Coluna

Com Champions, UEFA dá lição de valorização de produto e gestão de crise

25 ago, 2020
Jorge Avancini
Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços
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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Logo após o término dos campeonatos estaduais, tenho o hábito de usar este espaço para falar sobre as oportunidades de negócios que vislumbro para os clubes brasileiros de futebol no segundo semestre da temporada. Nesta quinzena, porém, farei diferente: convido você, estimado(a) leitor(a), a voltar os olhos ao continente europeu.

Para quem vive de e no futebol, é impossível não falar a respeito da final da Champions League 2019-2020, disputada por Bayern de Munique e Paris Saint-Germain no último domingo 23, em Portugal.

Embora boa parte da torcida brasileira – em especial – esperasse a consagração definitiva de Neymar, e outro tanto de gente, em vários cantos do mundo, torcesse pelo inédito título do milionário clube francês, prevaleceu a lógica, e pela sexta vez a equipe da Baviera sagrou-se campeã do torneio interclubes mais importante do mundo.

A exemplo do que vimos no eterno 7 a 1, os alemães exibiram durante toda a competição um futebol de primeiríssima linha, com muita intensidade, vigor físico e disciplina tática. Como já virou marca do futebol daquele país, o coletivo bem jogado se sobrepõe ao talento individual.

Mas o que quero destacar neste artigo vai além das quatro linhas – e, na verdade, não diz respeito ao êxito dos alemães dentro de campo. Penso ser oportuno evidenciar a grande lição (mais uma!) dada ao mundo pela UEFA, organizadora da Champions League.

Mesmo em meio a um contexto de pandemia – e respeitando todos os protocolos exigidos pelas autoridades de saúde para conter a disseminação do novo coronavírus – a entidade apostou na força do torneio, fez rearranjos importantes na logística da competição e colheu ótimos frutos. E tudo isso, claro, sem deixar de oferecer seu tradicional superespectáculo a cada partida, com exibições de gala das estrelas do futebol mundial.

No Brasil, por exemplo, a Champions tem conquistado cada vez mais espaço e atenção da torcida. Não à toa as transmissões feitas pela internet e pela TNT, o canal de TV paga detentor dos direitos para o meio, continuem atingindo, ano após ano, altos índices de audiência (aliás, a final entre Bayern e PSG garantiu à TNT a maior audiência da história da TV fechada no País, conforme o próprio narrador da partida já alardeava durante a transmissão e segundo noticiou este MKTEsportivo).

Isto posto, listo abaixo alguns aspectos da edição recém-encerrada que, na minha opinião, justificam a grandiosidade e o respeito global conquistado pela Champions League a cada nova edição disputada:

– Programada para maio, em Istambul (Turquia), a final foi transferida para a Lisboa como forma de minimizar os riscos de contaminação pela COVID-19. Mas não foi só isso. Ainda em junho a UEFA definiu a retomada do torneio, após a paralisação provocada pela pandemia, com jogos únicos e concentrados apenas na capital portuguesa, a partir das quartas de final. A medida manteve o interesse do público na competição, assim como reativou patrocinadores, parceiros comerciais e a própria imprensa esportiva mundial;

– Apoiada na qualidade técnica das equipes e na influência global de muitos dos jogadores, a decisão de concluir a edição 2019-2020 mostrou-se acertada. Afinal, a competição atrai a atenção de milhões de torcedores-consumidores. E atenção da torcida significa altos índices de audiência nas transmissões (sobretudo se considerarmos a impossibilidade de público nos estádios), e, por consequência, receitas de patrocinadores, sedentos por voltarem a exibir suas marcas ao público;

– Apesar dos rearranjos de logística, a fórmula do torneio foi mantida, o que contribuiu para a manutenção do engajamento do público global (aliás, em muitos momentos o universo esportivo tratou sabiamente a fase decisiva da competição como uma Copa do Mundo);

– Em muitos mercados, a reta final da Champions consolidou o streaming e as redes sociais como as plataformas da vez para transmissão de futebol – mais do que a TV aberta. E se no Brasil essas possibilidades ainda patinam, em alguns outros países há um bom número de players monetizando esses canais com propriedade.

Não tinha como dar errado: torcida saudosa do torneio + qualidade do conteúdo apresentado + horário adequado das transmissões para os principais mercados consumidores do mundo + qualidade das transmissões + variedade de distribuição do conteúdo (diferentes plataformas) + ações de ativação de patrocinadores = sucesso total!

Como diz aquele ditado popular, a UEFA fez do limão uma deliciosa limonada.

O que eu lamento é que clubes, federações e confederações do hemisfério sul do globo sejam incapazes de tirar lições desse grande case para adequar as boas ideias e práticas europeias à realidade e à cultura regional, de modo a tornar nossas competições verdadeiramente atrativas, competitivas, lucrativas e interessantes ao público, patrocinadores e investidores.

Sonho com o dia em que ainda veremos uma Champions League por aqui. Nem que seja em versão genérica.