Coluna

Somos sede da Copa Feminina em 2027, e agora?

Fato é que precisamos fomentar o papel da mulher no esporte com muito mais força nesses três anos para podermos colher grandes resultados

Somos sede da Copa Feminina em 2027, e agora?
Foto: FIFA

10 de julho de 2024

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Recentemente recebemos uma notícia incrível para o futebol feminino brasileiro: seremos o país sede! Desde então, venho observando a movimentação do mercado com esse assunto e o fato é que precisamos fomentar o papel da mulher no esporte com muito mais força nesses três anos para podermos colher grandes resultados.

Resultados esses que não se aplicam somente ao futebol jogado dentro de campo, mas também para capitanear mais mulheres praticando, assistindo e consumindo o futebol. Hoje, a porcentagem feminina que está conectada ativamente com o esporte é ainda muito pequena no Brasil. E, sem o público feminino com esses vínculos fortes estabelecidos, o crescimento da categoria fica comprometido para 2027 e além.

Há algumas semanas estive como moderadora no painel “O Futebol Feminino pede passagem: consolidação como mercado, Copa do Mundo e vôos mais altos”, da Conafut, evento de futebol realizado em São Paulo, dividindo o palco com Sandra Santos, Iris Sessot, Nuéli Silveira, e Lucas Castro.

O foco central do debate foi em torno do fato de que, mesmo com todas as evoluções dos últimos anos dentro do futebol feminno, precisamos valorizar e entender que trabalhar com a categoria requer conhecimentos específicos.

Voltando um pouco à história para criarmos o contexto desse tema, a mulher na sociedade conquistou todos os direitos com muita luta. Quando falamos de futebol, chegamos a ser proibidas de jogar no início da ditadura militar, em 1965. Bom, vemos aqui que, além de não sermos estimuladas a prática, também fomos proibidas de fazê-la. Esse decreto ficou vigente por mais de 10 anos, sendo revogado apenas em 1979. De lá pra cá, foram diversas primeiras vezes para o futebol feminino, não só no Brasil como no mundo. O primeiro Paulistão Feminino veio em 1987, a primeira Copa do Mundo Feminina veio só em 1991, e a primeira Olimpíada com mulheres foi em 1996. E muitas outras primeiras chances de ter categoria ocupando espaços até chegarmos aqui.

Ana Claudia Mayumi

A Copa Feminina em 2019 foi um divisor de águas para a categoria. Para o time brasileiro, tivemos uniformes exclusivos pela primeira vez, tivemos a TV Globo com transmissão em canal aberto com recorde de audiência, e foi além, pois houve uma crescente de patrocínios, de movimentos em prol da prática esportiva, visibilidade da imprensa para outros campeonatos, exigência de times femininos para os clubes da Série A e muito mais. Chegamos em 2023 e o investimento da Copa do Mundo Feminina foi grandioso, cerca de 300 milhões de dólares a mais do que foi gasto em 2019, mas ainda muito aquém do masculino que chega aos bilhões.

Também gerou uma crescente em quantidade de jogadoras profissionais, técnicas mulheres liderando o esporte feminino tanto no Brasil como em outros países. Um exemplo é a Colômbia que dobrou o número de jogadoras registradas. Outro exemplo é o crescimento de jogadoras que receberam suporte e trilharam um caminho dentro do esporte como a espanhola e melhor jogadora do mundo pela Fifa, Aitana Bonmati, que desde jovem entrou para a seleção do país, com 14 anos em 2014, e com todo acompanhamento conquistou a Copa do Mundo em 2023 e também foi considerada a melhor jogadora da competição. 

Esse investimento na carreira é essencial. Quando cortamos para o panorama Brasil, vemos por exemplo a jogadora de 19 anos Gi Fernandes do Corinthians na base da seleção com desde os 15 anos em 2020, e hoje atuando oficialmente pela seleção brasileira em campeonatos internacionais. Essa é a importância do apoio, incentivo e investimento contínuo que o esporte precisa ter para se desenvolver. Isso se torna ainda mais importante quando vemos o retrospecto da mulher no esporte com proibições e tantas barreiras para a prática ser contínua durante a vida. Dar visibilidade para as mulheres que fazem parte do esporte é fundamental para que mais pessoas e as novas gerações naturalizem a presença das mulheres no futebol.

A mulher tem suas especificidades e precisa ser acompanhada com cuidados particulares para as suas necessidades de vida. Além de tudo o que um atleta homem enfrenta na preparação física, psicológica e tática, com as mulheres ainda existem características de um ser biologicamente diferente, que passa por ciclos hormonais, por gravidez, por resistência da sociedade e pelas construções culturais que por muito tempo afastaram meninas e mulheres do esporte.  Ou seja, o atendimento multidisciplinar contínuo se torna essencial para um time campeão.

E agora, menos de 30 anos depois da primeira Copa do Mundo Feminina, teremos a oportunidade de ser sede desse campeonato. Mais do que nunca, é uma chance de trazermos ainda mais luz para todas essas necessidades e traçarmos planos para que não seja novamente um assunto que vem em ondas de acordo com a chegada da Copa Feminina, mas que se torne recorrente no investimento das marcas, na criação de conteúdo para internet, na exposição da televisão, dos jornais e sites de notícias, para que cada vez mais mulheres vejam o futebol das mulheres, para que mais homens se interessem e que a receita gerada seja compatível e os prêmios para as mulheres também.

*Ana Claudia Mayumi é criadora de conteúdo digital e gerente de produtos (futebol feminino e Corrida na Veia) na NWB atuando nas frentes das transmissões do Paulistão Feminino na Centauro Esporte e no canal Camisa 21. Bacharel em Educação Física (EEFE-USP) e pós-graduada em Gestão e Comunicação de Redes Sociais pela FMU, também exerce a função de treinadora de futebol em iniciativas encabeçadas por empresas como a Nike, Centauro e Federação Paulista de Futebol.

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