Recolhendo os cacos depois de uma ótima Copa do Mundo

Reflexões sobre a indústria do futebol após o seu maior evento e desafios para o Brasil voltar a ser protagonista

dezembro 21, 2022
OutField Consulting

Consultoria de estratégia focada nos negócios do esporte

Por Marco Sirangelo – Head de Projetos da OutField

Sou daqueles que precisa de um tempo a mais para digerir um filme que acabei de ver para entender se gostei ou não. No caso da Copa do Mundo, minha predisposição (e ansiedade) para o evento já é totalmente positiva e não consigo imaginar uma edição de mundial em que eu não veja a maior quantidade de jogos possíveis.

No caso da Copa do Catar, a maratona de quatro jogos por dia durante a primeira fase não contribuiu para os lentos de digestão como eu, embora a final espetacular seja imune a qualquer metáfora gástrica que eu possa pensar. Mas talvez já seja possível juntar algumas opiniões sobre a Copa de 2022.

Nível Técnico

Os torcedores do Juventus da Mooca que me perdoem, mas viva o futebol moderno! Meu lado saudosista fica bem saciado com vídeos de youtube de grandes times e craques do passado, mas a qualidade geral dos jogos atuais e, principalmente, o nível competitivo apresentado por praticamente todas as seleções é muito mais alta hoje em dia – e se pararmos para pensar cresce a cada Copa.

Numa retrospectiva tática bem simplista, a Copa de 2010 praticamente aposentou a formação com as tradicionais duplas de ataque e, provavelmente por conta da Jabulani, fez dos chutes de longa distância uma arma mortal. Em 2014, talvez inspirados pela consagração (e pela má interpretação) do jogo de posição espanhol, as seleções partiram para cima e foi um festival de gols. Em 2018, as linhas defensivas com 5 e as bolas paradas foram padrão e um presságio do que estaria por vir em 2022, quando bem arrumadas na defesa e “sabendo sofrer”, seleções menos tradicionais foram capazes de dificultar qualquer jogo, criando perigo nos pontos fracos dos adversários, minuciosamente identificados. Em resumo, está cada vez mais difícil vencer um jogo de futebol hoje em dia, e eu acho isso fascinante, pois obriga o favorito a de fato mostrar porque recebe tal condição.

Quebrando tabus

Walid Regragui assumiu como treinador de Marrocos há 4 meses. É uma quebra grande de paradigma pensar que o ciclo de preparação simplesmente não aconteceu e deu tão certo. Isso não significa, no entanto, que a premissa de que a manutenção de trabalhos longos de treinadores como o de Tite esteja equivocada, até porque Deschamps está aí para provar o contrário. Mas na verdade, isso só coloca mais uma linha na grande complexidade que está envolvida na análise sobre futebol.

O mesmo vale para a ideia (na minha opinião furadíssima) de que falta na preparação do Brasil realizar amistosos contra seleções europeias. Atribuir a derrota para a Croácia por um suposto desconhecimento da seleção brasileira da escola croata de futebol não me parece correto, até porque não existe um padrão claro europeu de jogo, basta vermos como joga França, Inglaterra, Croácia e Polônia, por exemplo, totalmente diferentes entre si. E me parece pouco provável, também, que a vitória contra a Itália na Finalíssima em junho tenha ajudado a Argentina a chegar aonde chegou.

Todas as armas em campo

De acordo com dados da Fifa, aproximadamente 40 mil brasileiros compraram ingressos para jogos do Mundial. O número representa dois terços do total de argentinos que foram ao Catar, mesmo que a população do Brasil seja 4,5x maior. Mas não é só na quantidade, há um claro senso de união da torcida argentina e representado pelos cantos quase incessantes nas partidas.

Voltando ao ponto do começo, se hoje em dia está cada vez mais difícil vencer, qualquer detalhe joga a favor. O entendimento de fatores externos que interferem no resultado de uma partida é tema de estudos de acadêmicos como os de Richard Pollard, que levanta motivos que nos permitem concluir que sim, quanto mais hostil e barulhenta uma torcida, mais chance um time tem de sair vencedor.

Isso pode soar absurdo e fácil de ser rebatido, mas me parece importante demais para ser sempre ignorado quando debatemos a relação entre torcida e time, independente do contexto da discussão, se é em copa do mundo ou em terceira divisão. O engajamento do torcedor argentino é uma força competitiva que o Brasil, por exemplo não tem. E isso é um reflexo de muitas coisas, como por exemplo da forma como a CBF posicionou o produto seleção brasileira ao longo dos últimos 15 anos, mais parecida com os Rolling Stones, com turnês de exibição esporádicas espalhadas pelo mundo, do que com um time de futebol.

Se elogiar os torcedores argentinos hoje é ser engenheiro de obra pronta, então basta descermos um pouco do nosso já empoeirado pedestal de pentacampeão para entendermos que a representatividade da agora seleção tricampeã é muito maior do que a nossa, tanto na percepção interna dos próprios argentinos quanto, talvez, aos olhos do resto do mundo.

Mansão X

Aproveitando a conquista da Euro de 1984, a Federação Francesa introduziu uma metodologia de formação de talentos de elite no país, algo que pudesse refletir o legado de uma geração vitoriosa e contando com craques como Platini e Tigana. O Institut National du Football de Clairefontaine foi inaugurado em 1988 composto por uma estrutura gigantesca incluindo todos os tipos de campos e departamentos necessários, além de uma mansão para acomodar atletas. A ideia seria juntar os principais talentos jovens da região de Île-de-France, a mais populosa do país, e concentrar toda a formação sem depender dos clubes.

Em resumo, o centro de Clairefontaine é mais ou menos o que o Professor Xavier fez com os X-Men e a sua escola de mutantes. E foram muitos os Wolverines que saíram de lá, basicamente talentos como Mbappé, Henry, Anelka, Giroud e Matuidi, para citar alguns. A França chegou em 4 das últimas 7 finais de copa do mundo, quase sempre contando com times com gerações excepcionais de jogadores.

O Brasil delega a formação de atletas exclusivamente aos clubes, que salvo exceções, não conseguem entregar algo que seja minimamente próximo da excelência que o nível competitivo atual exige. Somos salvos pela abundância de talento que existe em nosso país. Atualmente, apenas 31 clubes brasileiros possuem o Certificado de Clube Formador, que estipula parâmetros ideais de trabalho com jovens e, mesmo assim, ainda somos referência no desenvolvimento de talentos, mas claramente desperdiçamos muito potencial ao longo desse caminho.

Ajustando o alvo

Quando perdemos de 7×1, o foco das discussões sobre a necessidade de reconstrução do futebol brasileiro se deu, principalmente, na qualidade da nossa liga nacional. Entendo que a discussão seja mais profunda do que isso, afinal não me parece claro o quanto o nível técnico de um campeonato nacional de fato interfere na qualidade de uma seleção que disputa a copa do mundo.

Voltando ao ponto da complexidade da análise do futebol, em alguns momentos parece que estamos caçando desculpas, quando na verdade o desempenho de uma seleção campeã em uma copa do mundo depende exclusivamente de um grupo de bons jogadores, bem encaixados e competindo no mais alto nível, independentemente de quais clubes eles joguem. A análise sobre as complexidades das ligas nacionais é um assunto bem diferente desse – e muito mais complexo.

As verdades que surgem após uma Copa do Mundo envolvendo a seleção campeã com a sua liga nacional muitas vezes são equivocadas. Por exemplo, em 2010 a Espanha virou referência por conta de seu estilo de jogo peculiar e da ideia de que as categorias de base do Barcelona seriam suficientes para produzirem times inteiros. Hoje em dia, é possível dizer que a geração de ouro do Barcelona foi dessas coincidências mágicas não-replicáveis que ocorrem esporadicamente no futebol (aconteceu com o Manchester United em 1992, por exemplo, mesmo que sem refletir numa conquista de Copa) e que o Tiki-Taka é apenas uma estratégia de jogo como tantas outras, e não uma receita de bolo.

E os títulos seguintes de Alemanha, França e principalmente agora, com a Argentina, em nada refletem a qualidade de suas ligas nacionais. Apenas demonstram que durante um mês esses times foram melhores que outros 31 e de forma bastante justa levantaram o troféu.

Sempre favoritos

O papel (e tamanho) da seleção brasileira nas copas está sendo bastante questionado por conta de duas copas muito decepcionantes. Alguns dizem que para não ficar com o sentimento de desapontamento no ar, basta ajustar as expectativas e perceber que o Brasil é hoje apenas um time mediano. Discordo totalmente. Para o bem e para o mal, a seleção vai sempre começar uma copa entre os favoritos, pois inevitavelmente terá jogadores de destaque dos principais clubes do mundo em seu elenco.

A Argentina foi campeã do mundo colocando na final jogadores de clubes como Aston Villa, Brighton, Benfica, Roma, Lyon, Bétis e Sevilla, apesar de tradicionais, nenhum hoje é de fato um peso pesado europeu. A França também teve atletas de Mônaco, Frankfurt e Mönchengladbach em campo. O Brasil eliminado pela Croácia tinha apenas Paquetá (West Ham) e Pedro (Flamengo) como atletas que não jogam em clubes europeus inegavelmente grandes. E o ponto aqui é que isso deve continuar ocorrendo nas próximas copas, ainda mais surgindo talentos como Endrick, apesar do aumento no número de jogadores de nível internacional em clubes medianos da Premier League, como resultado da disparidade financeira da principal liga do mundo.

No entanto, o ideal do Brasil favorito passa sim por um ajuste de expectativas, já que são 4 copas seguidas em que não temos 100% de aproveitamento na fase de grupos. Além disso, já é tempo demais sem participação em finais. No Século passado, tirando as décadas de 1930 e 1940, apenas na década de 1980 o Brasil não jogou uma final, algo que ocorre na década de 2010 e 2020, até o momento.

Para nós, resta agora admirar Messi e recolher os cacos para iniciar a preparação para 2026, um ciclo de três anos e meio que, esperamos, não venha acompanhado de nenhum escândalo gerencial envolvendo presidentes da CBF, algo que também já tem um bom tempo que não acontece – se é que já aconteceu alguma vez.