Indústria

Criptomoedas no futebol: modismo ou fonte real de receitas?

Jorge Avancini analisa se as ‘moedas digitais’ terão espaço entre os clubes brasileiros

13 fev, 2019

Quem me acompanha sabe que há tempos defendo que os clubes precisam usar da criatividade para buscar novas fontes de receita – o que chamo de “dinheiro novo”, advindo, preferencialmente, por quem não opera ou nunca operou no futebol.

Em 2018, muito se falou sobre as moedas digitais (criptomoedas). E alguns clubes brasileiros, motivados pela euforia instalada no mercado acerca desse tema, resolveram surfar a onda. Foram os casos de Athletico, Avaí e Cruzeiro de Porto Alegre, por exemplo.

Celebridades do futebol mundial, como o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, também ingressaram no segmento, assim como alguns gigantes europeus – caso do PSG.

Como esse tema é muito novo, técnico e com experiências malfadadas, resolvi conversar com um especialista no assunto para abortar o tema neste MKT Esportivo: falei com Alessandro Corrêa, que atua na L&S Educação, empresa parceira da XP Investimentos.

De forma didática e com linguagem bastante simples, ele explica o que são as criptomoedas, como funcionam e de que forma os clubes brasileiros de futebol podem tirar proveito delas, de modo que a investida não figure como mais uma brilhante solução fracassada.

Confira abaixo algumas das informações e opiniões mais relevantes passadas Alessandro Corrêa:

História

Em 2009, um cidadão chamado Satoshi Nakamoto publicou um artigo, numa comunidade de tecnologia, que tratava de uma moeda digital, descentralizada, segura e não regulada pelos órgãos de governo. Nascia assim o Bitcoin, tecnologia inovadora e disruptiva no mercado financeiro.

A finalidade do Bitcoin era comprar coisas sem a necessidade de uma entidade financeira por trás, para validação das transações.

Juntamente com o Bitcoin, surgiu a Blockchain, cadeia de blocos que validava as transações e dava segurança a toda a rede.

O curioso sobre o surgimento do Bitcoin é que a figura de Satoshi Nakamoto é enigmática. Ninguém sabe ao certo de quem se trata. Alguns acreditam que seja um programador de computares; outros pensam que seja uma equipe que adotou esse pseudônimo para não ser identificada. O certo, no entanto, é que, independentemente de quem seja a responsabilidade por sua criação, a criptomoeda surgiu para quebrar paradigmas – marca dos novos negócios neste século.

O que é?

Um dos principais conceitos das criptomoedas é a fonte de financiamento de projetos de qualquer natureza – ou seja, trata-se de uma oportunidade de arrecadação de fundos para o desenvolvimento de algum negócio ou segmento de mercado de interesse da população.

Como funciona?

Um projeto é criado e, da mesma forma que uma empresa lista suas ações na Bolsa de Valores, uma criptomoeda é lançada para realizar a captação dos recursos necessários para a realização de um projeto. 

 

Mercado

A partir da criação desse novo mercado, muitas foram as oportunidades que se avizinharam. Centenas de outras moedas foram criadas desde então – algumas com características interessantes; outras, nem tanto.

Atualmente, temos mais de 2 mil criptomoedas em circulação.

O mercado global de criptomoedas negocia atualmente cerca de US$ 114 bilhões, com movimentação diária de pouco mais de US$ 17 bi.

No Brasil, no final de 2018 tínhamos mais CPFs registrados em criptomoedas do que na Bolsa de Valores.

Criptomoedas no esporte

Quando um clube de futebol – ou mesmo de outra modalidade esportiva – precisa de dinheiro, costuma recorrer aos meios tradicionais de captação de recursos, tais como venda de jogadores, publicidade, empréstimos bancários e fundos ligados ao esporte, por exemplo.

 

Avaliemos abaixo as investidas de Avaí e Athletico no universo das croptomoedas:

 

AVAÍ FUTEBOL CLUBE

O clube catarinense aderiu às criptomoedas como meio de financiamento para ações específicas.

Em seu White Paper (documento do projeto), refere que: “…o uso dos recursos captados será destinado em 50% para investimentos em infraestrutura, 25% para alcançar o equilíbrio financeiro e outros 25% para a melhoria do plantel de jogadores…”

 A oferta pública das moedas foi realizada, mas os objetivos financeiros não foram alcançados. Com isso, como previa o documento do projeto, os recursos foram devolvidos aos investidores.

Clique aqui e veja como esse negócio repercutir na imprensa (a notícia também fala sobre a entrada do Atlético Mineiro nesse mercado).

 

CLUB ATHLETICO PARANAENSE

Diferentemente do Avaí, o Athletico optou por fazer uso das criptomoedas num modelo de negócio compartilhado, por meio de uma empresa especializada em futebol que já possuía estrutura de moedas digitais e oferecia uma gama de produtos à torcida – entre eles, acesso a jogos e treinos fechados e descontos em produtos licenciados.

Assim como o Avaí, o clube paranaense não obteve sucesso – e alguns questionamentos sobre o parceiro de negócio foram feitos pela imprensa (leia aqui).

Para Alessandro Corrêa, o fiasco se deu pela falta de projetos sólidos e pela falta de conhecimento que ainda impera entre investidores em potencial.

 

Minha opinião

As informações e ponderações acima mencionadas, de um conhecedor do assunto, fazem com quem, hoje, eu não veja as criptomoedas como alternativa factível de receita aos clubes brasileiros de futebol. Por quê? Sobretudo porque concordo com a análise acerca da falta de projetos sólidos por parte das agremiações e pela falta de conhecimento sobre o tema pela maioria dos torcedores – ainda que, evidentemente, um o outro possa dominá-lo.

Considerando-se um cenário mais amplo, também entendo que o Brasil ainda engatinha nesse negócio disruptivo. Seria preciso termos um mercado mais consolidado, creio, para que as instituições esportivas operassem com mais segurança, credibilidade e assertividade, e a torcida soubesse, de fato, lidar com esse tipo de transação – também com segurança, acima de tudo. Afinal, quando o assunto é dinheiro, seja físico ou virtual, nem mesmo a paixão clubística, sempre inquestionável, é capaz de fomentar cega adesão. Como diz o ditado “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”.

Continuo acreditando que devemos estar atentos às novidades, de modo a oportunizá-las quando se mostrarem efetivamente proveitosas. Mas é preciso se cercar de gente séria, especializada e compreender o tema a fundo, para que o tiro não saia pela culatra.