Coluna

Por que o governo não deve apoiar os clubes com dinheiro público

3 jun, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

O futebol voltou. Em alguns países. Em outros, as competições devem ser reiniciadas nos próximos dias. Idem a Fórmula 1, cujos dirigentes acertam os últimos detalhes para que as máquinas retornem às pistas em breve. Boas notícias? Nem tanto. Principalmente se olharmos para nosso quintal.

No Brasil, onde a pandemia parece ainda não ter chegado ao propalado pico, o esporte segue parado.

É verdade que alguns clubes já retomaram suas atividades e se preparam para uma possível volta na segunda quinzena de julho, com a conclusão dos estaduais.

É verdade, também, que há dirigentes pressionando para que essa possibilidade se confirme – ou até mesmo seja antecipada, ainda que tal medida a mim pareça arriscada.

Mas, admito, essa indefinição – que considero normal, diante de um quadro de incertezas – não me incomoda tanto quanto me incomodou a notícia de uma reunião ocorrida em 28 de maio, entre dirigentes que integram a Comissão Nacional de Clubes (CNC) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

E por que essa reunião me incomodou? Porque nela cogitou-se a hipótese de o Governo Federal liberar uma linha de crédito de mais de R$ 3 bilhões, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para socorrer os eternamente quebrados clubes de futebol do nosso País.

Piada? Parece que não.

Mais um vez, dirigentes jogam no colo dos nossos governantes a obrigação de resolver um problema criado pela própria “categoria”.

Caso essa linha de crédito seja mesmo liberada, será um prêmio (outro!) à incompetência que mais mancham do que engrandecem a história das nossas estimadas agremiações.

E falo em “outro” referindo-me ao prêmio à incompetência porque nos últimos tempos o Governo Federal tem sido conivente até demais com essa inépcia administrativa dos nossos dirigentes. Afinal, não é de hoje que o Governo se dispõe a socorrer os clubes por meio de programas de refinanciamento de dívidas, pelo menos. Adianta? Nunca adiantou.

Ora, em tempos de uma crise econômica sem precedentes neste século, não seria mais humano – e lógico – liberar mais recursos para apoiar o micro, pequeno e médio empresário que hoje passa por severas dificuldades? Ou, ainda, oferecer assistência mais digna aos quase 13 milhões de brasileiros desempregados? Quem sabe, atender melhor às necessidades financeiras que o próprio combate à Covid-19 impõe à realidade nacional?

Carência é o que não falta por aqui, afinal. E ainda que eu seja um profissional do futebol, não me parece nada sensato – muito pelo contrário! – injetar dinheiro público na modalidade num momento em que tudo o que é mais essencial está a alguns poucos passos do colapso (se é que muita coisa já não colapsou).

Quem me acompanha aqui neste MKTEsportivo não deve estar surpreso com esta opinião. No entanto, para ampliar o debate, resolvi ouvir especialistas em finanças no esporte sobre essa malfadada hipótese da linha de crédito do BNDES para os clubes.

Peço licença para esticar o artigo desta quinzena, pois considero o motivo justo. E compartilho abaixo excertos das opiniões do jornalista Rodrigo Capelo, das Organizações Globo, e dos consultores Fernando Ferreira, Amir Somoggi e João Henrique Areias:

 

RODRIGO CAPELO

 Quando a gente fala de apoio estatal aos clubes em função de pandemia, temos que recuperar duas informações importantes para contexto.

A primeira é que os clubes de futebol são subsidiados pelo governo desde sempre, há mais de cem anos. Eles não pagam imposto de renda de pessoa jurídica ou contribuição sobre o lucro líquido, pagos por empresas. Clubes pagam impostos muito menores, inclusive sobre folha de pagamento. Isso significa que o futebol presta uma contrapartida mínima, para não dizer nula, em termos de impostos, e isso é subsidio, porque outros setores não têm esse benefício.

Na Espanha, por exemplo – que, aliás, é modelo para nossos congressistas -, paga-se muito mais imposto. Lá, o percentual de participação do futebol no PIB [Produto Interno Bruto] é muito maior.

Segundo ponto importante: nossos clubes são mal administrados, pouco transparentes, semiamadores ou semiprofissionais – como quiser. São clubes que estão completamente endividados, cujas dívidas fiscais, uma vez que estão isentos da maior parte dos impostos, são decorrentes de crimes praticados, crime de apropriação indébita, quando não repassam imposto de renda.

Para dar nome e ficar mais claro, o Cruzeiro, bicampeão Brasileiro em 2013 e 2014 e bicampeão da Copa do Brasil em 2017 e 2018: esse Cruzeiro do Itair Machado, do Wagner Pires de Sá, dos milhões de reais desviados que têm origem no bolso do torcedor fanático e que vai parar no patrimônio do dirigente amador, supostamente, não deveria receber, mas recebeu milhões. Com toda a terra arrasada que vemos hoje no clube, aquele Cruzeiro merece subsídio? Merece ajuda? E, se ele merecer, qual o impacto que isso causa do ponto de vista esportivo?

O que eu quero dizer: o Cruzeiro foi bicampeão da Copa do Brasil, para falarmos de títulos recentes. Ele continuou na primeira divisão, mas não tinha capacidade financeira para estar lá. Ele conseguiu isso graças à competência dos jogadores, ao talento, à bola na rede e à torcida, mas também à irresponsabilidade e à loucura de seus dirigentes. De todos. Não só da presidência, mas também do Conselho Deliberativo e de todo mundo que, por omissão, deixou aquilo acontecer.

Este é o clube que vai receber subsídio? Qual a justiça desportiva com quem não foi campeão da Copa do Brasil ou com quem foi rebaixado para a segunda divisão sendo mais responsável?

Chegamos num ponto em que o futebol brasileiro está quebrado. Da primeira divisão, pelo menos metade [dos clubes] está destruída. Os endividamentos dispararam, não há sinal de austeridade, impostos deixaram de ser pagos de novo – o que, repito, é crime na maior parte dos casos.

E o que podemos fazer? Há uma saída radical, com a qual eu concordo filosoficamente, mas que não vai ser aplicada, que é simplesmente o governo não fazer nada.

Ah, mas é ruim, porque esses caras [clubes] representam muita gente e empregam pessoas. Tudo bem. Mas um dos problemas do capitalismo brasileiro é que a gente não deixa as empresas quebrarem; tem sempre o subsídio, tem sempre o REFIS, tem sempre um financiamento, tem sempre alguma coisa para salvar quem não fez o trabalho direito. Isso, no longo prazo, mexe com a inovação, atrapalha a nossa cultura e o nosso desenvolvimento. Então deixa quebrar.

Mas, vai quebrar mesmo? Você acha que se um clube estiver perto da bancarrota não aparecem dirigentes, mecenas e apaixonados para salvá-lo? Então o governo deveria deixar que o dirigente mecenas e o mercado privado desse um jeito.

Penso que o governo tem que estar focado em esportes de base, escolas, universidades e esporte olímpico. É na base da pirâmide, e não no alto rendimento. Porque essa base não tem torcedor, não tem fonte de receita, não tem como se financiar. Então é ela que tem que ser socorrida com dinheiro público.

Mas eu entendo que essa proposta é radical e que não vai ser desse jeito. Por isso, o que deveria acontecer, na minha opinião, é o seguinte: vai abrir linha de financiamento do BNDES? Ok. Então [o clube] vai ter que virar empresa e pagar imposto. Integral, como empresa paga. O clube não fatura milhões? Centenas de milhões? Ou dezenas de milhões? Não é um negócio com várias fontes de receita? O dirigente não bota fé no negócio?

Tem que haver um pacote de contrapartidas para que, mais uma vez, o governo preste socorro ao futebol. Se isso não acontecer, a gente vai descambar para a sacanagem, e, infelizmente, vamos perder todos.

 

 

FERNANDO FERREIRA

 Mais um socorro de BNDES para clubes tecnicamente não faz sentido por alguns motivos.

O primeiro é porque nesse momento há setores economicamente mais importantes e mais relevantes do que o futebol que precisam de ajuda. E falta grana. A demanda por dinheiro é muito grande, e o futebol não é um dos setores mais atingidos tanto do ponto de vista de geração de impostos quanto de empregos.

Segundo aspecto: o setor não é estruturado. Ele é formado basicamente por entidades associativas não regulamentadas. O licenciamento de clubes, por exemplo, é uma coisa muito recente, e a base da estrutura do futebol é totalmente ao deus-dará; não há uma estrutura econômica com o setor.

Acho curioso que agora se fale em “indústria do futebol” quando não se age como indústria do futebol.

Outro ponto é que esses caras [dirigentes] não têm um histórico de cumprir com suas obrigações. Tem aí o Profut, por exemplo, que são dívidas passadas, e os clubes continuam não pagando seus impostos e suas obrigações recentes.

Por isso, não faz muito sentido você colocar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim no momento em que faltam recursos no País.

Penso que se eventualmente tivesse que haver algum tipo de apoio, ele deveria ser restrito àqueles clubes que fazem por merecer. Mas o mais curioso é que na linha de frente da demanda por mais dinheiro público estão justamente clubes que têm um histórico horroroso de não pagar, de calotes em cima de calotes ao longo do tempo e sempre buscando mais dinheiro público.

Não é didático dar dinheiro para esses caras. Eles têm que aprender, e o melhor ensinamento é a dureza do dia, a dureza das condições reais. Não dá para premiá-los. Não faz sentido nenhum, nem ética, nem tecnicamente.

 

AMIR SOMOGGI

 Sou totalmente contrário a qualquer forma de empréstimo público para clube de futebol usando BNDES, Caixa [Econômica Federal] ou qualquer outro tipo de mecanismo.

Para piorar, a CBF, segundo seu balanço, tem R$ 700 milhões em caixa. Quer dizer, ela tem dinheiro suficiente pra salvar o futebol brasileiro nesses meses de pandemia. Ela sim é quem deveria financiar isso. Ela é quem deveria criar mecanismos de controle para que a gestão dos clubes mudasse.

A CBF não está fazendo nada porque não quer usar o seu recurso; ela quer que alguém coloque o recurso. Esse é o grande problema: ela não cuida daquilo que é a dela.

 

 JOÃO HENRIQUE AREIAS

 A Constituição Brasileira de 1988 definiu o esporte em três níveis: alto rendimento, educacional e de participação. Desde então, defendo veementemente que dinheiro público tem que ir, prioritariamente, para esporte de participação, que são as vilas olímpicas, comunidades carentes, enfim, estruturas que atendem uma parcela de menor poder aquisitivo, a fim de inserir crianças no esporte e torná-las melhores cidadãos, afastando-as das drogas. Lembro que, segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde], o esporte é o maior antidoto contra as drogas.

O esporte educacional também é relegado no Brasil. Os estudantes, para fazer competições, têm que fazer festas e vaquinhas para fazer esporte. Temos uma instituição nacional que nunca deu bola para esse negócio e só sabe formar equipes para ir para as Universíadas. Gostaria muito de ver a relação de quem vai para as Universíadas; quantos atletas realmente estão indo para representar o Brasil lá fora.

Já os clubes de alto rendimento têm condições de buscar patrocínios, explorar bem seus mercados e seus clientes, que são os torcedores – que, em última análise, são os que pagam a conta.

Por isso, acho que não tem cabimento nenhum [o BNDES liberar linha de crédito aos clubes de futebol].  Sou absolutamente contra.

 

#FIQUEEMCASA