Indústria

Covid-19 deve gerar impacto negativo no conceito moderno das arenas no futebol brasileiro

18 maio, 2020
Carlos Aragaki

Sócio da área de Esporte Total da BDO

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Globalmente, o futebol não pode ser visto com o saudosismo dos antigos estádios de futebol, dos jogos em campos de terra ou sem arquibancadas. O esporte bretão, em muitos países, verificou a transformação dos seus espaços em arenas multiuso. Agora, os jogos representam um dia de entretenimento e, então, as partidas transformaram-se no famoso “matchday”.

Infelizmente, o grito de gol não pode ser comemorado em abraços espontâneos dos torcedores que se transformam em parentes ou irmãos na hora do gol. As aglomerações estão proibidas à curto e médio prazo, impedindo a realização dos jogos e dos shows. O cenário é sombrio e imprevisível no momento.

Perda significativa virá da falta de público, pois embora existam previsões de retorno dos jogos em breve, como a Bundesliga na segunda quinzena de maio de 2020, não há qualquer previsão otimista para o retorno do público. Para se avaliar o impacto, o Flamengo apresentou receita de bilheteria no montante de R$ 109 milhões, com base na última demonstração contábil de 31 de dezembro de 2019.

Somente essa receita, gerada na Arena Maracanã, é maior do que a receita total (transmissão/patrocínio/negociação de atletas/bilheteria/royalties) de qualquer um dos 20 clubes que participaram do campeonato brasileiro da Série B em 2018. Segundo dados publicados pela Jovem Pan em 2019, nos últimos cinco anos foram realizados 84 shows no Allianz Parque, sendo 58 internacionais e 26 nacionais. Receita que dificilmente se verificará de março de 2020 até 2021, conservadoramente falando. Um impacto devastador em qualquer fluxo de caixa e que requererá um esforço significativo para avaliação da viabilidade econômica de cada modelo de Arena.

Na mesma linha, perder-se-ão as receitas decorrentes do Tour pelas Arenas e pelos museus, que somente poderão ser realizados virtualmente. As receitas de aluguel para os fast foods, lanchonetes, restaurantes, lojas de conveniência, academias, entre outros, requererão renegociações de contratos e resultarão em mais perdas. A receita do programa de sócios torcedores já tem levado muitos clubes a negociar a devolução dos tickets ou criação de créditos futuros com descontos.

Ainda existem os casos de redução das receitas decorrentes de aluguéis de jogos de futebol, como ocorrido com clubes que jogaram partidas em outros estados vendendo os mandos de jogos. Essa modalidade, sem público, perde toda a sua força.

Finalmente, também com grandes consequências e impactos nas contas das arenas, teremos as negociações para redução das perdas com os patrocínios e naming rights de modelos adotados por algumas arenas.

Em condições extremamente negativas, nas quais as empresas não conseguem monetizar, manter ou gerar novas fontes de receita, a saída imediata é a redução dos custos. Não será diferente para as arenas, todavia, a manutenção delas não cessará, mesmo reduzindo os custos com os serviços de terceiros, locações de equipamentos voltadas às manutenções e os gastos de pessoal, entre outros.

Sabemos que o show tem que continuar, e continuará em breve, para os aficionados pelo futebol, mas também não significa que a torcida ou os fãs retornem para jogos e shows com a mesma intensidade de antes da pandemia.

Todavia, para as arenas, o retorno dos investimentos deverá ser prorrogado por meses ou até anos após a bola rolar.

 

Carlos Aragaki é graduado e mestre em Ciências Contábeis pela PUC-SP e sócio da área de Esporte Total da BDO. Possui 17 anos de atuação especializada na área de auditoria de clubes de futebol.