Coluna

A luta do século

15 set, 2021
Fábio Wolff
Sócio-diretor da Wolff Sports e professor no MBA de Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios
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Cresci assistindo as lutas do UFC, acompanho a carreira do Vitor Belfort. Presenciei a realização do primeiro UFC no Brasil, quando do combate entre Vitor e Vanderlei Silva, no ginásio do Canindé, em São Paulo.

Fiquei muitas madrugadas aguardando as lutas do Evander Holyfield, um dos maiores pugilistas de todos os tempos.

Não assisti a luta oficial de boxe entre os dois no sábado passado, mas acordei curioso para saber o que ocorrera.

Como marketing, parecia algo interessante, porém o desfecho do combate demonstrou exatamente o contrário.

O brasileiro, 14 anos mais jovem, destruiu o americano de 58 anos, sem que o ex- multicampeão de boxe pudesse ao menos se defender.

O conteúdo do esporte foi deplorável, até bisonho, em minha opinião. O brasileiro parecia bater em um sósia do ex-campeão. Deu pena, fiquei com uma sensação muito ruim. Reputo irresponsável a organização do evento.

Pelo lado financeiro, deve ter rendido muitos milhões de dólares, ok. Mas pelo lado da imagem do esporte, achei péssimo.

E o que falar do risco da saúde do atleta? Quem faz a reflexão sobre o risco é a médica neurologista Margaret Goodman “Os médicos de ringue que aceitaram trabalhar em Holyfield x Belfort devem explicar por que aceitaram trabalhar nesse evento. Você não precisa de uma equipe de neurologistas para determinar quando um lutador deveria parar de competir. Você só precisa de uma caneta, consciência e coragem para fazer a coisa certa”.

Originalmente o embate estava marcado para ser entre o Vitor Belfort e o americano Oscar De La Roya, que ficou impossibilitado de lutar em função de haver contraído o Covid-19.

Os organizadores do evento, imagino eu, na ânsia de proporcionar uma luta midiática, convidaram Holyfield, sem obviamente ter conhecimento do estado físico do ex-atleta.

Para a imagem de Holyfield, o evento não agregou em nada, muito pelo contrário, demonstrou que a decisão de aceitar a luta foi algo totalmente equivocado, uma mancha em uma trajetória tão grandiosa.

Tenho visto ultimamente muitos eventos esportivos do tipo, ex-atletas, youtubers, e não sou contra, desde que os competidores estejam, de fato, preparados para tal. O lado romântico do esporte jamais pode dar lugar apenas aos interesses comerciais, de investidores e/ou de anunciantes.

Sobre as marcas, essas devem ter muito cuidado ao patrocinar um evento como o que ocorreu no sábado passado, pois associar-se a algo que teve um desfecho tão deplorável pode proporcionar mais perdas do que ganhos à imagem.