Coluna

Maternidade no esporte

3 maio, 2021
Álvaro Cotta
Diretor de Marketing e Comercial do NBB
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Datas especiais sempre trazem oportunidades para refletir sobre temas específicos, sensíveis, importantes e/ou polêmicos. Nesta semana, as mães ganham destaque mais uma vez.

Todos somos ligados a uma figura materna, seja ela biológica ou de criação. Não sou mãe, mas sou filho e sou pai. Posso dizer que minhas experiências como filho e, há 9 anos, como pai, me deram um entendimento mais profundo da complexidade dessa responsabilidade. E essa complexidade ganha ainda mais camadas quando a mulher é também uma atleta. Façamos o seguinte exercício: imagine-se no lugar de uma atleta, com a oportunidade de disputar um torneio internacional, representando seu país numa competição para a qual se preparou por anos, que descobre estar grávida, poucos dias ou semanas antes do evento. Numa situação dessas eu não sei como administraria os sentimentos de alegria e preocupação. Certamente uma história como essa abala qualquer um(a).

Ao pesquisar para escrever este artigo, percebi que o assunto é extremamente delicado para as atletas e para o mundo do esporte. Desde 1920, apenas 18 atletas competiram grávidas (fonte: semprefamilia.com.br, 2017). Destaque para a bravura da Nur Suryani Taibi que, com 7 meses de gravidez, disputou o Tiro Esportivo em 2012, sendo também a primeira mulher da Malásia em uma Olimpíada. Muitas outras atletas de elite também enfrentaram a carreira junto com uma gravidez. Serena Williams, Kim Clijsters, Sydney Leroux, Jacqueline (vôlei), Juliana Veloso, Tamires (futebol) e Candance Parker conquistaram títulos ou resultados expressivos após o nascimento do(a) filho(a). Tandara Caixeta, recentemente convocada para a seleção brasileira feminina de voleibol, terá de conciliar os treinos para os jogos de Tóquio 2020(21) e os cuidados com a filha.

Mas apesar da inspiração destes exemplos, os obstáculos reais são muito maiores, pois há aspectos emocionais, psicológicos, físicos e financeiros que nos levam a pensar em mudanças necessárias. A declaração da atleta Phoebe Wright mostra o tamanho do desafio: “Ficar grávida é o beijo da morte para uma atleta mulher”.

Felizmente, movimentos recentes de patrocinadores alimentam a esperança de atletas e de equipes femininas. Alguns bons exemplos: a Nike adotou novas políticas de relacionamento com suas patrocinadas, a MRV lançou o programa #ElasTransformam, para apoiar 12 atletas mulheres, o Guaraná Antártica mobilizou outras marcas no apoio ao futebol feminino brasileiro e a Pepsico anunciou patrocínio ao futebol feminino da UEFA até 2025.

Como executivo do mercado de marketing esportivo, agradeço essas marcas (e todas as outras) que abraçaram as atletas, para dar-lhes segurança e perspectiva de gerenciar com mais tranquilidade e garantias a carreira e a maternidade.

Por fim, não posso me despedir sem reconhecer uma das personagens pioneiras no tema: Isabel (Maria Isabel Barroso Salgado) que, na década de 80, mostrou ao mundo do esporte e do vôlei feminino que era, sim, possível ser atleta do alto rendimento e mãe. Sua atitude foi além da compreensão social e empresarial. Isabel é uma mulher que esteve à frente do tempo, mas cuja determinação acendeu uma luz que se mantém acesa iluminando o caminho para um futuro mais igual.