Coluna

Streaming próprio e a rota direta entre clube e torcedor

18 mar, 2020
Eduardo Esteves

Diretor Executivo do MKTEsportivo

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Enfim, temos um clube brasileiro a lançar o seu próprio streaming. E o melhor: com a transmissão de jogos ao vivo, carro-chefe para qualquer iniciativa do tipo. O Athletico embarca em uma tendência absoluta do mercado esportivo, onde gigantes da Europa já ativam plataformas próprias. No entanto, sem direitos sobre suas partidas, acabam focando em conteúdos exclusivos, bastidores e demais materiais de entretenimento. Trata-se de uma inovação em um mercado que sempre foi norteado por um modelo engessado. Explico.

Desde sempre, nos acostumamos com um sistema de completa submissão à televisão. Na incompetência e falta de recursos para gerar o próprio conteúdo e na incapacidade de tomar decisões em conjunto, os clubes entregaram para a TV o maior ativo que existe em uma competição, que é a geração das imagens da mesma. Não apenas no futebol mas em todo o esporte brasileiro, esse sempre foi o modelo que pautou a relação com a mídia.

Isso fez com que, desde sempre, a dependência dos times com a Globo fosse quase que total. E há bons anos o Athletico resolveu ser mais independente ou, então, valorizar o seu produto até o limite buscando rentabilizar ainda mais sobre o seu ativo. Sempre na vanguarda da inovação, o Furacão foi o primeiro a levar um jogo ao vivo para o YouTube e Facebook. Há três anos, no streaming, o clássico contra o Coritiba teve mais de 3.5 milhões de visualizações. Por aqui, é muito mais sobre abraçar uma tendência do que números.

Na Europa, mesmo sem os direitos de transmissão de partidas, os times têm lançado plataformas exclusivas para atender ao anseio dos seus fãs, oriundos dos quatro cantos do planeta. A do Barcelona, por exemplo, tem como objetivo central triplicar o faturamento da área digital do clube em até cinco anos. No último ano fiscal, o Barça faturou € 100 milhões nesta frente. Na conta, estão as vendas de ingressos e também as vendas de produtos nas lojas on-line do clube. Benfica, Manchester City e Manchester United seguem neste mesmo ritmo.

Por lá, por conta do patamar que eles alcançaram, estão cientes que os concorrentes não são mais apenas os demais clubes. Há novos jogadores que eles não imaginavam há dez anos, como Amazon, Netflix, YouTube e Fortnite. Desta maneira, a criação de um serviço próprio oferece um relacionamento direto com os torcedores, gerando um aprendizado sobre tudo o que ele gosta, consome, em quais dispositivos, e abre a possibilidade de trabalhar a experiência de cada um constantemente.

Do outro lado da mesa, no âmbito da monetização, o streaming esportivo abrirá uma série de oportunidades para as empresas serem precisas em suas ações. A ativação de marca será facilitada com um canal próprio e com um público bem detalhado para os envolvidos. Também por isso a iniciativa do Athletico deve ser exaltada e considerada um benchmarking nacional para as demais instituições.

Até aqui, aproveitamos o potencial por meio de plataformas de terceiros, que é onde os fãs normalmente consomem o conteúdo e passam a maior parte do tempo. Hoje, e daqui em diante, intensificando os esforços neste espaço, sabendo negociar da melhor maneira os seus direitos, buscando cada vez mais independência, cria-se uma rota direta ao fã com plataformas próprias. Seja para europeus, brasileiros ou americanos. E é apenas o começo.