Nos últimos anos, o futebol deixou de ser apenas um instrumento de paixão na Arábia Saudita para se transformar em uma engrenagem estratégica dentro de um projeto muito maior: o Visão 2030, iniciativa do governo saudita que busca diversificar a economia e projetar uma nova imagem do país ao mundo.
O que começou com a chegada de superestrelas à Saudi Pro League, como Cristiano Ronaldo, Benzema e Neymar, evoluiu rapidamente para algo mais estrutural: a privatização de clubes locais, com foco em atrair capital estrangeiro e profissionalizar o ecossistema esportivo.
Com o objetivo de reduzir a dependência do petróleo, o governo saudita tem investido bilhões em setores como turismo, tecnologia e entretenimento. O esporte entra nessa equação como ferramenta de “soft power”, ou seja, uma estratégia que visa moldar a imagem da nação árabe no cenário internacional.
Na semana passada, o grupo americano Harburg, que já possui ações no Cádiz, anunciou a compra do Al-Kholood FC, clube da elite do futebol saudita. A aquisição é parte da fase mais recente do programa de privatizações que envolve não apenas os grandes times, mas também equipes regionais e de base, como o Al-Ansar e o Al-Zulfi.
Segundo o Ministério do Esporte saudita, mais de 20 agremiações foram mapeadas para processos de privatização com foco na atração de capital estrangeiro, melhoria na gestão e infraestrutura, fortalecimento das categorias de base e ampliação da marca global do país via futebol.
Ao abrir as portas para investidores estrangeiros, a Arábia Saudita não só injeta dinheiro no sistema, como também importa know-how. O objetivo é criar uma liga sustentável, competitiva e respeitada, algo que vai além da contratação de grandes nomes.
Com o país sediando a Copa da Ásia de 2027 e a Copa do Mundo de 2034, os sauditas dão sinais de que sua estratégia vai além do curto prazo.
Por meio de privatizações e parcerias com grandes grupos internacionais, a Arábia Saudita busca se reposicionar como um polo moderno, estável e aberto ao mundo. Essa abertura, no entanto, também levanta debates sobre até que ponto iniciativas econômicas conseguem compensar questões relacionadas a direitos humanos e liberdades civis, que ainda pesam na percepção internacional sobre a nação árabe.




