Coluna

E-book reforça a importância da construção de imagem do jogador de futebol

9 set, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

No artigo desta quinzena, volto a abordar um tema que considero crucial para a construção da tão sonhada indústria do futebol no Brasil: gestão de imagem e de carreira.

Insisto no assunto – pela quarta vez nos últimos 15 meses – porque fui positivamente surpreendido, há alguns dias, pela leitura de um e-book que trata da questão. Refiro-me ao título “Construção de Imagem do Jogador de Futebol” (capa abaixo), da dupla Ana Teresa Ratti e Braitner Moreira.

Ana Teresa é mestre em Administração de Empresas e tem MBA em Marketing, Gestão Estratégica de Negócios e Influência Digital. Especializou-se no universo esportivo com os cursos “Gestão de Futebol”, da CBF Academy; “Marketing no Futebol”; da Escola THE360; e “Sports Marketing”, da Northwestern University, nos Estados Unidos.

Já Braitner Moreira é jornalista, mestre em Marketing e Comunicação Digital no Esporte. Participou da cobertura de eventos importantes, como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. É um estudioso da cooperação entre esporte e sociedade. Atualmente, trabalha numa agência italiana de gestão de carreiras de atletas.

Com uma linguagem objetiva e muito acessível, “Construção de Imagem do Jogador de Futebol” baseia-se na experiência dos autores para tratar do tema com clareza e propriedade.

Conversei com Ratti e Moreira para conhecer melhor a visão deles sobre o assunto. Abaixo, compartilho alguns dos principais excertos do ótimo papo que tivemos:

O futebol brasileiro é uma manifestação sociocultural com vida própria, capaz de fabricar ícones em uma velocidade deslumbrante. Gera paixões e emoções instantâneas. E movimenta muito dinheiro. Uma combinação capaz de fazer sonhar.

Transformar o desejo em plano de carreira exige encarar os degraus que virão pela frente. Não é apenas uma luta para chegar ao topo; é preciso continuar subindo para sobreviver.

Mais de 360 mil jogadores estão registrados na CBF. Apenas 25% deles têm contrato profissional. A cada 250 atletas, só um ganha mais de R$ 5 mil por mês.

Nesse cenário, a diferenciação é essencial. No que um jogador é diferente de seus milhares de concorrentes? Drible, passe, técnica são vantagens competitivas. Mas, em um mercado com todos tão próximos, o trabalho extracampo é cada vez mais decisivo: a gestão profissional da imagem é um recurso fundamental.

No meio dessa luta pelo ‘desempate’, surgiram as redes sociais. Uma oportunidade, pois o brasileiro passa em média 3 horas e meia por dia nesse ambiente. No entanto, uma estratégia de imagem eficiente não se resume a uma boa presença no Instagram, TikTok ou Twitter; estas são apenas ferramentas dentro da gestão consciente de imagem — importantes, claro, mas atalhos não existem.

Trabalhar a imagem é fundamental no planejamento de carreira. Neymar entende isso muito bem, lapidado desde que estava no Santos. Com autenticidade, navega bem na música, no cinema, nos games, na moda. De alguma forma, tudo isso já virou negócio. E fama. E dinheiro.

Kaká, recentemente aposentado, ainda colhe frutos por ter investido no desenvolvimento de uma imagem autêntica. Ele se beneficiou de sua marca pessoal em cada degrau da carreira, a ponto de ser contratado pelo Orlando City para ser ‘a cara do clube’, representando os valores do time então recém-criado.

Craques como eles nos ajudam a entender o que significa trabalhar a imagem, mas esse desenvolvimento não deve se restringir à elite do esporte. A imagem é decisiva para todos, dia após dia. Ajuda ou atrapalha o plano de carreira, melhora ou piora contratos.

Sob o ponto de vista do atleta, a imagem é um instrumento para ajudar algo maior: sua carreira. Por isso, deve ser trabalhada de ponta a ponta — é necessário, antes, definir objetivos claros e criar estratégias coerentes, para só depois estruturar a imagem. Planejar seriamente e só depois pensar na legenda ideal para o post de amanhã no Instagram. Eis o desafio.

As palavras dos autores são muito coerentes, e, como não poderia deixar de ser, ilustram bem o que o(a) leitor(a) irá encontrar no e-book.

Penso que esse tipo de obra presta um grande serviço ao mercado e a todos(as) aqueles(as) que almejam ingressar na área. Sobretudo por aqui, onde, talvez por falta de cultura – ou por acharmos que os cinco títulos mundiais da nossa Seleção nos fazem sábios natos de tudo o que diz respeito a futebol –, parece que menosprezamos o estudo e o conhecimento técnico.

Ao contrário do observado em outros países, muito profissional do esporte no Brasil ainda enxerga a gestão de imagem e de carreira como bobagem, arrogância ou supervalorização. Eu, com toda minha experiência no futebol, só lamento que ainda haja quem pense assim. E é por isso que louvo obras e iniciativas como a de Ana Teresa Ratti e Braitner Moreira.

Não é sempre que um atleta, jovem ou consagrado, pode contar com conselhos, orientações e influência de figuras como Antônio Carlos de Almeida Braga, mais conhecido como Braguinha, empresário de sucesso no ramo financeiro e de seguros que se destacou, também, como mentor de alguns dos mais importantes ídolos do esporte brasileiro, como Emerson Fittipaldi, Ayrton Senna e Gustavo Kuerten.

A quem não teve a sorte de cruzar o caminho de Braguinhas, a melhor pedida, na minha opinião, é capacitar-se ou buscar apoio de quem o fez. Só assim para os erros, que certamente irão acontecer, não solaparem o almejado sucesso.