Indústria

Um papo sobre marketing esportivo com Fred, do Desimpedidos

21 abr, 2020
Guilherme Baldacini

CMO do Appito

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Esta é a primeira entrevista realizada para a minha coluna aqui no MKTEsportivo, que vai falar sobre temas relacionados à inovação e tecnologia aplicados ao marketing e ao esporte. Antes de mais nada, eu sou o Guilherme Baldacini, sócio e diretor de marketing do Appito, que para quem ainda não conhece – não posso perder a chance deste jabá – é hoje a maior comunidade de jogadores amadores do mundo, com um aplicativo que conecta atletas amadores de futebol e que lançou recentemente a sua primeira arena society aliando performance e tecnologia, a Appito Arena.

Para a primeira entrevista, nada melhor do que começar com o maior influenciador relacionado a futebol do país: Bruno Carneiro, o famoso Fred do canal Desimpedidos.

A ideia da entrevista foi bater um papo sobre marketing de influência com alguém que já trabalhou e ainda trabalha com grandes marcas relacionadas a esporte e, mais do que isso, entender como se dá o seu processo de ideação e a sua relação com as marcas e projetos futuros. Nós, como profissionais, conhecemos o mercado com o nosso olhar. A partir de então, será interessante notarmos como um grande influenciador do cenário brasileiro enxerga nosso cenário, da sua perspectiva.

GB: Desde o momento em que começou a despontar no Desimpedidos, temos a impressão de que a sua carreira foi muito bem trabalhada. Esta construção do Fred para o que é hoje, foi algo estudado até que ponto? Quais fatores você acredita terem sido fundamentais para a construção da sua carreira como ela é hoje?

Fred: Fico feliz em saber que vocês veem assim minha carreira. Conto com a ajuda da estrutura que a NWB me proporciona, principalmente do Rafael Grostein (sócio da NWB) que é uma pessoa que me ajudou muito desde o começo, tanto no Desimpedidos como na minha carreira pessoal. Mas sendo bem sincero, a gente nunca teve um grande planejamento de carreira. Tudo foi indo no meu feeling, de acordo com a minha personalidade e principalmente com aquilo que acredito que eu e o público vamos gostar. Porque independente se tivesse um planejamento de carreira e eu tivesse que fazer algo que não me agrada só para crescer o público ou melhorar minha imagem, acho que não seria bem-vindo e não faria de coração. Ainda assim, obviamente levo em conta o que vejo do mercado e também vou olhando para outros influenciadores, assim moldando minhas estratégias.

Você faz parte da chamada economia criativa, e mais do que muitos, depende da criatividade e da inovação. Você tem algum método para gerar novas ideias?

Costumo estar atento às tendências e em tudo o que está acontecendo no Youtube. Tento entender a linguagem que a molecada está assistindo, os tipos de conteúdo que consomem e olho principalmente para aquilo que eu acompanho e acho legal. É mais nessa linha de referência mesmo que costumo trabalhar. Neste sentido, presto atenção em como está o momento, como muda o Youtube, o Instagram, e vou vendo algumas respostas das plataformas. Com base nisso, já vou criando os conteúdos na minha cabeça. Por exemplo: uma parada que exploro muito pouco é o IGTV. Então já estou pensando em algumas coisas pra começar nesse ano porque parece que é uma funcionalidade que vai ter um ótimo momento e quero fazer parte disso e expandir o máximo que eu puder.

Você acompanhou o crescimento do chamado Marketing de Influência aqui no Brasil, como você enxerga o crescimento deste mercado ao longo do tempo?

Eu acredito que ainda vá crescer muito porque felizmente quando eu me tornei Fred a publicidade já estava nesse inicio de mudança, e hoje em dia a gente tem muito mais potencial de atingir as pessoas e atingir públicos específicos do que a publicidade tradicional, uma vez que as redes sociais tem muitas ferramentas para saber de onde são as pessoas, o que consomem, idade, gostos. Por isso acho que o marketing de influência, por meio do Instagram e YouTube, tem muito mais potencial de atingir essas pessoas de fato. E é aí que está nosso grande diferencial. Além disso, ainda tem também a identificação, que no meu caso acho que é o que mais atrai o meu público, que são as pessoas que estão me assistindo nos stories. Eles vêem como é minha vida e geram uma identificação. Essa é a chance de as marcas ganharem com isso e acredito que tenho grande poder de influência ao falar com meu público.

Você já lidou com muitas marcas, de todos os tamanhos. O que mais te anima nestes trabalhos?

O que mais me anima em determinadas marcas é a liberdade que elas nos dão. E acredito que essa seja uma resposta quase que geral para todos influenciadores, porque a gente gosta muito de prestar o serviço e passar o recado da marca, só que do nosso jeito. Então o que mais me anima é a liberdade pois as empresas talvez entendam da divulgação do produto, mas quem entende do meu público sou eu.

Até que ponto você participa e influencia na construção de um conteúdo para uma marca?

Eu participo 100%. Porque é minha cara que vai estar lá, minha voz, minha imagem. Independente da mensagem que eu vou passar, eu gosto de moldar as coisas do meu jeito. Eu entendo o que a marca precisa e a partir disso desenvolvo minhas ideias de acordo com as minhas características e com aquilo que acredito que vai dar certo. Com base nisso, dou imputs para as marcas produzirem um conteúdo conjunto, e normalmente os resultados são bem bons.

O que recomenda para as marcas que desejam trabalhar com influenciadores?

O recado que eu daria é ouvi-los. Entender o público, se é compatível, e ouvi-lo. Por exemplo: como marca quero incentivar que as pessoas comprem tal produto. Com base nesse objetivo, consultar o influenciador de como seria a melhor mensagem possível para passar. Tendo essa liberdade eu, como influenciador, tenho o maior prazer de fazer e por eu conhecer meu público, a mensagem vai soar de forma muito mais orgânica. Quanto mais orgânica parecer a mensagem, pode ter certeza que maior será o resultado.

Qual a principal diferença entre as ativações realizadas no Youtube e no Instagram? Vê uma grande diferença no trabalho com as marcas nestas plataformas?

Acho que no Instagram consigo ser mais claro, explicar com mais clareza o que é a ação, a promoção ou venda, porque lá estão as pessoas que gostam do meu trabalho e estão me seguindo. No Youtube, pra mim a diferença é que a mensagem não pode durar muito tempo. Então a partir do momento que eu entendo um pouco mais a ação, eu consigo explicar com mais clareza nos stories do que no próprio Youtube.

Sobre o case do lançamento da sua marca com a adidas. Como surgiu a ideia?

Eu sempre gostei muito de criar. Sempre desenhei quando pequeno e quando jogava videogame sempre criava meus uniformes, então sempre tive essa vontade. Essa ideia começou a surgir com a adidas a partir do momento que fui ganhando espaço e moral com eles. Sendo bem honesto o objetivo inicial era uma chuteira, eu queria ter uma chuteira com meu nome assim como o Messi e outros jogadores têm. Não foi possível por enquanto, mas eu continuo trabalhando pra que isso um dia venha a acontecer. Mas quando falaram que era possível uma linha de camisas minha na adidas eu já fiquei completamente feliz e foi um dos projetos que mais me doei. Desde planejamento de lançamento nas cidades, roteiro do clip, danças, participações, câmeras, distribuição, preço, estampa…foi um trabalhão, mas altamente satisfatório. Essa ideia já tinha surgido há um tempo e já tinha deixado na cabeça deles até o momento que ela de fato aconteceu. Fiquei muito feliz, e quem sabe não tenham novas por aí…

Hoje, você se enxerga como uma marca? Tem projetos pessoais para alavancar sua marca, seu alcance e sua relevância?

No começo não me enxergava, só queria fazer meu trabalho. Mas hoje em dia está aumentando minha preocupação em ser mais influente na vida das pessoas, falar de alguns assuntos mais polêmicos como racismo, homofobia, machismo porque sei que tem muitos jovens que ouvem o que eu falo e eu ficaria muito feliz de passar imagens que colaborem e agreguem na vida dessa galera. Mas obviamente que o Fred acabou virando uma marca, porque precisou ganhar dinheiro, afinal, a gente precisa pagar as contas de casa. Então a partir do momento que eu fui entendendo o mercado, a visão que as marcas criaram sobre mim e a visão que acabei construindo, me considerei como uma marca sim. Tenho cada vez mais projetos para aumentar minha imagem, tanto aqui no Brasil quanto pra fora. Seja no YouTube ou outras plataformas eu quero estar presente. Tenho mania de falar que eu quero estar em todos os lugares, que quero ser bom em tudo, fazer tudo o tempo todo. Quero estar no YouTube, no Facebook, no Instagram, no Cinema, na Netflix, no teatro, em palestra…então me entendo sim como marca, mas o objetivo final sempre vai ser fazer as pessoas felizes.

Pra fechar, nessa semana foi lançada a sua nova série em parceria com o Magnus Futsal no YouTube Originals. Conta um pouquinho de como surgiu a ideia e como a série vai funcionar?

A ideia surgiu de várias partes, mas quem tomou a iniciativa foi o próprio Magnus. Quando fui gravar no ano passado lá em Sorocaba, já tinha uma amizade com o Rodrigo e ele comentou que o presidente e o pessoal do marketing estavam com uma ideia meio maluca de me contratar e pediu pra eu trazer essa ideia pra São Paulo. Chegando em São Paulo conversei com o departamento de criação e começamos a desenvolver um projeto pra que isso acontecesse de fato e se tornasse uma série do YouTube. Em paralelo, surgiu a oportunidade do Desimpedidos ter uma série no YouTube Originals e na hora já achei que tinha tudo a ver.

Nisso, a gente fez uma reunião com o Fellipe, presidente do Magnus, e essa reunião foi muito legal porque pela primeira vez me senti jogador, negociando meu contrato, as cláusulas…O projeto continuou a andar e assim que senti que as possibilidades eram grandes, comecei a treinar pensando nisso, algo mais focado para o futsal. E assim que me deram a notícia que o projeto ia acontecer, foi um dos dias mais felizes da minha vida e foquei ainda mais na preparação. Abri mão de uma série de coisas, de rolês, viagens e mesmo quando estava na Florida Cup, abdiquei bastante de aproveitar o parque pra seguir treinando numa intensidade bem forte.

Mas não me arrependo de nada porque sei que me ajudou bastante e realizar esse sonho aos 30 anos de idade vale todo e qualquer sacrifício. E sobre a série, ela contará com 8 episódios, em formato de reality show. Eu tinha duas ou três câmeras grudadas em mim o tempo todo. Então nestes episódios vai dar pra conhecer bem como funciona a vida de um jogador profissional de ponta e vai ser legal pra ver como eu consegui me entrosar com os jogadores, com o elenco e comissão técnica. E claro, vocês me verão me ferrando, apanhando, suando, chorando… Como já assisti todos episódios, posso garantir que pra quem gosta e mesmo quem não gosta de futebol, o resultado ficou muito bom!

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Esse foi um pouco da conversa que tive com ele e quis compartilhar com vocês por aqui. Na minha carreira já trabalhei com uma série de influenciadores, principalmente do esporte, e sempre tive essa curiosidade da visão de mercado que essa galera tem. Alguns pontos me chamaram muito a atenção, pra resumir a conversa:

– A lógica do mercado de testar diferentes comunicações e formatos também se aplica aos influenciadores, mas de forma diferente. Sem processos claros, é verdade, mas sempre atentos ao resto do mercado de influenciadores, testando novos formatos de vídeos constantemente e com um ponto que acho importante em todo bom processo criativo, que é também levar em conta a sua intuição sobre aquilo que está sendo criado e fazer algo que de fato acredita;

– Parece óbvio, mas algumas marcas ainda insistem em seguir um modelo tradicional de comunicação com os influenciadores. Uma palavra que o Fred usou que achei bastante importante é “identificação”. O público do influenciador é completamente identificado com ele, e o papel da marca ao se juntar é “emprestar” esta identificação para a sua marca. E isso só é possível se o influenciador se comunicar da mesma forma que sempre se comunica. Se mesmo com planejamento ainda tem medo dos riscos de trabalhar dessa forma, não faça;

– Outra palavra importante é “liberdade”. Achei esse trecho da entrevista incrível e aqueles que trabalham com marketing de influência devem pendurar na parede: “O que mais me anima é a liberdade, pois as empresas talvez entendam da divulgação do produto, mas quem entende do meu público sou eu.”

– Por fim, também achei interessante a visão sobre a diferença da mensagem entre o Youtube e o Instagram. Na visão dele, os stories é uma ótima ferramenta para ser mais didático e apresentar o seu produto/serviço de forma mais completa. Vou anotar isso aqui no meu caderninho. Por fim, acredito que o mercado do marketing esportivo ainda tem muito o que crescer bebendo da fonte dos influenciadores. Essa galera pode somar muito tanto do lado do branding quanto do lado de conversão e aplico muito isso na construção do Appito.

E pra quem quiser bater um papo a respeito deste tópico ou de marketing esportivo no geral, fique à vontade para entrar em contato comigo!

@guibaldacini / e-mail: guilherme@appito.com