Coluna

Finalmente vamos mostrar nossas marcas no exterior

22 abr, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

Em tempos nada animadores de Covid-19, de incerteza reinante em todas as áreas e impossibilidade de previsões até mesmo de curtíssimo prazo, parece mesmo que 2020 ficará marcado na história do futebol mundial como o ano sem torcida. É o que sinalizam, até o momento, as principais instituições do esporte global, que trabalham pela volta das competições, mas com portões fechados.

Em alguns países, onde esta decisão já é dada como certa nos bastidores, parte da opinião pública, de profissionais do esporte e das autoridades de saúde tem criticado duramente tal possibilidade, com o argumento dos riscos inerentes de uma situação de pandemia a todos os envolvidos nos jogos que seriam realizados sob tais circunstâncias.

Até a conclusão deste artigo, uma possível solução “intermediária” que chamou minha atenção foi a cogitada pelo Midtjylland, da Dinamarca. Líder do campeonato nacional até a parada imposta pelo coronavírus, o clube instalou telões no estacionamento de seu estádio – com capacidade para 12 mil veículos – para que os torcedores possam acompanhar as partidas de dentro de seus carros, evitando, assim, a aglomeração proibida. A medida ainda precisa de aprovação das autoridades locais. Se liberada, deve ser colocada em prática, inicialmente, apenas para 2 mil veículos.

Enquanto nada disso se concretiza, no exterior ou por aqui – sem que nós, torcedores, sequer saibamos como ficarão as transmissões dessas possíveis futuras partidas de portões fechados –, o que nos resta, para os próximos dias, são as reprises que estão salvando as grades das emissoras especializadas e nos fazendo relembrar (ou conhecer, no caso dos mais jovens) craques do passado e importantes conquistas. Um doce alento para nossos sequiosos espíritos apaixonados por futebol.

No Brasil, com os jogos suspensos, resta aos profissionais do esporte trabalhar, também, para tentar minimizar a crise financeira que certamente irá se abater sobre a quase totalidade dos clubes – especialmente sobre os chamados “pequenos” e “médios”, mas também sobre muitos dos ditos “grandes”. E é aqui que, finalmente, chegam-nos notícias alvissareiras.

Há alguns dias, a CBF e uma comissão nacional de clubes, que representa as agremiações das séries A, B e C do futebol brasileiro, concluíram com sucesso a primeira etapa das negociações para venda dos jogos do nosso Brasileirão ao mercado internacional. O único clube que não aceitou os valores apresentados e optou por se retirar das tratativas foi o Club Atlhetico Paranaense.

Transmitir o Campeonato Brasileiro para outros países, com regularidade e receitas justas, há tempos é um dos principais objetivos dos nossos dirigentes – que, registre-se, nunca foram capazes de explicar com clareza à torcida o porquê do torneio não atrair a atenção do mercado internacional, apesar de toda a histórica fama do futebol canarinho.

Particularmente, essa negociação me anima. Eis algumas das razões:

– Esta é a primeira vez que os clubes se juntam para defender seus interesses desde a implosão do Clube dos 13. Isso é um ótimo sinal, e quem sabe aí não está o embrião da tão sonhada Liga;

– Estima-se que a divisão dos valores, na casa dos US$ 27 milhões, não priorize um clube em detrimento de outro – respeitando-se, naturalmente, a série à qual pertença. Assim, 75% dessa receita deve ser distribuída igualmente entre os clubes da Série A; 20% deve ficar com as agremiações da Série B, e os 5% restantes, com os times da C. Essa medida gera mais equilíbrio e minimiza os efeitos da “espanholização” do futebol brasileiro – evidentemente, respeitadas as proporções do negócio;

– Caso o acordo seja de fato firmado nas próximas semanas, a receita pode entrar nos cofres dos clubes imediatamente. E isso, em tempos de pandemia, se não resolve todos os problemas de ordem financeira, pelo menos os atenua;

– As marcas dos nossos clubes devem começar a ser mostradas sistematicamente mundo afora, e isso pode ampliar as oportunidades de negócios – e, portanto, de receitas – para além da venda de atletas. Refiro-me, aqui, a estratégias que vão da comercialização de camisas e produtos oficiais à realização de amistosos internacionais, incremento nos quadros de sócios, por exemplo;

– CBF e clubes deverão se preocupar em qualificar as competições e conteúdos que serão distribuídos ao mercado internacional. Assim, espera-se, poderemos ter jogos mais atrativos – enquanto produtos, efetivamente – e, por consequência, mais interesse do torcedor brasileiro;

– Temos uma nova oportunidade de alinhamento do calendário brasileiro ao europeu, evitando, entre outras coisas, o acúmulo de jogos e a negociação de talentos no meio da temporada, e criando a possibilidade de nossos clubes fazerem dinheiro com confrontos internacionais; e

– No médio e no longo prazo, podemos sonhar com a retenção prolongada de talentos em nosso território – claro, se os clubes conseguirem se estruturar para fazê-lo. Confirmando-se tais expectativas, o movimento de expansão das marcas dos clubes europeus em nosso próprio quintal pode ser refreado, considerando-se que as gerações mais jovens, em especial, teriam a oportunidade de ver seus ídolos defendendo o clube do coração de seus pais e avós, por exemplo. Isso poderia contribuir para que essa garotada voltasse a torcer para os times brasileiros – algo que, nos últimos anos, por incrível que pareça, arrefeceu bastante, dada a incrível quantidade de estrelas – inclusive brasileiras – desfilando seu talento nos gramados internacionais.

Fico muito satisfeito por ver esse projeto começar a sair do papel. E torço, claro, para que o negócio seja bem-sucedido e crie reais perspectivas de upgrades da nossa realidade futebolística pré-pandemia.

#FIQUEEMCASA