Coluna

Kings League: 10 ensinamentos do esporte 3.0

O que a liga espanhola nos ensina sobre público, produto, conteúdo e inovação enquanto o futebol tradicional ainda discute eleições

20 de maio de 2025

7 minutos de Leitura

Ivan Ballester
Ivan Ballester
Presidente na Kids League a 1º Creator League Escolar do BR | Founder da Esporte Educa | Recriando a relação do Esporte com a Educação no BR

A 1ª edição da Kings League Brasil chegou ao fim.

Se o critério for visibilidade, viralização e buzz, foi um sucesso. Dentro de campo, o espetáculo também funcionou. Afinal, a proposta é clara: misturar esporte com entretenimento. Há quem diga que é mais show do que futebol.

Mas é exatamente aí que mora a mágica do sportainment.

Mais do que uma liga divertida, a Kings é um modelo de negócio que merece ser estudado. Por isso, reuni aqui 10 aprendizados que mostram como ela redesenha a lógica do marketing esportivo, da atenção e da monetização no futebol.

Não é só futebol. É um novo formato de espetáculo.

Se você ainda não sabe o que é a Kings League, mas tem sede por conhecimento, recomendo minha coluna de março, onde explico tudo com mais contexto.

Mas se preferir ir direto ao ponto, pode continuar aqui mesmo. Tem insight bom vindo aí.

Um novo público, um novo ambiente

Mais de 40 mil pessoas foram ao Allianz Parque assistir Fúria x Denele. Um número que supera a média de público do Brasileirão, que gira em torno de 26 mil. Mas o mais impressionante não foi a quantidade, e sim o perfil.

Vi um público jovem, da geração Alpha e Z. Gente que consome, joga, engaja online. Vi mães e filhos sorrindo, famílias inteiras curtindo o evento sem medo. Um ambiente leve, seguro e fora do padrão dos estádios brasileiros.

Tinha a vibração de uma torcida e a segurança de um show.

Kings League concorre com o futebol?

Viralizou essa semana um vídeo do Kaká dizendo que a Kings não concorre com o futebol. Eu adoro o Kaká, mas discordo.

Todas as pessoas só têm 24 horas. No mundo de hoje, tudo compete pela nossa atenção. E atenção é finita. E nem é só atenção. É bolso também.

Quem foi ao jogo da Kings deixou de ir ao clássico Corinthians x Santos. Estamos trocando não só de canal, mas de prioridade. Inclusive na hora de decidir onde gastar dinheiro e comprar ingresso.

O concorrente do futebol não é outro esporte. É quem prender sua atenção.

Valeu para as marcas?

Se foi um sucesso para as marcas, só o tempo dirá. As renovações de patrocínio e os dados futuros vão contar essa história.

E aqui vale lembrar: cada marca tem uma régua diferente. Algumas buscam awareness, outras querem conversão direta. O que funciona para uma pode não funcionar para outra.

No meu LinkedIn, compartilho análises de ativações da Kings com vários insights onde mais de 500 mil pessoas leram. Se você trabalha com marketing esportivo ou patrocínios e quer acompanhar reflexões e ideias acionáveis, me siga por lá.

O retorno depende do jogo que cada marca está jogando.

Muito além do jogo: a estratégia multiplataforma

A Kings League não é só um campeonato. É uma operação de mídia com estratégia multiplataforma, ou seja, um conteúdo pensado desde o início para circular e performar bem em diferentes plataformas digitais.

O jogo acontece em campo, mas o impacto se multiplica no TikTok, nos cortes do YouTube, nas lives da Twitch, nos stories do Instagram e até nos memes do X. Cada lance, reação ou jogada especial é pensado para virar clipe, trecho viral ou conversa online. Tudo já nasce adaptado ao jeito que as novas gerações consomem: rápido, fragmentado e em tela cheia.

Na Kings, cada jogada já nasce pronta para viralizar.

A Kings League usa a mesma lógica de Hollywood

Por trás do show, existe roteiro. A Kings League replica com precisão o modelo que Hollywood e as plataformas de streaming usam para prender atenção: algo novo precisa acontecer a cada poucos minutos. Cartas surpresas, mudanças de regra, gols relâmpago, VAR ao vivo, provocações entre influenciadores. Tudo isso são picos de atenção narrativos, planejados para reiniciar o interesse do público antes que ele caia.

Na prática, cada partida é dividida em blocos. A estrutura lembra episódios de uma série, com início impactante, meio cheio de reviravoltas e fim com clímax. E no pós-jogo, a edição entra em cena: cortes rápidos, conteúdo distribuído em diferentes plataformas, trechos pensados para viralizar.

Ela entrega uma dramaturgia com timing de TikTok, roteiro de Netflix e alcance de mídia multicanal e multiplataforma.

OBS: Vou fazer uma coluna só sobre isso.

A engrenagem multicanal da Kings League

Se a estratégia multiplataforma garante que o conteúdo circule por diversos formatos e redes sociais, a Kings League Brasil também acertou na construção de uma tática multicanal para ampliar seu alcance e reforçar presença em diferentes frentes.

O canal oficial foi a CazeTV, comandado por Casimiro, um dos maiores streamers do país. Mas a transmissão não parou por aí. Houve também parceria com a Record, além de um time de influenciadores e creators que transformaram cada equipe em um novo ponto de contato com o público.

Confira os nomes por trás dos clubes:

  • Furia FC – Neymar Jr. e Cris Guedes
  • Capim FC – Jon Vlogs e Luva de Pedreiro
  • Dendele FC – Paulinho o Loko e LuquEt4
  • Desimpedidos Goti – Toguro e Yuri 22
  • FC Real Elite – Ludmilla e Allan Stag
  • Fluxo FC – Nobru e Cerol
  • Funkbol Clube – Kond, Michel Elias e MC Hariel
  • G3X FC – Gaules e Kelvin Oliveira
  • LOUD SC – Coringa
  • Nyvelados FC – Nyvi Estephan

E isso sem contar os próprios jogadores, que também funcionam como microcanais com audiências próprias e engajadas. A Kings League entendeu que no mundo de hoje, o jogo precisa estar onde as pessoas estão. E elas estão espalhadas por telas, plataformas, redes e vozes diferentes.

Cada time é um canal. Cada criador, uma mídia.

A lógica do protagonismo compartilhado

Na Kings League, o protagonismo não está só com os clubes ou com a liga. Ele é diluído e, ao mesmo tempo, amplificado pelos criadores de conteúdo, torcedores, influenciadores e até jogadores. Cada um tem voz, câmera e espaço para gerar narrativas paralelas. Isso cria uma descentralização da atenção, onde o conteúdo é gerado de forma distribuída.

No marketing esportivo tradicional, a centralização da narrativa ainda é comum. Na Kings, o conteúdo é colaborativo, espontâneo e orgânico. Isso gera mais alcance e identificação.

Quando todo mundo joga o jogo da narrativa, o engajamento explode.

A ausência do “peso institucional” como vantagem

A Kings League não carrega o peso histórico, político e emocional dos clubes tradicionais. E isso que parece ser um “problema” é, na prática, uma liberdade estratégica: ela pode experimentar, mudar regras, errar ao vivo, fazer piada com o próprio sistema.

A leveza institucional permite ousadia. Enquanto muitos clubes travam em aprovações, a Kings já publicou, testou e viralizou.

Quem não tem tradição para proteger, tem liberdade para arriscar.

A Kings League é uma startup de futebol

Enquanto o futebol tradicional opera como uma indústria consolidada, com estruturas rígidas, burocracias e pouco espaço para experimentação, a Kings League se comporta como uma startup.

Ela testa rápido, corrige ao vivo, escuta o público, distribui com agilidade e transforma conteúdo em receita desde o primeiro dia. Tem canal próprio, produto próprio, linguagem própria e monetização integrada à experiência.

Mais do que uma liga, ela é um modelo de negócio com mentalidade de startup.

A Kings constrói marca, não um campeonato

O que a Kings está criando vai além de uma liga. Ela constrói um ecossistema com nome, voz, estética, linguagem e comunidade própria. Não é só um torneio com regras diferentes. É uma marca com personalidade..

No fim das contas, o ativo mais valioso não é ter uma liga. É criar uma marca forte.

Conclusão

A Kings não é só uma novidade divertida. É um manual vivo de como repensar produtos, narrativas e formatos no esporte. É entretenimento com modelo de negócio. É startup com bola rolando. E o mais importante: é um espelho desconfortável para quem ainda acredita que tradição basta.
E em um momento em que o futebol tradicional mais aparece na mídia por presidentes deposto, eleições de última hora ou clubes envolvidos em escândalos, a Kings aparece por tudo que você leu aqui.

Enquanto uns defendem o passado, outros estão desenhando o futuro.

Até breve, caro leitor.

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