Coluna

Para onde caminha a lenta e gradual retomada do esporte no Brasil?

29 jul, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Após quatro meses de paralisação, algumas competições esportivas finalmente voltaram a ser disputadas. Tal fato deve ser celebrado, sem dúvida, ainda que não saibamos bem como a coisa irá se desenrolar neste segundo semestre, dada a incerteza global em relação à pandemia.

Por outro lado, essa mesma incerteza já provocou importantes baixas no calendário desportivo.

Como não lamentar, por exemplo, o cancelamento da etapa brasileira da Fórmula 1? Em quase 50 anos, esta será a primeira vez que Interlagos, em São Paulo, deixará de receber a prova da mais importante categoria do automobilismo mundial.

Ainda que o fã local da modalidade esteja carente de um ídolo nas últimas temporadas, a não realização do Grande Prêmio Brasil é uma perda lastimável para os apaixonados pelo esporte, para a tevê, para os patrocinadores e para todos os players envolvidos com esse relevante evento.

Se serve de consolo aos amantes da velocidade, podemos celebrar, ao menos, o início da temporada 2020 da Stock Car, com a etapa de Goiânia, realizada no último dia 26. Que a principal categoria do nosso automobilismo possa ser bem-sucedida e chegue a dezembro como um alento deste ano tão atípico.

Já no futebol, a retomada trouxe consigo um novo modelo de negócios para as transmissões esportivas no meio televisivo.

Na esteira do momento de baixa de audiência e queda nas receitas publicitárias, a atual detentora dos direitos de transmissão conseguiu reduzir o valor pago a um clube.

Isso só reforça o que já destaco há algum tempo: as agremiações devem, com urgência, rever o modelo de produção, cessão e transmissão de seus conteúdos. Afinal, são os protagonistas dessa novela.

O streaming deixou de ser promessa para se consolidar como fonte real de receitas. É preciso trabalhar nessa frente com prioridade, ou deixaremos passar uma excepcional oportunidade.

Dentro de campo, por sua vez, o que a retomada mostrou é paradoxal – como muita coisa nessa pandemia, registre-se. Enquanto no Rio de Janeiro o Estadual já foi até decidido (inclusive, sob a égide de uma Medida Provisória que impacta diretamente o tema exposto nos parágrafos anteriores, sobre os direitos de transmissão), no outro Rio – o meu, Grande do Sul – o que se viu, com o reinício do Campeonato Gaúcho, foi um clássico Grenal disputado em gramado bem aquém da grandeza deste duelo, fora da capital Porto Alegre, em virtude das proibições sanitárias impostas por nossas autoridades.

Aliás, o “espetáculo” protagonizado pela Dupla, com as bênçãos da Federação Gaúcha de Futebol, parece mesmo que será a tônica da sequência do torneio: jogos de baixa qualidade técnica e desinteressantes até para serem assistidos pela TV.

Caso nossos dirigentes ainda desejem dar sobrevida aos campeonato estaduais nas temporadas subsequentes, é melhor que tentem pensar em algo para a reta final das edições deste ano, em que pese o novo coronavírus ainda estar dando as cartas.

A sensação que tenho, com este estranho momento que atravessamos, é um misto de esperança e melancolia. Esperança porque sou do time daqueles que veem nas crises oportunidades reais de transformação. Prefiro acreditar que o esporte brasileiro vive, hoje, o melhor momento para se reinventar, de uma vez por todas.

Já a melancolia eu ponho na conta do pouco que tem sido feito em prol dessa reinvenção. Sim, porque, para mim, a questão é muito mais ampla e complexa do que transformar uma Medida Provisória em lei ou apostar no streaming como meio de veiculação de conteúdo proprietário.

É preciso uma mudança de mentalidade de quem comanda, executa e consome o esporte no Brasil, capaz de substituir o provincianismo pelo profissionalismo. Ou isso, ou a chamada “indústria do esporte” em nosso País jamais deixará de ser apenas um pote de ouro no fim do arco-íris.

Que a paralisação imposta pela pandemia nos sirva de aprendizado.