Coluna

Em ano de apagão global, é preciso não esquecer das eleições. Nos clubes

23 set, 2020
Jorge Avancini
Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços
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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Naquele que certamente entrará para a história como um dos anos mais marcantes deste século, o esporte mundial tem protagonizado situações que, se não entrarão para os anais do entretenimento ou dos negócios, pelo menos deverão ser lembradas como episódios relevantes em meio à convulsão instaurada com a pandemia do novo coronavírus.

Aqui no Brasil, alguns exemplos são a MP 984/2020, que virou do avesso o até então intocável mundo das transmissões esportivas; a migração dos direitos da Libertadores para a TV aberta da TV Globo para o SBT; a desistência dos direitos de transmissão da Fórmula 1 pela mesma TV Globo; a volta do inesquecível “Show do Esporte” à programação da TV Bandeirantes – na esteira do retorno do Campeonato Italiano a esta mesma casa, que espera reviver o famoso “Canal do Esporte”; e, mais recentemente, o acordo de naming rights entre Corinthians e Neo Química, que finalmente fez os narradores de futebol da Globo a citarem o patrocinador durante as transmissões de jogos do Timão.

Já em âmbito global, será difícil não lembrar, daqui a algum tempo, do estrondoso sucesso da série “The Last Dance”, que mostra a última temporada de Michael “Air” Jordan no lendário Chicago Bulls; da condução impecável da UEFA na retomada – ou “reinvenção” – da Champions League pós-parada do coronavírus (em edição que ficará marcada, sem dúvida, pelo estrondoso 8 a 2 do Bayern de Munique sobre o Barcelona de Messi); ou, ainda, da substituição da Nike pela Puma pelo craque Neymar, num dos acordos de patrocínio individual mais milionários dos últimos tempos.

Pois é. O tão falado “novo normal” parece mesmo ter arrombado o vestiário do esporte com uma voadora digna de Jackie Chen. Mas se por um lado tudo isso soa histórico e interessante, por outro desvia a atenção de um evento que, também em 2020, promete agitar muitos bastidores no País pentacampeão do mundo. Refiro-me às eleições para a escolha dos novos mandatários de agremiações.

Em virtude da pandemia, uma das possíveis novidades em muitos clubes será a adoção do voto a distância – algo nem tão novo assim para alguns deles (e deixando de lado, claro, as agremiações pré-históricas que sequer elegem por voto direto até hoje).

Julgo, no entanto, que este não é – ou não deveria ser – o foco. Para mim, as atenções teriam de se voltar às propostas das chapas/candidatos. Sobretudo no que diz respeito a dez aspectos cruciais para o sucesso administrativo de um clube – e, por consequência, para o possível êxito do time dentro das quatro linhas nos próximos anos (link que costumo chamar, em minhas palestras, de “ciclo virtuoso”).

E quais são esses aspectos? Vamos à eles:

1. Gestão transparente: assim como caráter ilibado, não deveria ser virtude de administrador (mas infelizmente ainda é. E, se é, não custa lembrar!);

2. Austeridade financeira: ausente da maioria dos clubes brasileiros, que costumam gastar muito mais do que arrecadam, e, por isso, vivem afundados em dívidas impagáveis. Numa temporada que irá suceder um ano de menos receitas, será um grande desafio aos eleitos;

3. Governança corporativa e compliance: práticas já largamente utilizadas na iniciativa privada, devem ser cada vez mais cobradas pelo mercado, por associados(as) e até mesmo pelo(a) torcedor(a) em geral;

4. Estruturas enxutas: seja no grupo político (ainda presente), seja na diretoria executiva, a ordem é gerar mais resultados – de preferência, no curto prazo (sim, esta ainda é a realidade vigente no futebol brasileiro, gostemos ou não) – com menos pessoal e menos despesas;

5. Planejamento estratégico: o mapa de navegação da gestão; ferramenta obrigatória aos que buscam se adequar às modernas práticas administrativas – afinal, não adianta ter bons ventos se não sabemos para que direção queremos ir. O planejamento mostra esse caminho para o curto, médio e o longo prazo. Inconcebível que qualquer direção de clube de futebol da segunda década do século XXI ainda não o possua (e em constante atualização, claro);

6. Sócio-torcedor: passou da hora de revisar os planos vigentes. A nova realidade e a ideia de inúmeras e multifacetadas ofertas colocam em xeque o modelo atual. Se há 15 ou 20 anos respostas possíveis para a pergunta “Por que devo ser sócio do meu clube?” eram acesso garantido (leia-se “ingresso”), revista oficial e direito a voto, entregas como estas, hoje, não convencem mais ninguém a pagar mensalidade. Relacionamento personalizado e engajamento customizado são as diretrizes da vez;

7. Inclusão digital: em um mundo multitela e ultraconectado, de circulação ininterrupta de informação, é imprescindível amparar-se em tal realidade para o desenvolvimento de produtos e serviços que mantenham a torcida permanentemente ligada à marca institucional e fomentem o desejo de consumo. Os clubes que não correrem por essa estrada vão perder a prova e a possibilidade de gerar novas receitas e de aumentar sua base de torcedores/clientes;

8. Combo eficiência + adaptação + agilidade + inovação: a gestão que não dedicar especial atenção a esses quatro elementos – comuns e tão necessários em outros segmentos de mercado – será atropelada pelos adversários, dentro e fora de campo (basta notar o apetite com que alguns gigantes do futebol europeu aportaram por aqui e em outros países, sempre baseados nesse combo);

9. Categorias de base: formar em casa deveria ser um padrão. Num país tão populoso quanto o nosso, material humano não me parece ser o problema. Uma base bem estruturada e bem administrada tende a gerar, no mínimo, boas promessas em fluxo contínuo. E isso, claro, com alguma dose de sorte, pode se converter em bons resultados desportivos e receitas futuras;

10. Patrimônio e infraestrutura: clubes que possuem estádio e infraestrutura instalada, como Centro de Treinamentos e Área Social, por exemplo, devem continuar investindo em melhorias e na qualificação de seus complexos (desde que não se desrespeite a austeridade financeira citada no item 2, por óbvio). Boas estruturas geram recursos e atraem sócios e parceiros comerciais interessados em investir na instituição.

É evidente que há outros aspectos para além dos dez mencionados e que também merecem a atenção dos aspirantes a presidente, vice e dirigente de clubes. Mas, digamos, esta poderia ser considerada uma espécie de espinha dorsal da administração. Eu, pelo menos, candidato fosse, cuidaria delas com o mesmo esmero com que cuido da minha própria saúde.