Coluna

Jogo preliminar amplia potencial do ‘produto’ futebol

17 jul, 2019
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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Comecei a frequentar os estádios de futebol quando estava com mais ou menos 12 anos, em companhia de amigos do bairro e do meu primo José Luiz.

Todo domingo eu pegava bandeira e almofada – que me ajudava a isolar o frio da arquibancada de concreto -, punha alguns trocados no bolso e rumava de bonde para o antigo Estádio dos Eucaliptos, que ficava localizado no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre (RS). Era dia de ver o Internacional jogar para tentar quebrar a hegemonia do arquirrival Grêmio, que, àquela época, na segunda metade dos anos 60, acumulava títulos regionais, aproveitando-se dos investimentos feitos pela diretoria colorada na construção do Gigante da Beira-Rio.

Como hoje, as partidas começavam às 16h. Mas eu e meu primo costumávamos chegar bem mais cedo para assistir à preliminar dos aspirantes, que geralmente era disputada pelas mesmas equipes que se enfrentariam no duelo subsequente.

Esses jogos preliminares eram uma grande oportunidade para a torcida conhecer os talentos da base, meninos que um dia iriam envergar o manto sagrado do clube como profissionais.

Para nós, que também guardávamos no íntimo o desejo de defender as cores do time do coração, era quase a comunhão de um sonho. Foram nesses jogos que tive a oportunidade de ver despontar, ao vivo, nomes como Paulo Roberto Falcão, Escurinho, Jangada e Sérgio Galocha, entre tantos outros, que pouco tempo depois se consagraram campeões no supertime multicampeão do Inter nos anos 70.

Lamentavelmente, essas preliminares foram proibidas em nome da preservação dos gramados e da dinâmica do evento – este último argumento, confesso, sem muito sentido em minha opinião.

O fim dessas partidas deixou uma enorme lacuna no âmbito da revelação de talentos à torcida – ainda que, com o advento das mídias sociais, neste século, o conhecimento do(a) torcedor(a) sobre os meninos da base de seu time do coração não tenha sido efetivamente prejudicado. Basta lembrar da euforia da torcida do Santos quando, em 2009, Neymar despontou na lateral do gramado para entrar em campo no segundo tempo de um jogo do Campeonato Paulista e fazer sua estreia pela equipe profissional de Vila Belmiro, aos 17 anos: o Brasil já sabia quem era aquele jovem e esperava por aquele momento.

De qualquer forma, permitir que outros Neymares possam jogar para a torcida mesmo antes de ascenderem ao profissional é dar a eles uma experiência que, para mim, hoje, faz-lhes alguma falta.

Isso sem falar, claro, que um “combo” de dois jogos pode aumentar a atração do produto, antecipar a entrada da torcida no estádio – e, por consequência, ampliar o potencial de receita de clubes, fornecedores e parceiros comerciais – e fomentar outras estratégias de matchday, tornando o dia de jogo uma festa ainda mais atraente (para a torcida) e lucrativa (para os players envolvidos).

Vou além: jogos preliminares também poderiam ser uma ótima maneira de incentivar os clubes a criarem equipes de futebol feminino, de base e/ou principais.

E é importante deixar claro, aqui, que não vejo o futebol feminino apenas como um “esquenta” do masculino. Penso que aproveitar o formato da partida preliminar seria abrir uma nova porta para aproximar ainda mais a modalidade da torcida – que, definitivamente, já a acolheu, haja vista a grande audiência da recém-concluída Copa do Mundo – e de parceiros comerciais em potencial.

Cumprida essa missão, dando ao time das meninas sustentabilidade econômica enquanto produto e viabilizando-o como negócio ao clube, nada mais justo que fomentar a criação de competições específicas, com calendários próprios e condições justas, que permitam a elas viverem do esporte. Seria um golaço para elas, para a modalidade, para as agremiações e para as marcas apoiadoras.

Assim, fosse num híbrido de jogos masculinos e femininos ou num outro modelo que eventualmente fizesse mais sentido para o produto futebol e seus(suas) protagonistas, o interessante seria ver a volta dos jogos preliminares.

Recuso-me a acreditar que tal medida prejudique o espetáculo ou seu palco, tampouco esvazie torneios e competições que hoje, de alguma forma, tentam cumprir o papel de revelar à torcida seus futuros ídolos.

Ao contrário, só posso crer que estreitar os laços entre o prestador de serviço (clube) e seu(sua) cliente (torcedor/a) é tudo o que de mais certo poderia ser feito, sobretudo num momento de entrada agressiva e maciça de clubes estrangeiros no País, ávidos pelo coração – e pelo dinheiro – das jovens gerações de torcedores.

Reconquistar – ou conquistar – essa meninada pelo compartilhamento de um possível sonho, como outrora aconteceu comigo, aproximando-a de outros meninos e meninas que já envergam camisas de peso do futebol brasileiro, a mim parece muito mais frutífero do que duvidoso. Por que não, então?