Ainda não é agora, mas o Santos vai dar bola

Analisando racionalmente a situação financeira do clube, é possível vislumbrar um futuro promissor

julho 28, 2022
OutField Consulting

Consultoria de estratégia focada nos negócios do esporte

Na atual temporada, o Santos correu sério risco de rebaixamento no Campeonato Paulista, sofreu uma eliminação vexatória contra o Deportivo Táchira na Copa Sul-Americana, foi atropelado pelo Corinthians na Copa do Brasil e faz uma campanha medíocre no Brasileirão. A situação é bastante diferente de 30 de janeiro de 2021, quando o time entrava em campo para disputar a final da Libertadores no Maracanã.

O time já está em seu terceiro treinador na atual temporada e também trocou toda a diretoria de futebol, então encabeçada por Edu Dracena, ex-jogador de passagem marcante na história. Parece um cenário apocalíptico para um clube do tamanho do Santos, mas por mais paradoxal que isso possa ser, analisando racionalmente a situação financeira do clube, é possível vislumbrar um futuro promissor – e isso não é conversa para iludir ou transmitir sentimentos vazios de que as coisas vão melhorar para machucados torcedores.

Afinal, de onde vem essa expectativa?

Raphinha, Lewandowski, Frankie de Jong e Julian Koundé. Todos esses jogadores de alguma forma forçaram a barra para jogarem pelo Barcelona nessa atual janela de transferências internacional. Mesmo com uma situação financeira bastante delicada, os atletas foram seduzidos pelo enorme poder representativo que o Barça possui. Mas não é exagero dizer que essa fascinação toda foi algo que o clube construiu ao longo dos anos principalmente através de uma gestão profissional fora do campo – e que teve uma grande inspiração: o Manchester United.

O futebol brasileiro também possui alguns bons exemplos de gestão e, caso não perdêssemos tanto tempo com análises clubistas superficiais, seria possível aos clubes se inspirarem em casos de sucesso para crescerem como organização. Em uma época em que se discute tanto modelos de gestão no futebol, sejam eles via SAF ou associação, além da criação de uma Liga, ainda falta um olhar mais focado no micro, ou seja, na realidade individual de cada clube.

Independente da Liga sair do papel – e obviamente isso seria um passo fundamental para o desenvolvimento do nosso futebol – o produto futebol como um todo de fato vai melhorar se os clubes individualmente estiverem fortes. LaLiga e a Bundesliga mostram bem que por melhor e mais organizada que sejam as ligas, o produto final não é tão atraente, pois existem poucos clubes em condições de efetivamente lutarem pelo título. O Brasil consegue entregar aquilo que é o grande sonho dos idealizadores da Superliga Europeia: grande capacidade (e incerteza) competitiva entre grandes marcas.

Clubes brasileiros que efetivamente colocaram em prática projetos de reconstrução de médio ou longo prazo tiveram sucesso esportivo pouco depois – e essa conclusão deveria ser mais reconhecida do que efetivamente é. No caso de grandes clubes, destacam-se os projetos de Grêmio, Flamengo e Palmeiras. E aqui vale dizer que é um tanto quanto inusitado colocar um clube que hoje está na Série B como exemplo, mas o projeto de reconstrução do Grêmio foi muito bem-sucedido principalmente entre os anos de 2016 e 2020, com campanhas de destaque em todas as competições, títulos de Libertadores e Copa do Brasil, além de um planejamento que envolveu a venda sistemática de talentos da base por altos valores.

Já o Palmeiras contou com peculiaridades como a reforma de seu estádio, além de um patrocínio forte e um antigo presidente disposto a realizar uma operação financeira com o objetivo principal de aliviar dívidas bancárias. O discurso mais simplista de que o Palmeiras está onde está por conta de mecenato esconde um processo de profissionalização em todas as camadas do clube que iniciou em 2013 – coincidentemente o mesmo ano em que o Flamengo resolveu arrumar a casa.

Resumidamente, os principais casos de processos de reestruturação financeira de clubes brasileiros se basearam nas seguintes premissas:

  • Esforços para aumento de receitas, principalmente comerciais;
  • Investimento sólido em categoria de base;
  • Redução do endividamento;
  • Profissionalização dos departamentos dos clubes, com definição dos processos internos e investimentos em infraestrutura;
  • Responsabilidade no uso de recursos, com gastos no futebol profissional limitados a quantidade de recursos disponíveis.

O grande desafio gerencial está em conseguir aumentar significativamente e sistematicamente o orçamento disponível para ser utilizado pelo time profissional, principalmente em gastos com salário e contratações, ao mesmo tempo em que o clube permaneça saudável e feche a conta todos os anos. Essa simples premissa foi por muito tempo ignorada por gestores, muitas vezes seduzidos pela possibilidade de montarem times mais caros sonhando que, assim, o time conseguiria melhores resultados e a conta se pagaria graças ao acréscimo na receita gerado pelo fator “empolgou” da torcida, além de premiação por títulos e valorização de propriedades comerciais. O próprio Barcelona no momento da revolução Ronaldinho pensou assim no passado. Mas este modelo de gestão é claramente fadado ao fracasso.

Em um mercado cuja característica mais marcante é a incerteza de resultados, é inviável condicionar a situação financeira de uma organização aos seus resultados de campo. Isso é, no mínimo, irresponsável. E ser responsável durante um processo de reestruturação financeira é, infelizmente, tomar decisões que impactam diretamente o core business do negócio futebol, ou seja, a qualidade do time que entra em campo toda semana.

O presidente Andrés Rueda foi bem claro desde 2021 sobre como o Santos concentraria esforços para melhorar sua situação financeira, completamente impactada depois do furacão Sampaoli e da gestão anterior, mesmo com a venda de Rodrygo ao Real Madrid por €45 milhões. E o Santos permanece firme na sua estratégia, embora seja dolorido para todos os envolvidos no clube ter que abrir mão da competitividade durante, pelo menos, duas temporadas inteiras, e ainda rezando para não cair de divisão – e esse sim seria um grande desastre.

Considerando alongamento de prazo e descontos de pagamento, o Santos diminuiu suas dívidas em quase R$ 200 milhões no último ano, e é esperado que na temporada 2022 algo semelhante a isso aconteça. E como Rueda afirmou (e cumpriu), 2022 seria sofrido. A demissão de técnicos e a reformulação do departamento de futebol mostram que o aspecto racional tem um limite, e esse limite é a falta de resultados esportivos – um ponto até esperado.

De pontos positivos, é nítida a preocupação com a implantação de boas práticas profissionais no clube. Um bom exemplo foi a reunião de fechamento do ano disponível aos sócios do clube (inclusive os sócios-torcedores), prestando contas e apresentando o planejamento do ano. O portal da transparência no site do clube também é completo e apresenta pilares da gestão, etapas de diagnóstico, KPIs e documentos como balancetes trimestrais e atas de reunião de conselho. Neste quesito, o Santos é o grande exemplo para outros clubes do país, e é um dos fatores que explica o ótimo desempenho do departamento comercial do clube, que obteve receitas de patrocínio e novos negócios recorde e superiores a rivais como o São Paulo.

Semelhante ao que fez o Flamengo, o Santos busca espremer seu potencial comercial ao máximo neste período de difícil situação esportiva. Como o Palmeiras, planeja uma reforma de seu estádio que promete fazer o clube acessar novas receitas e mais torcedores (atualmente, possui a 13ª maior média de público do Brasileirão, mas com taxa de ocupação de quase 75%, um bom índice). Do Grêmio, o exemplo vem da capacidade de revelar e do potencial de venda de jovens talentos, algo que forma o DNA santista há anos e que é capaz de entregar retornos esportivos e financeiros no futuro. Dos três clubes, a prioridade de controlar o endividamento e renunciar a resultados esportivos no curto prazo são aprendizados colocados em prática.

Há uma frase marcante dita por Arrigo Sacchi, treinador italiano de muito sucesso:

O futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes.

E a relação entre torcida e clube passa um pouco longe de balanços financeiros, KPIs ou portais de transparência. O torcedor quer ganhar jogos e se sentir representado pela camisa que veste com tanto orgulho.

O caminho da “importância” e do profissionalismo é uma barreira para esse sentimento, mas em um mercado com ainda poucos times em efetivas condições financeiras controladas, me parece que o Santos toma uma difícil, porém acertada decisão ao buscar fazer parte do seleto grupo de clubes que fazem as coisas direito.

Marco Sirangelo é Head de Projetos da OutField