acredito que ao Clube fazer esse algum tipo de ação social, isso irá  trazer muito retorno, seja; pelas próprias ações sociais realizadas junto a comunidade, como visibilidade e retorno espontâneo de mídia, e principalmente, colocando o clube num patamar diferenciado dos demais,  oportunizando que  as grandes corporações vejam isso com bons olhos e comecem a mirar o clube de forma diferenciada, abrindo as portas para outros projetos e negócios e quem sabe, até oportunizar futuros patrocínios comerciais nesse clube.

Vivi experiências sociais engrandecedoras tanto durante minha passagem pelo Sport Club Internacional quanto pelo Esporte Clube Bahia.

Em 2008, o Inter criou o Projeto Interagir, cujo objetivo é assistir crianças carentes de diversas comunidades próximas ao estádio Beira-Rio ou indicadas pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, apoiadora da iniciativa.

Mais de 30 mil crianças, em situação de risco social, já foram beneficiadas pelo projeto, por meio de atividades educacionais e esportivas. Tudo com estrutura do clube e mão de obra voluntária.

Ainda no Colorado, também me recordo das inúmeras campanhas de doações que promovemos, sendo a mais marcante delas a de 2009, ano do centenário do clube, quando arrecadamos mais de 60 mil toneladas, entre roupas, alimentos não perecíveis e água para famílias desabrigadas pelas chuvas que assolavam o estado vizinho de Santa Catarina.

Já no Nordeste, destaco a parceria que fechamos, em nome do Tricolor de Aço, com as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), entidade filantrópica que já soma mais de 6 milhões de atendimentos gratuitos de saúde à comunidade baiana menos favorecida.

O acordo firmado previa o repasse à OSID de 1% de tudo o que o Esporte Clube Bahia arrecadasse com patrocínios e quadro social. Além disso, o time usaria em seus uniformes um selo com a esfinge da Irmã Dulce, como forme de divulgar a instituição e contribuir para a captação de novas doações.

Uma série de outras ações também foi executada por meio dessa parceria entre o clube e a OSID. Entre elas, repasse de alimentos arrecadados durante treinos e jogos do time e doação de material esportivo do Esquadrão de Aço ao centro educacional mantido pelas Obras Sociais Irmã Dulce (veja matéria no Correio 24 Horas).

Firmamos, também, uma parceria com a Fundação José Carvalho, localizada no município de Pojuca, por meio da qual o clube implantou na comunidade uma escolinha modelo de futebol, com apoio técnico dos profissionais da base do Bahia. A unidade atende, em média, 80 crianças, de oito a 14 anos, todas em alto risco social (veja matéria do site A Tarde)

A cereja do bolo, contudo, veio com um acordo com a Unicef, pelo qual o clube passou a integrar o programa “Jogue Bem, Jogue Limpo”, cujo objetivo é justamente dar suporte aos clubes brasileiros de futebol para que trabalhem, com planejamento e eficácia, os seus pilares sociais.

Apropriando-me do mundialmente conhecido lema do Barcelona, os clubes brasileiros de futebol deveriam ser muito “mais que um clube”. Para mim, essas instituições deveriam, no mínimo, cumprir a função de promover bem-estar ao seu entorno e contribuir para a equalização das diferenças de oportunidades. Assim, teriam o privilégio de se posicionarem como protagonistas de uma revolução social que somente esporte e educação são verdadeiramente capazes de promover.