Coluna

Enxugamento dos estaduais é mais um passo do futebol brasileiro na direção errada

Medida coloca em risco sobrevivência de clubes pequenos no país, ao mesmo tempo em que não endereça os verdadeiros problemas do calendário nacional

Foto: Jhony Inácio/Ag. Paulistão

29 de maio de 2025

8 minutos de Leitura

Marcelo Loureiro
Marcelo Loureiro
Doutorando e professor de Marketing Esportivo na Florida State University

Em sua primeira coletiva de imprensa como presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Samir Xaud prometeu mudanças na estrutura dos campeonatos estaduais a partir do próximo ano. Se o calendário de 2025 reservou aos estaduais um total de dezesseis datas entre janeiro e março, esse número cairá para onze datas em 2026, conforme promessa do novo mandatário. A ideia parece ter sido bem recebida por dirigentes das federações estaduais (confesso que tenho dificuldade de entender o porquê), de forma que as perspectivas são, de fato, de mudanças para a próxima temporada.

Ainda que a busca por mudanças seja louvável, no entanto, a ideia me parece representar uma persistente falta de entendimento por parte da CBF dos problemas e necessidades do futebol brasileiro. Assim, na tentativa de corrigir um calendário que ano após ano se mostra problemático, a confederação está prestes a cometer um terrível erro, na minha visão. Tendo em vista especialmente a aprovação popular que a medida parece ter, esse texto representa uma tentativa de agregar ao debate, argumentando que os estaduais de fato possuem inúmeros problemas, mas que o número de datas disponíveis não é um deles.

A grande dificuldade em encontrar uma solução que agrade a todos vem do fato de que os clubes competindo possuem interesses muito diferentes. O Brasil possui cerca de 800 clubes profissionais espalhados por seu território, dos quais ao menos 80% não disputam qualquer divisão nacional. A sobrevivência da enorme maioria desses clubes, portanto, está diretamente ligada aos campeonatos estaduais. Diminuir as datas disponíveis para os estaduais de dezesseis para onze datas, em outras palavras, significa cortar um terço do já limitado calendário de centenas de clubes brasileiros.

Por outro lado, os maiores clubes de futebol do país, responsáveis pelas maiores receitas e audiências do esporte nacional, acumulam partidas (muitas irrelevantes) em um calendário completamente estafante. Em 2024, dos vinte clubes de futebol com mais partidas disputadas no mundo, dezenove eram brasileiros – o PAOK, da Grécia, invadia a lista, justamente na vigésima colocação. A diferença entre o clube grego, o mais ativo no mundo fora do Brasil, e o Botafogo, o mais ativo no Brasil, foi de inacreditáveis quatorze jogos (75 a 61), mostrando a absurda realidade do nosso futebol.

Pensando em resolver esse problema, muitos defendem a saída dos clubes grandes dos campeonatos estaduais. No entanto, a medida por si só não resolve a questão, uma vez que a viabilidade dos estaduais para os pequenos vem justamente da presença dos grandes. Outros defendem a criação de uma Série E, promovendo um calendário nacional para mais clubes pequenos, o que também considero ser outra péssima ideia. A saída, na minha visão, passa por uma organização do futebol brasileiro em camadas, estruturando campeonatos estaduais, regionais e nacionais em uma espécie de funil. Discuti essa ideia por aqui há cerca de seis meses, e certamente voltarei a tratar do assunto no futuro.

Tentando não tornar esse texto mais extenso do que ele precisa ser, vou ignorar essa estruturação mais complexa e focar na estrutura dos estaduais. Nesse sentido, é importante entender que o problema de um calendário extenso não é exatamente a quantidade de partidas de um clube, mas o que isso acarreta em termos de gestão de elenco. Se o Brasil representava dezenove dos vinte clubes com mais partidas disputadas numa temporada, o mesmo não se pode dizer de seus atletas. Entre os dez jogadores com mais minutos jogados em 2024, apenas dois atuavam no futebol brasileiro – Jhon Arias, do Fluminense, na segunda posição, e Félix Torres, do Corinthians, na oitava posição.

Para tentar explicar por que essa diferença é importante, vou buscar um exemplo prático no calendário do Botafogo, clube com mais partidas disputadas no mundo em 2024. A temporada do clube carioca começou com uma sequência de sete partidas alternadas entre finais de semana e meio de semana – a primeira semana completa de trabalho só veio entre a sétima e a oitava rodadas do Carioca. Focando somente nas três primeiras rodadas, o Botafogo venceu o Madureira no dia 17 de janeiro, uma quarta-feira, venceu o Bangu no sábado seguinte e foi derrotado pelo Boavista na quarta-feira seguinte. As escalações para as partidas contra Madureira e Boavista tiveram a mesma escalação inicial, enquanto a escalação contra o Bangu não utilizou nenhum desses onze jogadores. Em outras palavras, em sua segunda partida no ano, no dia 20 de janeiro, o Botafogo já sentia a necessidade de rodar seu elenco inteiro.

Onze meses depois, o clube se via envolvido em mais uma (de tantas outras) sequência de jogos. Dessa vez, empatava com o Vitória em casa num sábado (na época, colocando em risco seu título brasileiro) para então vencer Palmeiras fora de casa numa terça-feira e se sagrar campeão da Libertadores contra o Atlético/MG no sábado. Se colocarmos cem torcedores botafoguenses numa sala e pedirmos para que ranqueiem essas seis partidas por sua importância – Madureira, Bangu e Boavista pelas três primeiras rodadas do Carioca, Vitória e Palmeiras pelo Brasileirão e Atlético/MG pela final da Libertadores –, os cem torcedores colocarão as partidas do Carioca nas três últimas posições. Existia, na época, um debate sobre a ordem de importância entre Brasileirão e Libertadores, mas jamais um torcedor colocaria jogos da fase de grupos do estadual nessa discussão.

O meu ponto com esse exemplo é que o Botafogo, assim como qualquer outro clube de ponta brasileiro, precisa rodar seu elenco em jogos de fundamental importância no final do ano, meses após “gastar” seus atletas em partidas absolutamente irrelevantes dos campeonatos estaduais. Para as partidas contra Vitório, Palmeiras e Atlético/MG, por exemplo, o clube carioca utilizou três duplas de zaga diferentes. Diminuir as datas entre janeiro e março não passa nem perto de resolver esse problema, ao mesmo passo em que mata a sobrevivência de uma rede enorme de clubes brasileiros. A solução, na minha visão, é transformar os estaduais, assim como as copas, em campeonatos de meio de semana, espalhando suas datas por um período maior de tempo. Dessa forma, no exemplo que apresentei, o clube carioca teria tido a oportunidade de usar seus principais jogadores contra Vitória, Palmeiras e Galo sem prejuízos ao seu elenco, usando equipes alternativas contra equipes menores do Rio de Janeiro.

Há anos, o futebol brasileiro trata os campeonatos estaduais como um problema (ênfase nessa palavra) que precisa ser tolerado. Os estaduais nada mais são do que os párias do calendário nacional, irrelevantes demais para ganhar destaque no cenário atual, mas tradicionais demais para serem simplesmente descartados. Uma mudança na estrutura dessas competições, no meu entendimento, tem o potencial de transformá-los em uma oportunidade, ao invés de um problema.

Para tentar provar meu ponto, vou usar o exemplo do Athletico Paranaense, equipe que melhor soube usar a estrutura dos estaduais na última década. Por ao menos dez anos, o clube utilizou o Campeonato Paranaense como laboratório para suas categorias de base. Foi dessa estrutura que saiu a base para seus títulos da Copa Sul-Americana em 2018 e 2021 e da Copa do Brasil 2019. Foi dali que saíram Bruno Guimarães, Santos e Renan Lodi para a Seleção Brasileira, além de uma série de atletas que hoje atuam na elite do futebol brasileiro ou no futebol europeu. Quantos jogadores deixaram de vingar no futebol profissional brasileiro ao longo da última década por não conseguirem fazer uma transição com menos pressão e mais oportunidades?

Diminuir os estaduais em cinco datas resolve muito pouco do problema de quem atua 75 vezes no ano. O Botafogo, assim como qualquer outra equipe da elite nacional, continuará precisando rodar seu elenco no estadual para, meses depois, também precisar poupar jogadores nas fases mais importantes das principais competições. Propostas como as de Ronaldo – de transformar os estaduais em competições de sete datas – tratam os estaduais como o problema que precisa ser superado de qualquer jeito, só para não atentar contra a tradição do futebol brasileiro, quando deveriam tratá-los como oportunidade. Nesse sentido, com uma única medida, a CBF coloca em risco a existência de dezenas ou centenas de clubes brasileiros, ao mesmo tempo em que não resolve o problema de calendário dos grandes. Não obstante, ainda desperdiça uma enorme oportunidade de alavancar a geração de talentos nos principais clubes brasileiros.

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