
A temporada regular da NBA é conhecida por sua intensidade nas jogadas dos atletas e calendário apertado. Com 82 jogos disputados em pouco mais de seis meses, as equipes precisam manter um ritmo elevado de performance, enfrentar viagens constantes e lidar com pouco tempo para recuperação. Essa maratona basqueteira, que parece interminável, levanta uma discussão importante: o volume de jogos na temporada regular ajuda ou atrapalha o rendimento dos jogadores na fase decisiva dos playoffs?
Confesso que fiquei muito desapontado por não ter visto o Steph Curry jogar mais partidas nos playoffs desta temporada. Fora de combate por conta de uma lesão, o armador que faz chover bolas de 3 pontos, desfalcou sua equipe na hora mais importante e, com certeza, enfraqueceu o apelo midiático da série contra o Minnesota. Também lamentei a lesão no tendão de Aquiles do Jayson Tatum, do Boston Celtics, a mesma que afastou Kevin Durant dos playoffs anos atrás. O fã de basquete quer ver os melhores em quadra.
Do ponto de vista esportivo, um alto volume de jogos na fase de classificação contribui para maior entrosamento entre os atletas, testes em diferentes formações e estratégias, além de mais oportunidades para jovens talentos. Também permite que as equipes ajustem suas fraquezas e fortaleçam seus pontos fortes ao longo da temporada.
Por outro lado, o excesso de partidas dilui a importância de cada jogo e impacta diretamente a saúde física e mental dos jogadores. São muitos dias longe de casa, viagens desgastantes e cobranças constantes por resultados. Isso eleva o risco de lesões justamente na fase em que mais se precisa de desempenho máximo: os playoffs. Recentemente, o perfil @camisa23 destacou um aumento no percentual de contusões nessa etapa.
Na fase de mata-mata, cada jogo conta. A intensidade aumenta, as defesas apertam e o preparo físico e mental são colocados à prova. Nesse contexto, o cansaço acumulado de uma temporada longa pode ser determinante.
Jogadores que chegam a essa fase com carga excessiva de minutos ou sem tempo adequado de recuperação correm risco de queda de rendimento ou até de ficarem de fora por lesão. Em contrapartida, times que souberam administrar melhor a carga de seus atletas durante a temporada costumam chegar mais fortes ao momento decisivo.
Exemplos recentes mostram que times que priorizam a saúde dos atletas ao longo do ano tendem a ter mais sucesso em maio e junho. A conquista do Toronto Raptors em 2019, por exemplo, teve grande relação com a forma como Kawhi Leonard foi poupado na temporada regular, chegando no auge para os playoffs.
Muito se discute sobre a redução do número de jogos ou até a diminuição do tempo de jogo (de 48 para 40 minutos, como na FIBA). Mas essas mudanças esbarram em fatores complexos, tais como a ideia de que ocorrerão perda de receita com direitos de transmissão, bilheteria, consumo nas arenas e até na descontinuidade estatística. A NBA é referência global em dados e estatísticas e parte da magia da liga está na possibilidade de comparar feitos históricos em uma base consistente.
Desde a temporada 1967/68, a NBA adota o modelo de 82 jogos na fase regular (exceto em temporadas afetadas por lockouts ou pela pandemia da COVID-19). Em média, um time campeão joga entre 98 e 110 partidas por ano. Reduzir esse número implicaria, por exemplo, em reescrever a história dos recordes.
Então, imagine passar a perder os recordes que sempre são apresentados ao fã, aprofundando sua interação e consumo de informações da competição.
Além disso, a liga tem buscado limitar a prática de poupar jogadores (“load management”). Isso porque a audiência é naturalmente maior quando os astros estão em quadra. A nova regra que exige participação mínima de 65 jogos para concorrer a prêmios individuais é reflexo desse movimento.
Do ponto de vista do jogador, estar em quadra significa fazer o que ama, ganhar visibilidade e entrar para a história com números expressivos. Ainda assim, acredito que um modelo de temporada regular com 60 a 70 jogos poderia ser mais saudável para os atletas e mais atraente para os torcedores. Com menos jogos, cada partida ganharia mais peso, o torcedor sentiria que está vendo algo raro e especial. Hoje, com 6 a 8 jogos por rodada, a oferta é tão grande que se perde o senso de urgência.
Aparentemente essa mudança no número de jogos está distante de ocorrer, mas eu acredito fortemente que com um plano bastante estratégico, uma adequação no calendário e uma boa comunicação podem fazer com que essa mudança traga mais leveza para os atletas e consiga valorizar ainda mais os jogos. E pensando nos fãs mais jovens, essa redução pode tornar o interesse pelo campeonato ainda maior.
Essa redução também abriria espaço para outras ações: mais conteúdo produzido com atletas, maior envolvimento em causas sociais e mais oportunidades para as franquias se conectarem com diferentes comunidades. Seria mais uma forma de fortalecer a marca NBA para além das quatro linhas.
O modelo de negócio da NBA ajuda demais a manter a saúde financeira entre as equipes, buscando um equilíbrio maior entre as franquias. Claro que existem as mais tradicionais e valorizadas. Porém, se pegarmos nos últimos 10 anos, 7 equipes diferentes ganharam título. Sei que muitos argumentam que diminuir os jogos pode afetar a visibilidade das equipes menos competitivas. Mas o esporte de alta performance é seletivo por natureza.
O ponto é, o volume de jogos na temporada da NBA é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um desafio. Ele permite um desenvolvimento técnico e tático mais profundo, mas cobra um preço alto em termos de desgaste físico e mental.
O equilíbrio entre competitividade, espetáculo e saúde dos jogadores é um grande desafio da liga e deve seguir como pauta nos próximos anos, principalmente diante das discussões sobre o formato do calendário e da crescente valorização da pós-temporada.





