Coluna

A culpa é da Globo?

10 jul, 2020
Fábio Wolff

Sócio-diretor da Wolff Sports e professor no MBA de Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios

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Sempre fui apaixonado por futebol, está no sangue. Meu avô, Waldemar Zaclis, jogou profissionalmente pelo São Paulo Futebol Clube e, depois, pela Sociedade Esportiva Palmeiras.

Na minha infância eu colecionava figurinhas, lia a revista Placar; o primeiro brinquedo inesquecível que ganhei dos meus pais foi uma mesa de futebol de botão e me lembro até hoje do layout dos acrílicos dos dois clubes: Corinthians x São Paulo.

Também lembro, quando pequeno, do futebol italiano aos domingos na TV e dos jogos de futebol brasileiro pelo rádio, junto com meu pai. Naquela época não era tão habitual a transmissão do futebol brasileiro pela TV.

O tempo foi passando e o futebol regional e o brasileiro começaram a se fazer presente em algumas emissoras, como a TV Bandeirantes e a Rede Globo.

Com o tempo, me acostumei a acompanhar as transmissões pela Globo. Quando chegava da escola, a chamada das partidas, o conteúdo futebolístico no Globo Esporte e as transmissões cada vez melhores, no sentido tecnológico, me tornaram um fã de carteirinha do futebol da Globo.

Décadas promovendo e transmitindo com primor, além de ser o principal financiador do futebol brasileiro (em torno de 40% da receita dos clubes vem da TV), tornaram a Rede Globo o player mais poderoso deste esporte brasileiro.

O modelo se tornou muito rentável à emissora e deveras interessante aos clubes. O patrocínio evolui ano após ano. Atualmente, por exemplo, cada uma das seis cotas do futebol da Globo custa 307 milhões de reais.

Vale ressaltar que a discussão sobre a divisão das receitas nas negociações coletivas à época do Clube dos 13 – e mesmo após a sua implosão – quando realizada de forma individual, sempre causou polêmica e discórdia. É fato que os clubes brasileiros sempre priorizaram os próprios interesses no lugar do interesse coletivo. Assim, infelizmente, a desunião entre eles prevalece diante da visão, que seria acertada, de valorização do produto “futebol” como um todo.

Essa falta de união é visível ao notarmos, por exemplo, como se apresenta pífia a internacionalização do nosso futebol.

Os principais clubes brasileiros incrementaram os faturamentos de alguns anos para cá e a dependência da TV se tornou regra no mercado, fazendo com que muitos clubes utilizassem a garantia dos contratos firmados com a emissora para contrair empréstimos bancários, além dos corriqueiros adiantamentos de pagamentos que Globo fazia.

Muito se discute sobre o monopólio que a Rede Globo exerce no mercado, ou seja, os prós e contras da concentração dos principais torneios de futebol em uma única emissora.

Novas tecnologias e diferentes players chegaram ao mercado e, com eles, outras formas de se monetizar a comercialização dos direitos. Com isso os clubes se deram conta de que, em sua grande maioria, não detêm os direitos dos próprios conteúdos (históricos e atuais), pois os haviam vendido à emissora em questão.

Ao assinar contratos longevos com uma única emissora, os clubes correm o risco de ficarem amarrados a ela e, assim, quando novas oportunidades surgem, a falta de um planejamento em médio e longo prazo tornam a busca por esta parceira, na maioria dos casos, a primeira alternativa para o pagamento de despesas em curto prazo.

Arrojadas tecnologias chegaram e o que é, na minha opinião, uma grande oportunidade para a união dos clubes e profissionais do mercado em prol de uma discussão e análise profunda das mudanças e consequências benéficas aos mesmos – e ao produto futebol – tem sido prejudicada com o caráter de urgência com que essa MP 984 foi lançada ao mercado em plena pandemia.

Reforço que, por ser o tema profundo, mereceria muitas horas de discussão, o que, inevitavelmente, entre outras coisas, acarretaria em negociação mais criteriosa com a Rede Globo sobre direitos cedidos pelos clubes e o papel da mesma nesse novo momento.

A pandemia obriga a reflexão sobre novas atitudes. Neste momento lamentável de extrema politização e polarização, deveríamos repensar sobre o papel significativo que a Globo tem prestado ao futebol brasileiro ao longo de décadas e não simplesmente partir para a execração da emissora.

A experiência demonstra que o extremismo, seja de que lado for, é sempre prejudicial. Razoabilidade, bom senso e equilíbrio são lições trazidas pela pandemia. O momento crítico que o Brasil enfrenta exige serenidade e disposição ao diálogo.