Coluna

Quando paixão e emoção falam mais alto que a razão

21 out, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

Em toda e qualquer atividade esportiva profissional, sempre vamos nos deparar com três elementos que andam juntos e pelos quais podemos transitar com imensa facilidade, voluntária ou involuntariamente, de maneira acertada ou equivocada. Refiro-me à tríade paixão, emoção e razão.

Nos meus mais de 20 anos de carreira no futebol, como dirigente e executivo, fui obrigado a aprender como funciona esse intrincado trio. Ou isso, ou não conseguiria atuar no meio.

Compreendi que paixão e emoção estão sempre coladas; já a razão costuma andar solitária e fazer as vezes de fiel da balança, pesando mais ou menos do que a referida dupla em determinadas situações.

Confesso que até hoje, mesmo após todos esses anos de experiência, ainda é desafiador equilibrar esses três pratos de modo a não tomar decisões precipitadas ou indevidas – e correr o risco de, num único movimento mal calculado, vê-los espatifar no chão, juntamente com minha credibilidade e a de quem represento. Afinal, esporte é paixão e emoção por essência.

Entretanto, como sempre costumo dizer nas minhas aulas e palestras, é preciso priorizar a razão a todo custo, por mais difícil que isso possa ser ou parecer – sobretudo quando o que (ainda) predomina no discurso da maioria dos dirigentes e da própria torcida é a apaixonada filosofia do “o que importa mesmo é taça no armário e faixa no peito. O resto é só conversa”.

Para ilustrar com exemplos a complexidade dessa relação, elenco na coluna desta quinzena situações recentes que nos foram mostradas pela indústria esportiva pelo mundo. Deixo minha opinião sobre o desfecho das histórias e proponho que você, leitor e leitora, reflita e tire suas próprias conclusões (evidentemente, não se sinta obrigado(a) a concordar com meu ponto de vista, ok?).

Aí vão:

SITUAÇÃO 1: No dia 11 de outubro, os apaixonados e apaixonadas por esportes de todo o mundo foram brindados(as) com três conquistas que, na minha opinião, mostram o êxito da razão sobre a emoção e a paixão no que concerne à gestão de carreiras individuais. Na ocasião, o Los Angeles Lakers, liderado pelo astro LeBron James, faturou seu 17º título da NBA; o piloto inglês Lewis Hamilton chegou a 91 vitórias na Fórmula 1 e igualou o recorde de Michael Schumacher; e o tenista espanhol Rafael Nadal conquistou seu 13º troféu de Roland Garros, ao mesmo em que atingiu a marca de 20 títulos de Grand Slam em partidas de simples, tornando-se, ao lado de Roger Federer, o maior vencedor de slam da história da modalidade na categoria masculina.

Não digo, com esses dados, que faltam paixão e emoção a LeBron, Hamilton e Nadal; muito pelo contrário. Entretanto, esses três ícones (e ídolos) do esporte só chegaram a tal patamar por possuírem carreiras praticamente ilibadas, muito bem planejadas. São, no meu entendimento, atletas que conseguem conciliar, com maestria e profissionalismo, o foco no resultado quando estão em ação com as exigências e a racionalidade do lucrativo negócio em que se transformaram ao longo dos anos, enquanto pessoas jurídicas (produtos, portanto). Um a zero para a razão.

SITUAÇÃO 2: A tão falada – e polêmica – Medida Provisória 984/20, que impactou os direitos de transmissão do futebol brasileiro, caducou e não virou lei. E aquilo que parecia ser uma possibilidade de redenção financeira dos clubes, no final, apenas beneficiou pontualmente algumas agremiações. Quem de fato tirou proveito do imbróglio foi a principal rede de comunicação do Brasil (coincidentemente, detentora dos direitos até então), que durante os quatro meses de vigência da MP revisou parcerias, cancelou contratos, reduziu investimentos e saiu fortalecida dessa queda de braço com os clubes. O lado bom é que a situação mostrou às agremiações que, com organização e competência, é possível que elas próprias produzam, distribuam e monetizem melhor seus conteúdos. Na minha avaliação, temos, neste caso, um empate entre razão, paixão e emoção: 1 a 1.

SITUAÇÃO 3: A eterna queixa de técnicos, dirigentes e jogadores contra a arbitragem ganhou (mais um) constrangedor capítulo. E este capítulo, para mim, fez paixão e emoção golearem a razão. Falo do recente ataque do multicampeão Mano Menezes, ex-treinador da Seleção Brasileira e hoje à frente do E.C. Bahia, que chamou de “vagabundo” o árbitro José Mendonça da Silva Jr, árbitro da partida entre o Esquadrão de Aço e o Fluminense, pelo Brasileirão. Não contente, Mano ainda disse que Silva Jr. “roubava” e que “não apitaria mais” após aquele jogo. Felizmente, o comandante tricolor chegou a se retratar pelo palavreado. Mas o estrago já estava feito, convenhamos. Um péssimo exemplo para profissionais do esporte, torcedores, crianças e jovens – especialmente para alguém tão qualificado quanto Menezes. Dois a um para a dupla paixão-emoção.

 SITUAÇÃO 4: A contratação do ídolo Robinho pelo Santos F.C. gerou uma das mais significativas ondas de protestos observadas no futebol brasileiro – e na sociedade – nos últimos tempos, em virtude da acusação de violência sexual que pesa contra o jogador na justiça italiana. Penso que a diretoria do Peixe teve a melhor das intenções em repatriar um de seus principais nomes neste século. Sobretudo porque o clube vive uma grave crise financeira e política (com eleições batendo à porta, inclusive), fechar com o atacante, para aquela que deveria ser sua última passagem pelo futebol antes da aposentadoria, parecia ser um golaço em busca da recuperação da autoestima do(a) torcedor(a) santista. Paixão e emoção foram priorizadas (de novo!), e uma grave acusação contra o cidadão Robson de Souza foi simplesmente ignorada pela razão dos homens que comandam o Alvinegro Praiano. O tiro, claro, saiu pela culatra, e Robinho e Santos rescindiram o contrato mesmo antes da reestreia do jogador, após intensa pressão popular e comercial – esta última, por parte dos patrocinadores do clube.

Placar final: paixão-emoção 3, razão 1.

Evidentemente, o esporte reúne inúmeros outros casos, recentes ou históricos, que ilustram bem esta que, na verdade, é uma das mais explícitas dicotomias da existência humana: o eterno embate entre razão e emoção (ainda que, como colocado até aqui, a emoção caminhe de braços dados com a paixão).

C’est la vie, diriam os franceses. E é verdade. Mas, num negócio, seja no esporte ou em qualquer outro segmento, la vie n’est pas rose, ao contrário do que cantava Édith Piaf (jovens, deem um Google!). O segredo é encontrar a justa medida. Só assim as chances de acerto aumentam – e as de fracasso diminuem.