Indústria

Seja bem-vindo, 2019

Jorge Avancini faz um pequeno balanço de 2018 e apresenta as perspectivas para 2019

22 jan, 2019

Dois mil e dezoito foi um ano médio para clubes brasileiros e anunciantes do futebol. E isso se deu muito em função de um “combo” nascido de incertezas econômicas e eleições presidenciais no Brasil, Copa do Mundo da Rússia e troca de comando em um bom número de agremiações – destas, sem dúvida, a mais radical aconteceu no Flamengo, com a saída de um gestor saneador de dívidas, mas sem títulos, e a entrada de dirigentes que chegaram gastando fortunas na montagem de um time superestrelado.

Coincidência ou não, 2018 teve um campeão brasileiro que também se fez pelo dinheiro – o que, desportivamente, contribuiu para que encerrasse a temporada muito à frente dos rivais.

Nessa minirretrospectiva esportiva, não poderia deixar de citar duas outras notícias que marcaram a temporada passada: o crescimento da média de público nos jogos do Brasileirão e a ousada estratégia de rebranding do agora Club Atlehtico Paranaense – cuja história é marcada por audácia e inovação.

E se em linhas gerais 2018 passou longe de ser um ano incrível para o futebol no – e do – País, a temporada recém-iniciada não me parece que será muito diferente (e que me perdoem os otimistas de plantão!). Principalmente se considerarmos que o dinheiro, citado no início desta coluna, só está sobrando pelos lados do Palestra Itália e da Gávea.

Voltando ao Flamengo, a nova diretoria abriu o cofre e foi às compras como se não houvesse amanhã. Tudo por um título – nem que seja do tímido Estadual do RJ.

A questão é: e se nem assim o título vier? Possivelmente, todo o trabalho de saneamento financeiro liderado pelo ex-presidente Bandeira de Mello poderá ser abalado – para não dizer perdido.

Não tenho dúvidas que a apaixonada torcida rubro-negra vai lotar os estádios para prestigiar cada jogo do novo esquadrão flamenguista – e que a arrecadação com bilheteria irá garantir o pagamento de parte dessa conta de caras contratações. Também deve aumentar o número de venda de camisas, artigos licenciados e, quem sabe, do dinheiro apurado com o quadro social. Ainda assim, mesmo que estejamos falando da maior torcida do Brasil, a velha estratégia do supertime, sem um patrocinador forte nos bastidores, é bastante temerária.

No outro extremo da ponte aérea, por sua vez, o Palmeiras reforça o time e mantém seus principais jogadores para 2019. Fora das quatro linhas, o grande destaque do atual campeão brasileiro é a chegada da Puma como nova fornecedora de material esportivo do clube, no lugar da Adidas.

Contando com o apoio de sua fanática torcida, seu belíssimo estádio e a tradição de ser um time de chegada – além, é claro, da manutenção do investimento da Crefisa –, o Alviverde é um dos poucos clubes que podem fazer frente ao Flamengo neste ano.

Aliás, o dinheiro parece mesmo ser o protagonista do futebol no Brasil em 2019. Em todos os sentidos. A temporada recém-iniciada marca o retorno do Banco BMG à modalidade, após alguns anos de hiato.

A instituição, que já patrocinou diversas equipes simultaneamente, agora estará presente na propriedade master do uniforme do Corinthians. Com exclusividade – pelo menos por ora.

O acordo, claro, não poderia resultar em outra coisa que não uma “guerra” com a Crefisa, mantendora do rival Alviverde. A provocação começou desde o anúncio da nova parceria pelo clube de Parque São Jorge.

Se em termos de investimento a Crefisa ainda parece ser mais agressiva do que o concorrente, é inegável que deveremos assistir a alguns episódios de criatividade em alta em termos de ativação neste ano.

Em contraposição à volta do BMG, a má notícia, até agora, também vem do segmento econômico-financeiro: a saída da Caixa Econômica Federal do futebol.

É certo que essa decisão irá impactar negativamente os cofres de mais ou menos duas dezenas de clubes – o que tem tirado o sono de dirigentes e executivos. Mas sou do tipo que vê oportunidade na crise.

Sem o dinheiro da Caixa, os clubes deverão fortalecer e apostar em suas estruturas de Marketing e Comercial, na busca por novos parceiros e patrocinadores. Essas áreas, muitas vezes relegadas, passarão a ter papel ainda mais importante a partir de ontem – tamanha a urgência. É chegada a hora de sair da zona de conforto, sacodir relacionamentos e usar da criatividade para suprir esse gap.

Acho, também, que o momento pode fortalecer os planos de quadro social – pelo menos como caminho para reposição de parte das receitas perdidas.

Revistos e adequados à nova realidade e aos desejos do torcedor, os projetos de associação poderão ter grande utilidade nesse momento de transição – e, claro, podem até se estabelecer como fonte de receita primária das agremiações, desde que bem trabalhados.

Mas, falemos de outra pauta que não seja o dinheiro antes que encerre esta primeira coluna do ano.

Em Belém (PA), uma ação inclusiva da diretoria do Paysandu foi muito bem-recebida pelos amantes do futebol: todas as coletivas de imprensa realizadas no estádio do clube a partir de agora contam com tradutora de Libras. Para mim, a medida já nasceu como benchmarking. Golaço dos paraenses!

É por toda essa dicotomia, logo no primeiro mês do ano, que espero uma temporada repleta de novidades e boas expectativas, mas também de preocupantes incertezas.

Torçamos para que o ano nos traga mais ensinamentos do que decepções.

 

Seja bem-vindo, 2019!