Coluna

Por que defendo a conclusão dos campeonatos estaduais?

8 abr, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Em função da COVID-19, já somamos três semanas de distanciamento social, com todas as atividades ditas não essenciais paralisadas. E, por ser o futebol uma dessas atividades, seguimos órfãos do esporte mais popular do planeta.

À parte a incontestável necessidade de nos mantermos confinados, a realidade é que começamos a olhar preocupados para o futuro nebuloso que essa crise global reserva aos clubes – sobretudo aos nossos, historicamente vulneráveis a questões econômicas. São muitas as incertezas, afinal.

A pandemia tem ceifado vidas mundo afora, e especialistas dizem que ainda estamos apenas no início, que o pior está por vir. Não duvido.

No que diz respeito ao universo da bola, uma das “vidas” contaminadas pelo coronavírus é a dos campeonatos estaduais, que estavam em pleno andamento quando da paralisação.

A maior emissora de televisão do Brasil, detentora dos direitos de transmissão dessas competições – e de quase todas as outras – retirou mais de 75% dos investimentos programados para a realização dos estaduais. O argumento é a não realização dos jogos.

Efeito cascata, patrocinadores que adquiriram as cotas televisivas também começam a reavaliar a manutenção do investimento.

Em alguns países onde não há campeonatos estaduais, confederações nacionais resolveram encerrar suas competições. Foi o que aconteceu na Bélgica, cujo título foi entregue ao Club Brugge, que somava 15 pontos a mais que o segundo colocado, Gent, quando o país entrou em quarentena.

Há também quem cogite retomar os torneios agora, com jogos sem público, mas com transmissão de TV, como forma de entregar conteúdo aos patrocinadores e tentar minimizar os impactos nas receitas com cotas de patrocínio. É o caso da Premier League, da Inglaterra.

Medidas diferentes só corroboram o cenário de incerteza em relação à pandemia. E isso, para mim, é plenamente justificável.

Nesse sentido, penso ser justificável, também, olharmos com mais carinho para a saúde dos nossos estaduais.

Permitir que eles morram é decretar a morte de muitos clubes pequenos e médios, em especial.

Alguns, inclusive, já começam a desmontar suas estruturas, dispensando e cancelando contratos de atletas, comissão técnica e até mesmo de colaboradores. Medidas como essas, embora compreensíveis, causam enorme prejuízo a um grande número de pessoas que vive direta ou indiretamente do que conseguia ganhar durante os estaduais.

A injeção de R$ 19 milhões nas federações, clubes da séries C e D do Campeonato Brasileiro e nos times das duas primeiras divisões do futebol feminino, anunciada pela CBF na última segunda-feira 6, certamente será imprescindível para dar fôlego a essa turma. Ainda assim, não consigo dimensionar, neste momento, dada toda a incerteza do cenário, se será o suficiente para evitar a possível falência de diversas agremiações e o colapso de toda a economia que gira em torno delas. Em muitos casos, penso, os danos causados podem ser irreparáveis. Em outros, clubes com melhores estruturas até podem conseguir se reerguer, mas levarão tempo para fazê-lo.

E você, que chegou até aqui, então pode me perguntar: ok, Avancini, mas o que fazer com os estaduais?

É sabido que o calendário brasileiro é bastante apertado para os chamados “grandes” do futebol. Mas não vejo outro caminho que não seja readaptá-lo à nova realidade que irá se impor ao final do período de confinamento – dure este confinamento o tempo que durar.

Fórmulas também precisarão ser revistas – sobretudo se o distanciamento social se estender por meses. E, aqui, refiro-me tanto aos campeonatos que ainda não tinham sido iniciados quanto aos próprios estaduais, que não poderão ser concluídos conforme previam seus regulamentos originais.

A primeira medida que penso ser adequada aos estaduais seria a retomada dos jogos imediatamente após o término da quarentena – mesmo que com portões fechados, mas com transmissão pela televisão, a exemplo do que cogita a Premier League.

Os clubes “grandes”, neste caso, poderiam concluir o torneio com equipes sub-23, sub-20 ou mistas. Os elencos principais ficariam concentrados na disputa de Brasileiro, Copa do Brasil e da Libertadores.

Naturalmente, implementar essas ideias significa ter a concordância de todos os clubes participantes dos estaduais, além das federações, patrocinadores e da emissora detentora dos direitos de transmissão.

Reconheço que patrocinadores e televisão poderiam argumentar que a ausência dos principais jogadores dos times “grandes” enfraqueceria a competição e poderia gerar desinteresse das torcidas, causando prejuízos aos investidores do produto. Mas o que será que causaria mais prejuízo a todos os players envolvidos nessa intrincada narrativa: encerrar os estaduais agora ou retomá-los quando possível, com ajustes e adaptações, ao menos para que a roda da economia gire e os clubes sejam menos afetados?

Sim, esta é uma decisão muito difícil. Mas sou a favor da retomada ao término do período de confinamento. Especialmente pela sobrevivência das pessoas jurídicas e físicas que tanto dependem dessas competições.

#FIQUEEMCASA