Coluna

Caitlin Clark é a melhor história do esporte americano em 2024

Armadora de Iowa despontou como uma das figuras mais influentes do esporte no EUA nos últimos anos, e hoje é a principal esperança de consolidação da WNBA entre fãs de basquete

Caitlin Clark é a melhor história do esporte americano em 2024
Foto: Jeff Dean/Getty Images

13 de maio de 2024

8 minutos de Leitura

Marcelo Loureiro
Marcelo Loureiro
Mestre e doutorando em Gestão Esportiva pela Florida State University

É inegável que os esportes femininos, em geral, vêm colecionando recordes e conquistas importantes ao longo da última década. A última Copa do Mundo Feminina, por exemplo, apresentou recordes de audiência, faturamento e ingressos vendidos, servindo como vitrine para o enorme potencial que o esporte feminino apresenta. Para além do futebol, outras modalidades também seguem um caminho de conquistas importantes em um passado recente, sejam esportes coletivos ou individuais.

Como exemplo disso, no outono de 2023, a Universidade de Nebraska quebrou o recorde mundial de público em um evento esportivo feminino, com mais de 92.000 pessoas comparecendo ao estádio da universidade para acompanhar sua equipe de voleibol feminino, considerada por muitos a melhor do país. Do lado dos esportes individuais, o tênis feminino teve em 2023 o primeiro Grand Slam pagando premiação igual para homens e mulheres, em um período em que as atletas da modalidade também veem seus contratos de publicidade dispararem em valores. Nesse sentido, Coco Gauff liderou um grupo de sete tenistas que se encontraram entre as dez atletas mais bem pagas do mundo em 2023, considerando recebimentos dentro e fora das quadras.

Ainda assim, se por um lado os últimos anos evidenciaram grandes avanços na organização e divulgação de eventos esportivos femininos, por outro ainda se enfrenta uma dificuldade de consolidação de ligas femininas ao redor do mundo. O esporte feminino ainda depende de eventos pontuais com grande visibilidade e audiência, enfrentando dificuldades para consolidar uma audiência cativa ao longo de temporadas inteiras.

Na direção contrária, a WNBA, liga de basquete feminino cuja temporada se inicia na próxima terça-feira, se encontra em posição privilegiada para explorar um aumento considerável de público e audiência no ano de 2024. E essa possível guinada da liga, que patina há décadas no mercado norte-americano, acontece em virtude da entrada de um grupo estrelado de novas atletas na liga, com especial destaque para Caitlin Clark, armadora que recém encerrou sua carreira universitária jogando pela Universidade de Iowa. Clark foi a primeira jogadora escolhida no Draft realizado no final do mês passado, e a partir desse mês representará as cores do Indiana Fever.

Entre os motivos que levaram Clark a se tornar o fenômeno de popularidade que é hoje no mercado esportivo mais competitivo do mundo, seu talento chama bastante a atenção e é um ingrediente fundamental, por óbvio. Como exemplo de sua habilidade fora de série, a armadora de Iowa bateu na última temporada o recorde de pontos marcados por um atleta (seja homem ou mulher) no basquete universitário do país, marca que em 2020 havia completado 50 anos sem ser superada.

Ainda assim, somente talento não explica como um atleta chega ao patamar atingido por Clark no mercado americano. É irreal acreditar que a WNBA tem encontrado dificuldade em se estabelecer contra ligas masculinas por falta de talento dentro de quadra. Esse ano mesmo Sabrina Ionescu, primeira escolha geral do Draft de 2020 da WNBA, desafiou Stephen Curry em um concurso de arremessos de três pontos e vendeu caro a derrota, provando que não falta talento entre as mulheres. A despeito de suas habilidades únicas dentro de quadra, portanto, entendo que Caitlin chegou ao patamar em que chegou por ser a história mais fascinante no esporte em muito tempo, oferecendo o produto ideal para um público constantemente em busca de novos heróis e vilões, e sua trajetória nos playoffs desse ano parece roteirizada de forma a criar conflitos que mantenham o público constantemente engajado.

Caitlin Clark cresceu buscando suas referências no esporte na Universidade de Connecticut, popularmente conhecida como UConn e detentora do programa de basquete feminino mais bem sucedido da história. Saindo do high school, Clark não teve ofertas para jogar na universidade de seus sonhos, decidindo iniciar sua carreira universitária representando o principal programa de seu estado, na Universidade de Iowa.

Ainda que sua popularidade tenha sido construída no basquete universitário aos poucos, com recordes e premiações sendo colecionados desde sua temporada de caloura, Caitlin Clark foi projetada ao posto de celebridade nacional nos playoffs (popularmente conhecido como March Madness) da temporada 2022-23, quando liderou Iowa à primeira final nacional de sua história. A última partida da temporada, contra a LSU de Angel Reese, foi marcada por provocações entre ambas as jogadoras, resultando no primeiro título nacional de LSU na modalidade. O encontro entre as duas figuras mais importantes do basquete feminino universitário naquele momento registou uma audiência de quase 10 milhões de espectadores nos Estados Unidos, com a derrota de Iowa criando o cenário para a redenção de Clark na temporada 2023-24, sua última no circuito universitário.

Ao longo da temporada regular, a imagem de Caitlin Clark foi explorada com perfeição ao redor do país, levando recordes de públicos em ginásios espalhados por todo o território, incluindo uma partida para mais de 55 mil pessoas no estádio da Universidade de Iowa. Cabe destacar que Clark finalizava seus próprios estudos em marketing na universidade, que foram traduzidos em uma das experiências de marketing pessoal mais bem sucedidas que eu já vi no esporte. A armadora, ao longo dos últimos meses, foi pioneira em contratos de patrocínios com gigantes do mercado norte-americano nos mais diversos setores, como Nike, Bose, State Farm e Gatorade.

Nos playoffs desse ano, assim que o chaveamento foi divulgado, um novo confronto entre Iowa e LSU, projetado para as quartas-de-final, passou a gerar grande expectativa por parte dos fãs. A rivalidade entre Clark e Reese teve um novo capítulo, dessa vez acompanhado por uma média de 12,3 milhões de pessoas. Para efeito de comparação, a audiência da partida só não superou a audiência de uma única partida da NBA, a liga profissional de basquete masculino dos Estados Unidos, na temporada anterior.

Se a história de redenção de Caitlin e da Universidade de Iowa já chamava atenção por seus números significativos de público e audiência desde a temporada regular, os dois últimos capítulos de Clark no basquete universitário voltaram a bater recordes. Nas semifinais, Clark enfrentaria UConn, sua universidade dos sonhos. Esse reencontro, com um ar de vingança pela ausência de propostas que a levou a jogar pela universidade local, registrou uma audiência de 14,2 milhões, se tornando a maior audiência da história da ESPN americana em uma partida de basquete – mesmo com a ESPN nos Estados Unidos detém direitos de transmissão da NBA desde 2002. Clark levava, pela segunda vez consecutiva, um programa que havia como melhor resultado de sua história uma semifinal em 1993, ao maior palco do basquete feminino universitário.

Foto: Morry Gash/AP

Na final, então, Caitlin e Iowa enfrentaram a Universidade de South Carolina, melhor programa de basquete feminino do país na última década e até então invicto na temporada. A partida, que terminou com nova derrota de Iowa numa decisão nacional, registrou uma audiência média de 18,7 milhões de espectadores, número superior a qualquer outra partida de basquete na televisão americana nos últimos cinco anos.

O sucesso de Caitlin Clark, acompanhada por uma excelente classe de atletas também entrando na WNBA nessa próxima temporada, traz a esperança de que a liga consiga, enfim, se estabelecer no competitivo mercado esportivo dos Estados Unidos. Desde sua criação, há 27 anos, a WNBA enfrenta enorme dificuldade em estabelecer um público cativo, capaz de encher arenas e marcar boas audiências ao longo de temporadas inteiras.

As discussões sobre os esportes femininos nos últimos anos giram muito em torno de falta de investimentos e falta de interesse do público, deixando de focar nas diversas histórias de sucesso de audiência esparsamente registradas ao longo dos anos. Caitlin Clark, sendo a história mais interessante a surgir no mercado americano em muitos anos, traz à liga o que ela mais precisava esse tempo todo: uma boa história para contar. Traz também ao esporte feminino em geral uma importante lição para os próximos anos.

No final das contas, o esporte de alto nível vive de contar boas histórias, e as audiências registradas nos últimos dois anos são prova de que o público tem total interesse em acompanhar mulheres enquanto protagonistas no esporte, basta que sejam contadas boas histórias.

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