Indústria

Por dentro da estratégia do Botafogo de transmitir seus jogos para o mercado internacional

Movimento do clube conta com a ativa participação de John Textor pela importância de explorar ao máximo o potencial da marca

Por dentro da estratégia do Botafogo de transmitir seus jogos para o mercado internacional
Foto: Vítor Silva/ BFR

15 de maio de 2024

9 minutos de Leitura

O Botafogo vive uma fase muito especial fora das quatro linhas. O lançamento de um novo uniforme, em parceria com a Reebok, ganhou as redes sociais com elogios de torcedores de diversas equipes. Além disso, o clube também iniciou uma nova era com a BotafogoTV, que logo no primeiro mês com novo estúdio e programação incrementou em 110% a sua audiência.

A equipe de comunicação do Glorioso apostou também em qualificar o pré-jogo das partidas do time profissional, com conteúdos envolvendo a participação de ex-jogadores, atletas do atual elenco, treinadores e dirigentes. O projeto envolve diversas fases.

“Dividimos o projeto da BotafogoTV em cinco fases. A primeira foi uma pesquisa de mercado e rodadas de reuniões internas sobre a nossa visão para o produto, tendo uma participação ativa do John Textor. Aprovada a ideia, estruturamos o conceito, executamos a obra física do novo estúdio, mexemos no casting de apresentadores e comentaristas. Agora, estamos na terceira fase, que é vê-la no ar, e para nossa satisfação tendo boa audiência. A quarta é o aumento de investimentos através de novos negócios e patrocínios, para no futuro desenvolvermos uma usina de produção de conteúdo que dê um salto de qualidade para o clube e para a Eagle Football”, disse Julio Gracco, Diretor de Comunicação do Botafogo, em entrevista exclusiva ao MKTEsportivo.

A participação ativa de John Textor, inclusive, culminou com um posicionamento do Botafogo em relação à venda de seus direitos de transmissão para o estrangeiro. O inglês deseja potencializar a marca do clube pelo mundo e alavancar negócios superiores ao modelo tradicional. Para o Brasil, como se sabe, o direitos pertencem ao Grupo Globo.

“O modelo tradicional de transmissão do Campeonato Brasileiro para o exterior colocava na mão de terceiros, em valores no nosso entender subdimensionados, a exploração de um ativo que é um universo de oportunidades. Em um primeiro momento, optamos por abrir o sinal do canal da BotafogoTV, no YouTube, gratuitamente, para todo o mundo exceto, naturalmente, o território brasileiro”, detalhou Julio Gracco.

“No primeiro jogo transmitido para fora, contra o Bahia, registramos audiência de usuários em mais de 70 países. Da mesma forma que nos conecta com botafoguenses pelo mundo, abre um mercado ímpar com estrangeiros que vão poder nos acompanhar com uma facilidade nunca antes vista”, acrescentou.

Internacionalizar a marca é um tema recorrente no futebol brasileiro, mas poucas são as ações para que o Brasileirão seja, de fato, atrativo aos olhos do mercado estrangeiro. Internamente, o Botafogo, que se utiliza da estrutura da BotafogoTV para tal, buscará ampliar as transmissões internacionais com conteúdo de pré-jogo e até pós-jogo.

“A mesma estrutura da BotafogoTV é a que a opera essa transmissão internacional, o que nos deixa bastante confiantes na capacidade de dar voos altos. Recebemos milhares de mensagens, tanto de botafoguenses, quanto de estrangeiros. A recepção está ótima. Essa visão do Textor de internacionalização da marca é algo que precisa ser falado. O produto futebol brasileiro, como um todo, tem muito a ganhar com essa conexão direta com o mundo”, reforçou.

Ainda que em fase inicial, com apenas duas partidas transmitidas até agora (Bahia e Juventude), o Botafogo está consciente que existem muitas frentes a serem exploradas. No entanto, o clube trabalha com pés no chão de olhos nos próximos passos do projeto e na gestão de expectativas do torcedor que está lá fora.

“É um mundo novo que se abre, seja do ponto de vista de marca e de oportunidades de negócios. Há muito a ser explorado e temos a mente aberta para tomar as melhores decisões. Por isso, abrir frentes com outros players também está no radar”, finalizou.

A entrevista completa com Julio Gracco, Diretor de Comunicação do Botafogo

Como está sendo esta nova fase da BotafogoTV, na aceitação dos torcedores, consumo, engajamento e a importância de levar uma estrutura mais robusta e qualificada de conteúdos?

Vivemos a era da economia da atenção, onde a nova moeda é o tempo das pessoas. Há uma ebulição de novos conteúdos, milhares de influenciadores e uso frenético das redes sociais. Os torcedores são bombardeados com todo tipo de informação. Por um lado, democratiza. Por outro, abre brecha para desinformação. Os clubes ainda não souberam explorar o potencial do conteúdo de uma TV interna, embora nos últimos anos tenha tido grande avanço nesse sentido. A BotafogoTV, em seu novo formato a partir do novo estúdio, tem buscado preencher uma lacuna de presença digital. Com entretenimento, informações oficiais e usando essa atenção dos torcedores para fortalecer a marca.

Dividimos o projeto da BotafogoTV em cinco fases. A primeira foi uma pesquisa de mercado e rodadas de reuniões internas sobre a nossa visão para o produto, tendo uma participação ativa do John Textor. Aprovada a ideia, estruturamos o conceito, executamos a obra física do novo estúdio, mexemos no casting de apresentadores e comentaristas. Agora, estamos na terceira fase, que é vê-la no ar, e para nossa satisfação tendo boa audiência. A quarta é o aumento de investimentos através de novos negócios e patrocínios, para no futuro desenvolvermos uma usina de produção de conteúdo que dê um salto de qualidade para o clube e para a Eagle Football.

Sobre a decisão do Botafogo em não fechar o acordo coletivo para transmissão no estrangeiro. Ter o direito para si, não entrando em um pacote com os demais clubes, é benéfica sob o ponto de vista de marca?

O John Textor sempre frisou a importância de explorar o potencial da marca. Nas primeiras reuniões que ele teve conosco, no início da implementação da SAF, lembro bem quando ele frisou a importância de se ter um Especialista em Branding no organograma. Tive muitas conversas com o Thairo, CEO, e fomos além. Estruturamos um Departamento de Branding, hoje liderado pelo Gabriel Assis. Entendemos o Manual da Marca como um item indispensável, construímos ele do zero e hoje é o grande guia de nossas decisões.

Internalizamos para ser de inteligência direta do Clube diversos processos, entre eles a pesquisa, design e estratégia dos novos uniformes de jogo, por exemplo. Hoje nenhum parceiro utiliza ou se refere à nossa marca sem a nossa autorização. Todos os conceitos e formas de agir não dependem de interpretação de pessoas, estão descritos objetivamente em um documento.

Achei importante essa introdução para frisar que é esse exatamente o nosso ponto de partida quando pensamos em transmissão internacional. Cumprimos primeiro o nosso dever de estruturação interna para depois darmos passos maiores. Lembro de uma emblemática entrevista do John no campo, emocionado, após vitória contra o Fortaleza em 2022: “Dizem que a Premier League é a maior liga do mundo, mas na Premier não amam clube como amam aqui. Tenho de mostrar esse amor para o mundo”. Essa frase está no nosso Manual da Marca como inspiração. De lá para cá, crescemos demais nessa ideia de levar esse amor para o mundo.

O modelo tradicional de transmissão do Campeonato Brasileiro para o exterior colocava na mão de terceiros, em valores no nosso entender subdimensionados, a exploração de um ativo que é um universo de oportunidades. Em um primeiro momento, optamos por abrir o sinal do canal da BotafogoTV, no YouTube, gratuitamente, para todo o mundo exceto, naturalmente, o território brasileiro. Por aqui, no ambiente doméstico, como se sabe, temos contrato com a TV Globo. No primeiro jogo transmitido para fora, contra o Bahia, registramos audiência de usuários em mais de 70 países. Da mesma forma que nos conecta com botafoguenses pelo mundo, abre um mercado ímpar com estrangeiros que vão poder nos acompanhar com uma facilidade nunca antes vista.

E até aqui, como tem sido realizado este trabalho? A estrutura é da BotafogoTV? O feedback dos botafoguenses que moram lá fora, tem sido positivo?

A mesma estrutura da BotafogoTV é a que a opera essa transmissão internacional, o que nos deixa bastante confiantes na capacidade de dar voos altos. Recebemos milhares de mensagens, tanto de botafoguenses, quanto de estrangeiros. A recepção está ótima. Essa visão do Textor de internacionalização da marca é algo que precisa ser falado. O produto futebol brasileiro, como um todo, tem muito a ganhar com essa conexão direta com o mundo.

Nossas conversas internas são para ampliar as transmissões internacionais com conteúdo de pré-jogo e até pós-jogo, permitindo uma interação para muito além dos 90 minutos. Vamos evoluindo gradativamente. Nesta fase inicial do projeto o narrador é o Roby Porto, botafoguense roxo, que possui um carisma legal de se ver, o que tem nos dados bons feedbacks.

Estamos avançando com calma na divulgação do próximos passos do projeto e na gestão de expectativas do torcedor que está lá fora. Como esse projeto vai se desenvolver no futuro depende de uma série de variáveis, mas estamos muito otimistas e considerando os cenários.

O Botafogo planeja fechar parceria com players do exterior para realizar transmissões para novos mercados? Monetizar esta frente é um dos objetivos?

É um mundo novo que se abre, seja do ponto de vista de marca e de oportunidades de negócios. Há muito a ser explorado e temos a mente aberta para tomar as melhores decisões. Por isso, abrir frentes com outros players também está no radar. Como disse, transmissão internacional é um dos projetos que recebem muita atenção do John Textor. Ele é um visionário nas relações entre tecnologia, mídia e consumo. Estamos muito seguros neste aspecto.

Compartilhe