Coluna

Streaming é realidade sem volta

27 fev, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Gostaria de contar uma história para abrir o artigo desta quinzena neste MKT Esportivo.

No final dos anos 2000, alguns dos chamados grandes clubes do futebol brasileiro começaram a montar suas próprias estruturas de televisão. Parte dos recursos investidos na empreitada era financiada, veja só, pela detentora dos direitos de transmissão para o Brasil dos mais importantes torneios regionais, nacionais e continentais da modalidade.

Com a constituição de uma estrutura operacional própria para criação de conteúdo audiovisual, as agremiações pretendiam gerar material exclusivo para torcedores(as), associados(as) e mercado em geral. Mas as tecnologias disponíveis àquela época ainda eram rudimentares – se comparadas às de hoje -, e os custos, elevados.

Esses dois fatores, entre outros, foram decisivos para que os clubes optassem por montar estruturas enxutas, com poucos equipamentos – em quantidade e sofisticação – e pouca mão de obra.

Lembro de ter ouvido comentários sobre o árduo trabalho realizado pelo pessoal das tevês oficiais, que precisavam fazer malabarismos tanto para conseguir conteúdo diário em volume adequado quanto para, conseguido o material, disponibilizá-lo na rede – o que, volto a lembrar, naqueles tempos não era tão simples quanto hoje.

Vinte anos se passaram, mais ou menos, e o streaming é a bola da vez nas transmissões esportivas. Aliás, mais do que isso: se em 2015 a exibição ao vivo de competições esportivas pela internet ainda soava como uma oportunidade futura de negócio, desde 2019, especialmente, o que se viu foi um tsunami varrer os velhos hábitos de consumo de conteúdo esportivo em plataformas de audiovisual.

A chegada ao País de empresas especializadas em conteúdo esportivo, como a alemã DAZN, e as entradas de players como Amazon e Apple na jogada do streaming especializado – nestes casos, às vezes até como coprodutoras de séries exclusivas com clubes e atletas que atuam no futebol europeu – são claros sinais de que o negócio subiu alguns degraus e, efetivamente, tornou-se um grande negócio.

(Se você chegou até aqui e ainda não se convenceu da relevância do streaming para a indústria do esporte, basta notar que este MKT Esportivo mesmo possui uma seção própria para o assunto).

Mas quais os impactos do streaming para os players do esporte para além do exposto, você pode me perguntar?

O primeiro que elenco é o que afeta o pay-per-view – e, portanto, a detentora dos direitos de transmissão para o meio TV fechada.

A modalidade dá evidentes sinais de declínio e, dia após dia, perde algumas centenas de assinantes.

Há especialistas, inclusive, que já decretaram o fim do pague-(ainda mais)-para-ver para muito, muito próximo. Eu, particularmente, não duvido disso.

Mas não é só o pay-per-view que se transforma com o advento do streaming. A grande onda também vem causando estragos na TV aberta.

As grandes emissoras, detentoras dos direitos de transmissão – em especial, a maior delas, mencionada no início do artigo –, que sempre fizeram valer a própria vontade na definição de dias e horários de jogos para não terem de mexer em suas grades regulares de programação, também estão perdendo audiência.

Afinal, por que raios eu, torcedor, tenho de assistir ao jogo do meu time na hora que a emissora decide se hoje eu disponho de tecnologias que me permitem vê-lo a hora que eu quiser? Chega desses Frankensteins de jogos de domingo às 11h em pleno verão, segundas-feiras às 19h30, quando estou engarrafado no trânsito tentando voltar para casa, ou quartas às 22h, quando estou saindo da faculdade ou me preparando para dormir porque acordo às 5h no dia seguinte.

Outro impacto? Pois bem! O streaming, para anunciantes e assinantes, geralmente custa menos do que pay-per-view e/ou assinatura de TV a cabo ou por satélite. Considerando-se que a TV aberta passa menos jogos do que a fechada, contar apenas com a detentora dos direitos de transmissão para assistir ao tradicionalíssimo jogo do domingo às 16h não me parece ser tão competitivo quanto as possibilidades oferecidas pelo streaming, certo?

Mas voltemos à história que narrei na abertura deste artigo (porque desta vez eu já abusei do seu tempo, reconheço).

Se no Brasil algumas tevês oficiais de clubes evoluíram sensivelmente, outras estacionaram no tempo. Nenhuma delas, entretanto, ainda conseguiu surfar a onda do streaming enquanto máquina de fazer dinheiro e garantia de autonomia sobre produção e transmissão de conteúdo proprietário.

Lembro de iniciativas louváveis, como um clássico Athletiba transmitido em 2017 com exclusividade pelo Facebook – a maior rede social do mundo e ela própria também um player do streaming esportivo em parceria com algumas entidades do futebol. Em termos de receitas, entretanto, não me parece que Athletico e Coritiba tenham enchido os cofres com essa atitude vanguardista.

Por outro lado, cruzando o Atlântico, a Premier League anunciou, não faz muito, que vai lançar um produto nos moldes da Netflix – a gigante dos filmes e séries sob demanda -, que irá disponibilizar o conteúdo de suas competições ao(à) apaixonado(a) torcedor(a) inglês(a).

Veja bem, prezado(a) leitor(a), trata-se de um produto – ou seja, algo que certamente irá lhe render um bom dinheiro e que será tratado verdadeiramente como um importante ativo.

O Manchester United, importante integrante dessa mesma Premier League – para não precisamos buscar exemplos fora da Terra da Rainha -, concomitantemente a esse passo da Liga, também está lançando a sua MUTV.

Afinal, até quando, eu me pergunto, os dirigentes brasileiros vão preferir garantir o valor das luvas anuais que recebem da detentora dos direitos de transmissão a liderar o trabalho de geração e distribuição de seu próprio conteúdo, com sua própria identidade e na sua própria plataforma, numa operação que pode ser altamente lucrativa – se devidamente executada – e muitíssimo atraente para seu consumidor final?

Sinceramente, não sei se estamos diante de casos de falta de visão – para não falar de competência –, comodismo ou pouca inteligência. Tire suas próprias conclusões, estimado(a) leitor(a).