Coluna

SAE: mais oportunismo político do que realidade

19 set, 2019
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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Não há como deixar de voltar a abordar o tema clube-empresa, embora já o tenha feito em duas ocasiões neste ano, em colunas publicadas neste MKT Esportivo em maio e julho.

Quem teve a oportunidade de lê-los sabe que sempre fui favorável ao modelo, desde que executado de forma clara e profissional.

Na coluna de julho, tratei, com muita esperança, sobre a possibilidade da entrada dos irmãos Moreira Salles no Botafogo carioca – fato que até o momento não se concretizou, mas que ao menos sinaliza possíveis novos tempos no clube da Estrela Solitária.

De concreto, o que temos até o momento é a exitosa parceria entre Bragantino e Red Bull, cuja equipe atualmente lidera a Série B do Brasileiro com confortável margem em relação ao segundo colocado, e o Botafogo de Ribeirão Preto, agremiação gerida por um grupo de investidores sob a égide da modernização e da profissionalização. Aposto que logo os resultados também começam a aparecer por lá.

À parte ambos os casos, nas últimas semanas muito se falou sobre uma reunião entre dirigentes de clubes e lideranças politicas, realizada em Brasília (DF), cujo objetivo era colocar em pauta a votação/aprovação de mais uma proposta mirabolante, de autoria do deputado federal Pedro Paulo (DEM-RJ), para possibilitar que as agremiações do futebol brasileiro se tornassem Sociedades Anônimas – as famosas S.A. -, e, com isso, pudessem receber investimentos privados. A sigla da vez é SAE – Sociedade Anônima Esportiva -, que dá título a esta coluna.

Até aí, tudo bem – apesar do meu “mirabolante”, linhas acima. Afinal, já faz um bom tempo que é necessário repensar o atual modelo societário dos clubes, de modo que possam se modernizar de verdade para enfrentar os novos tempos de competição acirrada – sobretudo com os gigantes europeus, anos-luz à nossa frente tanto em âmbito desportivo quanto no de gestão.

Mas o que não está na conta, agora, é que, mais uma vez, fala-se em perdão de dívidas, novos refinanciamentos de passivos fiscais e outros temas congêneres, algo que já esteve no cerne de Lei Pelé, Timemania e Profut, e que, com poucas exceções, não foram devidamente aproveitados pelos clubes, que continuam se valendo de modelos ultrapassados de gestão.

Fato é que, infelizmente, a profissionalização da gestão do futebol no Brasil caminha a passos de tartaruga.

Muitos são os clubes que ainda insistem em manter no comando a figura do velho cartola e sua patota, sem perspectivas concretas de colocar a casa em ordem e elevar a instituição a um patamar de excelência administrativa – e, por consequência, desportiva.

A ideia de mais um perdão fiscal aos eternos devedores a mim parece muito mais jogada de cena, eleitoreira do que efetivamente um passo certo na estrada da tão sonhada profissionalização do futebol brasileiro.

Que investidor em sã consciência irá colocar seu dinheiro em uma instituição que será (mal) controlada por terceiros – poucos deles, realmente capazes de fazê-lo com primazia? Ou será que nosso dirigente está de fato disposto a receber de braços abertos esse futuro investidor para, em contrapartida, ceder a ele a administração do clube do coração, transformando-se em Rainha da Inglaterra? E como fica a parte “podre” das dívidas dos clubes? Quem vai pagar essa conta: o contribuinte, mais uma vez?

Parece que o caso recente do fiasco do Figueirense não surtiu efeito – ou pouca lição deixou – aos nossos políticos e dirigentes, lamentavelmente.

E não poderia concluir sem abordar outro aspecto que sempre me intriga nessas propostas milagrosas feita por nossos políticos: por que só o futebol entra no radar dos privilégios, enquanto outras modalidades esportivas – ou mesmo os clubes sociais, muitos deles formadores de grandes talentos olímpicos – ficam à míngua, sem apoio, políticas de investimentos ou as mesmas benesses previstas para o esporte bretão? Seria porque tais modalidades não garantem votos nas eleições?

Fica a reflexão – ou provocação. Como queira, prezado(a) leitor(a).