As SAFs não vão safar ninguém

Abriu-se mais uma vez a corrida pelo ouro no futebol brasileiro

abril 12, 2022
OutField Consulting

Consultoria de estratégia focada nos negócios do esporte

Abriu-se mais uma vez a corrida pelo ouro no futebol brasileiro. Talvez a indústria mais subaproveitada da economia brasileira, fortemente mal trabalhada há décadas e ainda assim se mantendo de pé a qualquer custo, muito por conta do enraizamento profundo que possui na vida do brasileiro. Sabemos que o Brasil nasceu antes do futebol, mas notadamente a história das duas coisas se mistura — dado que o futebol é um dos principais produtos exportadores desse país e quem mais nos coloca em evidência no mundo inteiro.

Não à toa já existiram repetidas tentativas de salvar o eldorado boleiro. Cheio de promessas vazias e mecenas super-heróis, desde Kia e MSI, até a ISL de Flamengo e Grêmio. Ponto em comum entre essas situações passadas? Todas foram extremamente danosas para os Clubes em que estiveram. Dinheiro gasto em contratações, alguns títulos e muita exposição na mídia, em troca da alma do Clube e de negociações bastante cinzentas (para dizer o mínimo).

Eis que chegamos ao contexto atual: as SAFs. Um clube de futebol sempre pôde atuar como empresa. Mas quais os motivos disso não acontecer de forma sistemática? Primeiramente, há um paralelo entre valores que estão muito enraizados tanto no futebol, quanto na cultura de gestão pública brasileira. O poder concentrado em poucos e geralmente perpetuado pelas mesmas famílias é padrão e, da mesma forma que o Brasil teima em não investir o suficiente em educação para que novas gerações tenham oportunidades e possam ocupar cargos de gestão no futuro, permanecemos com realidades que jogam contra a evolução dos modelos existentes no futebol.

Em segundo lugar, faltava um cenário regulatório que resolvesse o primeiro ponto. E foi aí que entrou a SAF, trazendo um incentivo tributário agressivo para que os Clubes façam a conversão de formato jurídico e renegociem suas dívidas. Soma-se a isso o contexto apocalíptico imposto ao futebol brasileiro pela pandemia, com queda abrupta de arrecadação, e chegamos ao momento atual em que a SAF virou o bote salva-vidas furado (ou a paleteria) da vez. E não se enganem… os Clubes estão desesperadamente atrás de fazer sua SAF e trazer investidores, porém com as mesmas motivações de sempre em mente: comprar jogador caro pra ganhar campeonato.

Salvo raríssimas exceções, como no passado, as coisas estão sendo feitas de qualquer jeito (hello, Cruzeiro) e os paraquedistas de plantão estão entrando com tudo no mercado, sem o conhecimento técnico necessário para contribuir com a chamada reestruturação dos clubes. Qual o resultado? Nesse caso, não precisamos ser cartomantes — basta olhar o que aconteceu no passado pra ver pra onde as SAFs estão caminhando (de novo, há boas exceções aqui). A corrida desembestada pelo dinheiro e negociações feitas de qualquer maneira, na base do empurra-empurra, estão criando uma bomba relógio que vai estourar logo ali na frente.

Como o especialista e experiente Cesar Grafietti já reforçou mais de uma vez em suas ótimas análises, fazer M&A não é igual fazer pão francês na padaria. Não é “one-size fits all”, ou seja, a mesma forma não funciona pra todo mundo — cada clube é seu macro cosmo de problemas e oportunidades e, no mundo ideal, antes de se falar em trazer dinheiro, em vender o clube pro Grupo City ou em casar com o Sheik árabe mais próximo de você, os Clubes deveriam trabalhar de maneira aprofundada os seus planos de negócios, conectando-os aos objetivos esportivos, para apenas depois irem a mercado na busca pela operação que mais os beneficiem — e não o contrário.

Por tudo isso, mais uma vez estamos começando pelo final — focando apenas no dinheiro e não cortando todo o mato alto necessário antes de entrar nesse mérito. Isso cria um cenário nocivo para o mercado por si só, pois os Clubes começam a confiar nas narrativas dos “novos especialistas” e “representantes” de que é possível captar R$500M num valuation de R$10 bilhões e ser o próximo gênio da lâmpada na capa do Valor Econômico. Inclusive, se você que está lendo esse texto quiser testar, te convido a enviar um e-mail pra qualquer Clube da Série A dizendo que tem um investidor gringo disposto a comprar o Clube — o seu mandato de representação/intermediação da venda sai do forninho da padaria em questão de horas.

A mesma coisa acontece na discussão do modelo de Liga que, sinto informar, não vai sair tão cedo. Os Clubes brasileiros, como fazem há 100 anos, olham apenas pro próprio umbigo e continuam focados nas promessas de ter dinheiro infinito em caixa pra contratar o veterano pré-aposentado da vez que virá pro BR ganhando R$1M por mês para esculhambar as finanças do Clube, ganhar o Campeonato Estadual e transformar o presidente em herói da torcida.

Não há discussão aprofundada de modelos possíveis, discussão de plano de negócios, consulta de profissionais de outros mercados ou de outros contextos do esporte que possam colaborar com a construção. E aí o que acontece é o leilão que temos acompanhado via imprensa — o Grupo A paga tanto, o Grupo B vai trazer investidor de Júpiter, o Grupo C tem conexões com Elon Musk e Jeff Bezos. E assim seguimos, na boa esquizofrenia de sempre, de achar que fazer as mesmas coisas que são feitas há décadas e não geram resultado, irão milagrosamente gerar um novo impacto dessa vez.

Essa é a história do nosso futebol. Maior plataforma de entretenimento da América Latina, principal exportador de matéria prima para todas as maiores ligas de futebol do mundo e gerido por um seleto grupo de pessoas que se regula por interesses próprios e por parecer bem aos olhos da opinião pública — o famoso jogar pra torcida, literalmente.

Pra mudar de verdade, os Clubes precisam entender que promessas de investidores virão aos montes, mas para passar pelo processo da SAF de forma organizada, é necessária uma imersão em todas as etapas do processo: debate exaustivo do plano de negócios e diagnóstico financeiro, modelagem de valuation sob mais de uma perspectiva, roadshow amplo para achar o investidor/comprador ideal e um planejamento esportivo e financeiro pós deal. A receita é trabalhosa, mas se bem executada aumenta (e muito) as chances de sucesso do projeto.

Pedro Oliveira é sócio fundador da OutField Consulting