Coluna

Eduardo Tega: “Alguns clubes já entenderam que são empresas de entretenimento”

17 nov, 2020
Jorge Avancini

Especialista em Marketing Esportivo e Diretor da Jorge Avancini Marketing & Serviços

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(Com edição de Ricardo Mituti)

 

Muito tem se falado sobre a importância da inovação nos negócios como um caminho sem volta para antecipação ou criação de tendências, produtos e serviços, busca por engajamento e relacionamento com clientes, geração de receitas e consolidação de marcas.

Embora este não seja um tema novo – inclusive aqui, nesta coluna, abordei a questão no início de outubro -, penso que a pandemia do coronavírus cobrou mais atenção à questão.

Nestes mais de nove meses de isolamento social, fomos obrigados a adotar novos hábitos, estratégias e soluções para lidar com o distanciamento e sobreviver, pessoal e profissionalmente, a uma realidade inédita nos últimos cem anos. E uma das coisas sobre as quais mais ouvimos falar no período foi sobre o papel da inovação e da tecnologia na construção do que virá pela frente no pós-crise.

Como o esporte é parte integrante – e relevante, em termos de negócios – dessa realidade que se avizinha (o tal do “novo normal”), aproveitei a chegada do campus de inovação da Sportheca ao mercado, há poucas semanas, para bater um papo com seu fundador e CEO, Eduardo Tega.

Tega é figura conhecida de quem vive ou acompanha o noticiário sobre gestão do futebol brasileiro. Durante muitos anos, o executivo foi o principal nome da Universidade do Futebol, iniciativa criada e mantida pelo professor João Paulo Medina, um dos mais respeitados profissionais da modalidade no País.

Localizado na cidade de São Paulo, o campus de inovação da Sportheca, conforme descrição no site da empresa, pretende reunir startups, entidades esportivas e empresas do setor de entretenimento com o objetivo de criar um ecossistema para acelerar o desenvolvimento de soluções para o esporte. A ideia é atuar como uma plataforma de transformação para a indústria, por meio da produção e coprodução de inovação e tecnologia em escala.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista que fiz com Eduardo Tega:

 

Jorge Avancini: A inovação chegou para ficar nos clubes brasileiros de futebol?

Eduardo Tega: O movimento de considerar a inovação como um eixo transversal ou mesmo uma nova área da organização vem ocorrendo desde 2015 de forma mais estruturada em clubes e federações na Europa. A pandemia acelerou o processo de digitalização também no futebol brasileiro e, consequentemente, de olhar a inovação como uma forma de buscar eficiência e melhores resultados com o apoio da tecnologia.

 Qual a importância da inovação para as agremiações?

Acredito que nunca na história a sociedade precisou recorrer tanto à inovação. O esporte e o futebol não serão diferentes, num cenário de extrema competitividade e necessidade de gerar resultados com capacidade reduzida de recursos. Novos hábitos, comportamentos, maneiras de pensar e, claro, novas tecnologias surgem neste cenário de mudança extrema. Estamos vivendo a época mais extraordinária em toda a humanidade, e a tecnologia vai continuar mudando nossa capacidade de escolhas.

 Na sua opinião, os clubes deveriam ter estruturas próprias especializadas em inovação?

Como todos estão conectados, a inovação no mundo está acontecendo principalmente fora das empresas, escolas e universidades. Quando as pessoas interagem e colaboram, elas geram novas ideias, novas soluções a partir dos problemas ou desafios a serem superados. E este é o inicio do processo de inovação. Se dentro das empresas, dos clubes, das federações, nós não adotarmos o mesmo tipo de visão, e não soubermos entender os sinais de inovação aberta que estão vindo do mercado, será cada vez mais complicado competirmos em pé de igualdade.

 A inovação no esporte brasileiro está muito distante da observada nos Estados Unidos e na Europa?

Numa visão mais contemporânea, os clubes e ligas de futebol também são vistos como empresas de mídia, que disputam a atenção com outras plataformas e players do entretenimento. A paixão do torcedor e o sucesso esportivo do clube são, respectivamente, diferenciais no ciclo de engajamento. O futebol na América Latina, em geral, dá muita relevância às experiências físicas, principalmente ao matchday. Uma mínima parte vai ao estádio, algo em torno de 3% da base da torcida, por vários motivos: preço, produto, segurança, localização, etc. Mas para os clubes e ligas profissionais em estágio mais avançado de digitalização, em sua maioria localizados na Europa e nos Estados Unidos, o dia do jogo é apenas a cereja do bolo; a interação e o engajamento com os fãs acontece antes, durante e depois de a bola rolar. Durante 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias no ano, esses clubes e ligas geram receita com conteúdos próprios que estão além do jogo. Além disso, eles fazem inteligência com os dados coletados de seus torcedores. Neste cenário, a tecnologia é disruptiva e fundamental.

Na prática, como a inovação ajuda a monetizar e gerar novas receitas?

A indústria do futebol e do esporte tem a vocação para ser cauda longa, o que, em outras palavras, é ter pouco de muitos. Bilhões de pessoas consomem futebol, assistem a futebol. Uma mínima parte vai aos estádios. Como levar produtos e serviços para milhões de pessoas? Por meio da tecnologia e sendo digital. Alguns clubes já perceberam que são empresas de entretenimento que também fazem gols. Mas poucos têm o entendimento de que são empresas de tecnologia.

A Disney, por exemplo, não é só uma empresa de entretenimento; ela investe e produz tecnologia. A indústria da música fatura mais agora vendendo faixas únicas do que o álbum inteiro. O que já sabemos há algum tempo é que o fã mais jovem consome futebol de forma diferente do torcedor tradicional. Este novo torcedor espera que seu clube seja mais do que apenas um time de futebol. A atenção se tornou uma moeda valiosa na era digital, e os fãs consomem esporte e entretenimento de um jeito diferente. Alguns dados nos dão uma pista de onde faz mais sentido iniciar uma estratégia digital: na região sudeste do Brasil, por exemplo, 72% das pessoas possuem smartphone.

Nesse sentido, aumentar o tempo de relacionamento do clube com milhares e milhões de torcedores por meio dessa estratégia digital aumenta o poder do clube para atrair marcas, ativações e estimular transações. O clube já detém a paixão; com a tecnologia, ele traz exponencialidade para a equação: paixão exponencial 24×7 = cauda longa de receitas.

 

Até a próxima!