Coluna

Um “novo normal” ou um novo futebol?

14 jul, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

O mais atípico de todos os anos deste século já passa da metade, e nós, no Brasil, não temos clareza do que a pandemia do novo coronavírus ainda pode nos reservar. Ao que parece, só mesmo em 2021, com vacina possivelmente disponível, é que a vida poderá voltar aos eixos – ou, como preferem alguns, entrar no que consideram um “novo normal”.

Em que pese o aumento do contágio na região Sul, de onde escrevo para este MKTEsportivo, meu sentimento é bastante dúbio, admito. Quero acreditar que o esperado platô das contaminações de fato começa a se consolidar. No entanto, sinto-me desconfortável e ainda inseguro para retomar o estilo de vida – ou algo próximo a ele – que levava antes dessa terrível crise global.

Algumas lideranças políticas e alguns dirigentes esportivos do País, contudo, parecem não compartilhar desse sentimento. Não sei se por questões econômicas ou por excesso de confiança na estabilização da doença, a verdade é que o futebol brasileiro voltou e parece querer engrenar.

Primeiro foi o Rio de Janeiro, que inclusive conhecerá seu campeão estadual na noite desta quarta-feira 15. Em Santa Catarina, o campeonato voltou em 8 de julho, teve alguns jogos cancelados, mas segue em andamento – de um jeito meio estranho, mas segue. As partidas do Gauchão e do Paulista também devem ser retomadas ainda neste mês. Claro, tudo ainda sem público e em meio ao imbróglio da MP 984/2020, que, não bastasse a pandemia, também impacta torcedor, mercado e mídia.

Essa combinação entre o “novo normal” para a volta do futebol e um futebol com novas regras de transmissão me fazem pensar no que, efetivamente, teremos como realidade a partir de agora.

A retomada do Campeonato Carioca, com jogos exibidos pelas tevês oficiais de Flamengo e Fluminense, representou recordes de audiência no streaming mundial, com números até então impensáveis para esse tipo de plataforma.

Seria mesmo este o futuro – ou o presente? – das transmissões esportivas? Fico com a sensação que este é, pelo menos, o ponto de partida para a revolução já instalada. Praticamente, um “novo normal”, para me apropriar do termo popularizado pela pandemia.

Penso que o modelo chegou para ficar e mostrar a clubes e anunciantes que se trata de uma solução viável, tanto em âmbito técnico quanto – e sobretudo – comercial.

Ainda que neste início alguns problemas tenham acontecido e as receitas obtidas pelos clubes talvez não tenham sido tão expressivas quanto as audiências registradas, entendo que o azeitamento das engrenagens, com o passar do tempo, fará com que o que hoje ainda é tido como alternativa caia definitivamente nas graças da torcida e se imponha como prioridade no cardápio de produtos e serviços oferecidos pelos clubes à sua base consumidora.

Claro, não se pode e não se deve negar a importância da TV nesse contexto. E o que esse “combo pandemia/MP” nos traz de novidade, no momento, é o retorno de um importante player para a modalidade. Refiro-me ao SBT de Silvio Santos, que adquiriu o direito de transmitir a finalíssima do Carioca após um hiato de mais de 20 anos em transmissões.

Assistir a uma final de campeonato por um canal que não seja das Organizações Globo é algo que praticamente caiu no esquecimento dos torcedores e torcedoras com mais de 30 anos.

O pay-per-view da Vênus Platinada parece ter sentido o golpe. Tanto que a imprensa especializada noticiou nos últimos dias que a empresa da família Marinho planeja oferecer um desconto de 40% para recuperar assinantes perdidos do chamado “Premiere” do futebol na TV a cabo.

Refaço as perguntas feitas alguns parágrafos acima: seriam estes movimentos do “novo normal” no futebol pentacampeão? Ou será que estamos presenciando a construção dos alicerces de um novo futebol brasileiro? (e aqui, claro, refiro-me à globalidade do mercado, e não tão-somente aos clubes, nos quais infelizmente impera muita politicagem, desunião e amadorismo).

Ainda não me sinto à vontade para cravar uma opinião. Mas ao contrário da insegurança que tenho com relação à retomada da vida durante essa pandemia sem fim, a mim parece que algo diferente no futebol verde-amarelo, no mínimo, começa a se desenhar.

Resta-me torcer para que toda essa movimentação – independentemente de ser um “novo normal” ou um novo futebol – não coloque em risco a saúde e a vida de todos os envolvidos e envolvidas neste grande negócio que o esporte.

Sorte para nós!

 

#FIQUEEMCASA