Coluna

Será que vamos fazer a coisa certa? A Covid-19 dirá

6 maio, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Nas últimas quatro ou cinco semanas, a tônica dos noticiários tem sido os impactos da Covid-19. E não poderia ser diferente, haja vista essa pandemia estar ceifando dezenas de milhares de vidas mundo afora.

Por aqui, especialistas dizem que o pico de contágio deve ocorrer neste mês que se inicia – ou, no máximo, no próximo –, e que a situação pode ser ainda mais difícil nas regiões Sul e Sudeste, onde as temperaturas mais baixas do Outono costumam provocar maior incidência de doenças respiratórias.

Sei que você já deve saber de tudo isso – e que tenho falado exaustivamente sobre o tema nos meus últimos artigos neste MKTEsportivo. Mas, reconheçamos: estranho seria se não tocássemos neste que, por certo, é o assunto mais relevante do milênio até agora, não acha?

De qualquer modo, desta vez a abordagem é um pouco diferente. Prometo ser ainda mais incisivo.

Desde os últimos dias de abril, CBF, federações e clubes brasileiros de futebol parecem decididos a acelerar o retorno das competições, interrompidas em prol do recomendado distanciamento social.

Para justificar essa medida, contrária à observada em muitos outros países, há quem fale sobre os terríveis impactos econômicos para os clubes, em especial, caso a parada se prolongue por muito mais tempo. Entendo, porque este é um fato.

Mas ainda que todos os protocolos de saúde e segurança sejam adotados nesse almejado retorno, como garantir a integridade de jogadores, integrantes de comissões técnicas e de outros profissionais envolvidos nos jogos em meio a tantas incertezas relacionadas ao novo coronavírus?

Quem me acompanha neste MKTEsportivo sabe que defendo a volta das competições – em especial dos estaduais -, para evitar a quebra em cascata dos clubes ditos “pequenos” e para garantir retorno aos investimentos feitos por patrocinadores e apoiadores do esporte. Mas esta minha posição sempre levou em conta, prioritariamente, a existência de um ambiente seguro e o aval dos órgãos oficiais de saúde.

Acelerar o retorno, para mim, é colocar em risco não apenas a integridade física de profissionais do esporte e de seus familiares, mas o futuro do próprio negócio. E se a situação desanda e somos obrigados a recuar muitos passos, a ponto de comprometer, definitivamente, a sequência da temporada? Não seria este o tal tiro no próprio pé?

Você que chegou até aqui por supor que me baseio no encerramento antecipado de muitas competições europeias para formular tal opinião. Mas não. Primeiramente, porque lá os torneios já estavam na reta final. Em segundo lugar, porque em muitos países o pico da crise parece já ter sido superado. E, claro, sobretudo porque a realidade das economias – e da situação dos clubes – é bastante diferente.

A questão que pondero é a seguinte: se estamos falando de vidas, e o cenário por aqui parece ser, por ora, ainda mais incerto do que o de lá, por que não esperar mais duas ou três semanas antes de precipitar uma decisão tão crucial?

Algumas pessoas podem responder dizendo que duas ou três semanas é tempo demais para quem já está quebrado – referindo-se aos clubes –, e que isso iria na contramão do meu argumento pela volta dos estaduais em prol dos “pequenos”.

Penso que não – e, veja bem, isso não significa que eu esteja certo, ok?

Fico com a sensação que muitos dirigentes estão olhando apenas para a realidade circunscrita a seus muros. Talvez não tenham se dado conta que todos, com raríssimas exceções, estamos no mesmo barco. E que, por isso, essa crise sem precedentes poderia ser uma ótima oportunidade para repensarmos os modelos vigentes de cooperação e sustentabilidade do negócio futebol. A possibilidade de um redesenho das relações – comerciais, inclusive – é evidente. Mas creio que algo novo só irá surgir se a prioridade for dada ao produto, e não aos produtores.

Qualquer que seja a decisão tomada, minha torcida é para que ela seja acertada. Em nome da vida e em nome desse esporte que tanto amamos.

#FIQUEEMCASA