Coluna

O show deve continuar. Mas a que preço?

12 ago, 2020
Jorge Avancini
Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços
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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Impossível não relembrar Queen e Freddie Mercury ao dar título para o artigo desta quinzena neste MKTEsportivo. E não porque resolvi falar de música, desta vez. Na verdade, o motivo é um tanto óbvio – diria, até, lugar-comum: na gradativa retomada da vida global, ainda que a pandemia do novo coronavírus não tenha arrefecido tanto quanto queremos acreditar, fato é que não me ocorre trilha sonora mais adequada para este momento tão insólito. The Show Must Go On, guys!

Eu, no entanto, tenho ressalvas – e se você me acompanha com frequência por aqui já deve conhecer meus motivos. Contudo, a realidade é que independentemente do que penso ou deixo de pensar, o esporte brasileiro voltou sob este hino. Os regionais foram encerrados, o Brasileirão começou, e Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana vêm aí. Que bom! Mas, será mesmo?

Mal o Nacional teve início e o duelo entre Goiás e São Paulo, que aconteceria no domingo 9, foi acertadamente cancelado. O motivo foi que dez jogadores do time esmeraldino testaram positivo para COVID-19 (vale lembrar que numa infeliz coincidência, o fim de semana também foi marcado pelo óbito número 100 mil pela doença no Brasil).

O cancelamento do referido jogo é preocupante. Até porque já havíamos presenciado algo semelhante quando da retomada do Campeonato Catarinense, com vários jogadores da Chapecoense também testando positivo para a COVID.

Sim, the show must go on. Todavia, o que ocorreu com o confronto entre Goiás e São Paulo pode se repetir no decorrer da competição. E aí, como fica o show?

Devemos lembrar que o Brasileirão pede inúmeros e cansativos deslocamentos para que aconteça. Ao menos em tese, isso pode representar risco à saúde – e, por consequência, eventual proliferação do vírus – de atletas, dirigentes, comissões técnicas, imprensa e outros profissionais envolvidos na realização das partidas.

Vou além e pergunto: e quando o circo é armado e o espetáculo não acontece, como ocorreu no Centro-Oeste do País? Respondo: prejuízo para os clubes, para os detentores dos direitos de transmissão, patrocinadores, apoiadores e parceiros em geral. O bom e velho tiro no pé, em resumo.

Exagero? Então considere a seguinte sequência: jogadores do Goiás testam positivo; clube e time esmeraldino, em meio à tensão natural da situação, sofrem desgaste de imagem. O São Paulo, por sua vez – que chegou a entrar em campo -, viajou a e hospedou-se em Goiânia (portanto, teve despesas), concentrou a equipe – que, diga-se, começa o Brasileiro pressionada por uma surpreendente eliminação para o Mirassol no Paulistão – e viu-se obrigado a voltar para casa sem ter podido cumprir seu compromisso. Ambas as equipes, agora, vítimas de um calendário ainda mais maluco nesta temporada, sofrerão com um “encaixe” Deus-lá-sabe-quando desse fatídico jogo não jogado.

Detesto a ideia de parecer – ou ser – pessimista. Principalmente se passo a ideia de “cavaleiro do apocalipse”, com capa, armadura e tudo mais o que tenho direito. Mas não posso deixar de fazer nova pergunta: era mesmo a hora de seguir com o show?

Como profissional do ramo, é evidente que reconheço o peso da questão econômica nessa decisão tresloucada de “chega, não podemos mais esperar! The show must go on. Que comecem os jogos!” Ocorre que, para mim, começar assim é tão ou mais problemático do que adiar por mais um tempo. Em todos os sentidos.

E como nada é tão ruim que não possa piorar – desculpe-me, estimado leitor, mas nesta quinzena admito que encarnei o “cavaleiro do apocalipse” -, não poderia deixar de falar, também (e mais uma vez), sobre futebol e televisão. Porque não foi só para o Brasileirão, em virtude da COVID-19, que a luz amarela se acendeu. As duas principais competições das Américas para nós, brasileiros, também foram pauta do noticiário esportivo nos últimos dias. Isso porque Globo e DAZN, detentores, respectivamente, dos direitos de transmissão da Copa Libertadores e da Sul-Americana para o País, romperam contrato com a Conmebol, que organiza as competições.

O indigesto combo crise global, mais queda no faturamento publicitário, mais MP 984/2020 culminou numa sequência de mais perguntas que também carecem de respostas:

1. Quem passará a transmitir os jogos de ambas as competições continentais no Brasil?
2. Como ficam os patrocinadores que já haviam adquirido cotas dos torneios da Globo e DAZN?
3. O(A) torcedor(a) conseguirá assistir aos jogos de seu time em algum canal?

Ora, se o show tem mesmo que continuar – ainda que a realidade pareça conspirar contra -, juro que prefiro despir-me da armadura de “cavaleiro do apocalipse” e acreditar mais no refrão do hino do Queen do que nas primeiras estrofes desta mesma canção (cuja semelhança com os jogos de futebol em todo o mundo em tempos de pandemia não é mera coincidência):

Empty spaces… what are we living for?
(Espaços vazios… para que estamos vivendo?)

Abandoned places – I guess we know the score
(Lugares abandonados – Eu acho que já sabemos o placar)

Até a próxima!