Coluna

O triste fim de um ídolo

11 mar, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Em outubro de 2019, usei deste espaço no MKT Esportivo para escrever sobre a importância da gestão da carreira por atletas e ex-atletas (relembre aqui).

E ainda que apenas cinco meses tenham se passado desde então, não poderia deixar de voltar ao tema em função do episódio dos passaportes falsificados protagonizado pelos irmãos Assis Moreira – leia-se Ronaldinho Gaúcho e Assis –, até a conclusão desta coluna ainda detidos no Paraguai.

Mais um vez temos de conviver com o triste fim de um grande ídolo do esporte brasileiro, envolvido em escândalos – que, parece até piada pronta, foi preso por falsificação num país que carrega a má fama de ser um centro de circulação de produtos falsificados.

Se há alguns anos Ronaldinho atraía holofotes dos veículos esportivos pela habilidade com a bola nos pés, melancólico é ver que, agora, o velho Bruxo virou manchete policial.

Mais até do que o vexame em si, tento imaginar o quão constrangedor não deve ter sido, sobretudo para o ex-craque da Seleção Brasileira, ser algemado e conduzido pelas autoridades paraguaias como um fora da lei qualquer. Porque, sim, nessa hora Ronaldinho Gaúcho, o eterno craque, foi simplesmente Ronaldo de Assis Moreira, um cidadão brasileiro que, segundo informa o noticiário, cometeu um crime.

A mim, profissional de marketing esportivo e conterrâneo que acompanhou de perto a trajetória desse brilhante jogador que foi, é profundamente desolador ver a pilha de escombros na qual se transformou a carreira do rapaz – sobretudo após a aposentadoria, quando começou a aparecer, aqui e acolá, um problema ou outro envolvendo seu nome. No âmbito dos negócios do esporte, Ronaldinho Gaúcho é o benchmarking às avessas da gestão de carreira.

Penso também, neste momento de adversidade, nas empresas que associariam suas marcas e produtos a ele. O que deve passar pela cabeça de seus executivos?

E aquele sem número de crianças, de diferentes nacionalidades, que se orgulhavam de vestir a camisa canarinho ou do Barcelona com o nome de Ronaldinho estampado nas costas, sonhando com o dia em que aplicariam pelo menos um dos seus desconcertantes dribles, o que será que pensariam? Quem é seu ídolo, perguntava alguém a elas. “Ronaldinho Gaúcho”, respondiam muitas, sem pestanejar. Pois é. Ainda que já estejam crescidas, hoje, quão desiludidas talvez não estejam com aquele que um dia inspirou seus melhores sonhos?

Não pretendo, aqui, fazer qualquer tipo de juízo de valor sobre a atitude dos irmãos Assis Moreira. Mas pretendo, sim, relembrar que episódios como esse mostram a fragilidade e o despreparo de muitos atletas – e de seus staffs – com a gestão daquilo que é seu principal ativo: sua própria carreira.

Se muitos deles não são capazes de se “autoadministrarem” enquanto produtos que são – seja por falta de conhecimento, seja por falta de tempo –, então de quem é a responsabilidade pela gestão, suporte, aconselhamento e orientação a eles? Seria dos clubes? Ou seria dos empresários que os negociam? Colocar tudo na conta da família é devido? Ou talvez seriam os patrocinadores os mais aparelhados e indicados a transferirem aos seus atletas todo o know-how sobre gestão de marca e manutenção e expansão de negócio?

Na realidade, penso que em alguma medida todas essas personagens são de alguma forma corresponsáveis pela construção e/ou consolidação da carreira de um atleta consagrado, em formação ou mesmo de um ex-atleta. Mas, por óbvio, o protagonista de toda essa narrativa construída em torno de uma carreira não pode deixar de ser o próprio esportista.

Isentá-lo de qualquer tipo de responsabilidade, na minha opinião, é quase como tratá-lo como um incapaz; alguém desprovido de desejo, de anseios, manipulável conforme os interesses de outrem.

Ora, eu pergunto: quem gostaria de viver assim, alheado a temas de seu próprio interesse?

Que o melancólico desfecho – ainda que temporário, pessoalmente espero – dos irmãos Assis Moreira no Paraguai possa ao menos servir de exemplo para que a gestão de carreira no esporte seja tratada com a seriedade e o profissionalismo necessários.