Coluna

Ainda em sua fase de grupos, Copa do Mundo de Clubes se prova um enorme acerto

Ainda que potencialmente ampliando domínio europeu, FIFA estabelece um produto muito mais atraente e tira poder das mãos da UEFA

Foto: Getty Images

23 de junho de 2025

7 minutos de Leitura

Marcelo Loureiro
Marcelo Loureiro
Doutorando e professor de Marketing Esportivo na Florida State University

Quem vê a Champions League sendo atualmente dominada por não mais que dez clubes, de quatro ou cinco países, talvez não se dê conta de que essa nem sempre foi a realidade da maior competição entre clubes do mundo. Nas décadas de 80 e 90, por exemplo, quinze clubes de dez países – incluindo Romênia, Portugal, Holanda e Sérvia – venceram a competição.

Se ampliarmos o escopo e considerarmos os quatro primeiro colocados, as décadas de 80 e 90 apresentaram inacreditáveis trinta e sete clubes de dezenove países. Clubes como Dundee United, da Escócia, Widzew Łódź, da Polônia, e IFK Göteborg, da Suécia, entre muitos outros, já estiveram entre os quatro melhores da principal competição entre clubes europeus.

O que aconteceu, então, de lá pra cá? Existem diversas explicações para o fenômeno, que muitos entendem ser inevitável. Quem já leu o trabalho de Stefan Szymanski, economista e professor de gestão esportiva na Universidade de Michigan, deve estar familiarizado com a ideia de que o futebol é um ambiente propício ao domínio de um pequeno grupo de equipes.

O autor mostra que, das Ilhas Faroé ao continente europeu como um todo, o surgimento de uma pequena elite no futebol é absolutamente natural, ideia que pretendo discutir por aqui após o encerramento da Copa do Mundo de Clubes. Enquanto isso, nesse texto, quero explorar uma explicação muito mais simples.

Ainda que a UEFA só tenha passado a adotar o nome na temporada 1992-93, até mesmo a European Cup (como era chamada até a temporada 1991-92) sempre foi uma verdadeira liga de campeões. Cada país, ao menos em teoria, enviava sempre o campeão de sua liga nacional ao torneio continental, de forma que praticamente a totalidade dos países eram representados por uma única equipe – a única exceção era sempre o país então detentor do título, que mandava a então campeã europeia além de mais uma equipe.

Para ilustrar essa discussão, nessa última temporada da Champions League, o Manchester City, então campeão da liga nacional mais competitiva do continente, foi derrotado antes mesmo das oitavas de final. Em qualquer edição até 1997-98, quando a competição passou a receber mais de um clube por país, a Premier League enquanto “bicho-papão” teria sido completamente neutralizada ainda cedo, abrindo espaço para zebras de outros países. Na última edição, no entanto, a Inglaterra continuou sua trajetória com Liverpool, eliminado nas oitavas, Aston Villa, eliminado nas quartas, e Arsenal, eliminado nas semis – todos pelo Paris Saint-Germain.

Abrindo um parêntese, essa é uma dinâmica muito parecida com a da Copa do Mundo: há décadas discutimos o domínio das seleções europeias, sendo que boa parte da explicação vem do simples fato de que os europeus possuem muito mais times fortes na competição. Ao longo de vinte anos, nenhuma seleção europeia é consistentemente mais forte que Brasil e Argentina, mas o continente europeu possui sempre muito mais peças no tabuleiro. Fechado esse parêntese, voltemos à principal discussão.

A Champions League, a partir da temporada 1997-98, abriu mão de um ambiente mais propício a surpresas para criar uma competição mais atraente ao público. Se alguns países possuíam uma rede muito mais diversa e robusta de clubes fortes, a UEFA entendeu que fazia sentido dar a esses países mais chances ou, como coloquei anteriormente, mais peças no tabuleiro. Eu não acredito que exista necessariamente um certo e um errado nessa discussão, mas o fato é que existe claramente uma troca: abriu-se mão das surpresas para se ganhar uma liga mais atraente.

Eu gosto da decisão tomada pelos europeus, mas entenderia qualquer opinião que fosse no caminho contrário, defendendo que a Liga dos Campeões fosse, de fato, uma liga de campeões.

Ainda assim, enquanto essa discussão talvez coubesse no contexto europeu (ainda que eu não veja essa discussão, de fato, acontecendo), no contexto do Mundial de Clubes ela é o que americanos chamariam de “no-brainer”. Ao longo das duas últimas décadas, a diferença financeira entre América do Sul e Europa tomou proporções absurdas, de forma que zebras passaram a beirar o impossível. Pelo contrário, as surpresas cercando os clubes brasileiros passaram a acontecer nas semifinais, com casos cada vez mais frequentes de campeões da Libertadores nem sequer chegando à final.

Os títulos, protocolarmente, passaram a ser sempre europeus, de forma que o Mundial de Clubes se tornou uma competição protocolar e sem qualquer atratividade. Entre as diversas competições problemáticas existentes no futebol mundial, o Mundial me parecia sem dúvidas a maior delas: era uma competição sem qualquer razão de existir.

Talvez a ideia de que o Mundial deixou de ser minimamente atraente há muito tempo pareça absurda para o público brasileiro, mas esse só é o caso porque clubes brasileiros estiveram constantemente na competição ao longo dos últimos anos. Pensando em uma perspectiva global, que deveria ser o enfoque de uma competição como essa, proponho o seguinte exercício. Tente listar um único momento marcante do Mundial de Clubes de 2008. Ou, para não levar a discussão tão longe, tente listar um único momento marcante dos Mundiais de Clubes de 2014, 2015, ou 2016.

Eu tenho alguma memória dos placares das finais dessas edições, mas os jogos em si são uma completa incógnita pra mim, ainda que eu tenha assistido a essas partidas na época. Isso porque, em qualquer edição que não envolva um brasileiro, a competição é completamente irrelevante por aqui. Se eu tentar listar cinco lembranças das Copas de 2010 ou de 2014, por outro lado, consigo com enorme facilidade me recorrer de momentos em que o Brasil nem sequer esteve envolvido.

A nova Copa do Mundo de Clubes, de tal forma, não abre mão de absolutamente nada para criar uma competição robusta e atraente para um público amplo. Entendo que a FIFA cometeu alguns erros pontuais ao longo desse processo, o que é absolutamente natural para uma competição em sua primeira edição e que com certeza serão corrigidas para edições futuras. Ainda assim, o saldo da competição não poderia ser mais positivo. Escrevo esse texto enquanto as equipes sul-americanas ainda estão invictas e logo após as vitórias de Botafogo e Flamengo sobre PSG e Chelsea, mas não guardo qualquer expectativa de que a competição não será dominada por europeus em sua fase final.

Independentemente disso, no entanto, me parece muito claro que a FIFA não abriu mão de nada com o aumento do número de clubes por confederação. Uma competição dominada por europeus, muito provavelmente, continuará sendo dominada pelo Velho Continente, porém dessa vez com uma atratividade muito maior, fomentando novas rivalidades e um interesse global pelo evento.

Há anos a FIFA não acertava tanto em uma decisão: em uma única cartada, a entidade máxima do futebol mundial tira boa parte do poder do futebol de clubes das mãos da UEFA, que é a única a lamentar o novo regulamento da competição – além, ironicamente, do Botafogo, que em qualquer outra edição da história teria acabado de se sagrar campeão mundial ao vencer, em sequência, um clube da Concacaf e o campeão da Champions. Pensando no futuro, independentemente de qualquer decisão que se venha a tomar sobre seu regulamento, não tenho dúvidas de que a competição veio para ficar, e mal posso esperar pelas próximas edições.

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