Coluna

O que fazer com os planos de sócio-torcedor em tempos de coronavírus?

24 mar, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Nas últimas semanas, o mundo gira em função da pandemia da COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

Estamos todos obrigados a fazer quarentena e a reaprender a conviver em casa, recluso ou trabalhando em home office, tocando a vida até que as coisas se acalmem e/ou normalizem.

O cenário de paralisação global, inédito nesses termos e proporções segundo especialistas de diversas áreas, naturalmente não poderia poupar o universo esportivo.

Restringindo minha análise apenas ao futebol, o primeiro ponto que gostaria de observar é o seguinte: se a situação é deveras alarmante em países ricos, onde as condições econômicas dos clubes – e das próprias nações – são mais favoráveis do que na América Latina, no Brasil os impactos da pandemia poderão ser devastadores para nossas combalidas agremiações.

Eternamente esgoeladas pela falta de dinheiro e com previsão de faturamento reduzido no período, o que será delas nos próximos meses caso essa paralisação se estenda? Como honrar salários, pagar fornecedores e manter seus patrimônios em dia sem geração de receitas – ou com um fluxo menor de entradas?

Em recente entrevista ao Sportv, o presidente do Bahia declarou que alguns dos principais clubes do País só têm fôlego para sustentar essa situação por no máximo três meses; há outros que, segundo ele, não suportariam mais do que 30 dias.

No Rio de Janeiro, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco acabaram de perder o patrocínio do Azeite Royal. Exceto pelo Rubro-Negro, que tem uma situação financeira mais confortável que a dos rivais, o que essa perda pode significar num cenário de pós-pandemia?

E veja: citei cinco clubes que integram o time dos chamados “grandes”, com torcidas numerosas e fontes diversificadas de receita. O que dizer, então, dos clubes de médio e pequeno porte? Tristemente, o futuro pode ser bastante sombrio a eles.

Nos grupos de discussão de Marketing Esportivo dos quais participo, muito se tem discutido – remotamente, claro – sobre alternativas de “sobrevivência” à pandemia. E, nesse sentido, como não poderia deixar de ser, o que fazer com os planos de associação – uma das principais fontes de receita de muitas agremiações esportivas brasileiras – durante o período de paralisação das atividades.

Muitos profissionais perguntam como os clubes deveriam proceder neste momento, em que não podem oferecer seus ativos aos sócios. Afinal, cobrar ou não cobrar a mensalidade em tempos de coronavírus?

Ouvi e li de tudo. Uns dizem que a cobrança deveria ser suspensa até que a situação se normalize; outros, que os clubes deveriam dar “presentes” a quem continuar pagando – e, aqui, entenda “presentes” como uma camisa oficial ou produtos licenciados. Há ainda os que defendem a ideia de um pedido de ajuda financeira dos clubes ao governo, e os que são favoráveis à manutenção da cobrança.

É evidente que o ineditismo da situação pegou todo mundo desprevenido e que, diante disso, ninguém saiba qual a solução mais adequada ou justa a ser adotada. Tanto isso é verdade que poucos foram os clubes que já se manifestaram oficialmente sobre isso.

Das poucas noticiadas, duas iniciativas me chamaram a atenção: de Palmeiras e Colo-Colo, do Chile.

O Alviverde optou por manter a cobrança, mas irá gerar um crédito futuro aos sócios quando as atividades forem retomadas. Já o Colo Colo mirou nos sócios mais afetados pela pandemia: o clube chileno dará o direito de omissão das mensalidades por um período de três meses a quem comprovar redução da renda durante a paralisação causada pelo coronavírus.

Antes de emitir minha opinião, penso ser importante relembrar que, apesar da parada obrigatória, os clubes precisarão manter seus compromissos financeiros em dia – assim como todos nós, pessoas físicas.

Ainda que autoridades, órgãos e empresas públicas e privadas já estejam adotando medidas de flexibilização de pagamento e recebimento de contas, até a conclusão deste artigo ainda não havia tomado conhecimento de nenhuma informação sobre um possível perdão definitivo de dívidas.

Isto posto, e falando pela perspectiva tanto do executivo de Marketing quanto do sócio-torcedor que também sou, defendo a manutenção do pagamento das mensalidades pelas agremiações.

 

Entendo que, quando me associo ao meu clube do coração, mais do que uma relação meramente comercial, quero ajudá-lo e apoiá-lo para que ele possa continuar crescendo e seja cada vez mais forte.

Vejo esse vínculo quase como um matrimônio – lembrando, sobretudo, daquela passagem cerimonial dos casamentos que fala em união “prometendo-lhe ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”.

É num momento de dificuldade – como este que atravessamos – que nosso clube mais precisa de nós. Por isso, mesmo que nosso time não esteja jogando, penso que aquelxs que puderem manter o pagamento das mensalidades irão colaborar, de alguma forma, para minimizar os danos financeiros da dura retomada que as agremiações terão pela frente após essa crise global.

Sócios e sócias que porventura não conseguirem manter suas mensalidades em dia e comprovarem a situação – assim como solicita os chilenos do Colo-Colo – poderiam ser temporariamente anistiados pelo clube, de modo que, após a pandemia, renegociações individuais fossem feitas em benefício de ambos os lados.

Por fim, sou contra qualquer tipo de subvenção financeira direta do governo aos clubes. Primeiramente, porque há áreas e pessoas – jurídicas e físicas – que precisam e precisarão, após o coronavírus, muito mais do que eles. Em segundo lugar, porque as agremiações, ao longo de muitos anos, já receberam inúmeras vantagens do governo.

No máximo, sou favorável a estender aos clubes possibilidades similares às que estão sendo oferecidas por algumas empresas, de alongamento das dívidas ou flexibilidade dos prazos de pagamento de impostos devidos.

Como ainda não sabemos por quanto tempo essa situação irá perdurar, cabe aos clubes, com urgência, tomarem uma decisão, qualquer que seja ela, e comunicarem oficialmente aos seus associados e associadas.

Independentemente do futuro reservado ao futebol, é preciso lembrar que a vida continua. Por ora, em reclusão; em algum momento, de volta à normalidade.

O importante, neste momento, é nos mantermos em quarentena e seguirmos as recomendações das autoridades, acima de tudo.

De uma forma ou de outra, prefiro acreditar que o mundo e as pessoas – e o universo do esporte, claro – sairão desta transformados. Para melhor.