A história da Premier League não é apenas a narrativa de um campeonato nacional que se globalizou, é também o retrato de uma transformação social, cultural e comercial profunda no futebol inglês.
Fundada em 1992, a liga surgiu como resposta direta a um período sombrio do esporte no Reino Unido, que era marcado à época por hooliganismo, estádios ultrapassados e gramados em péssimo estado, gerando um ambiente que afastava famílias e patrocinadores.
Em entrevista para o MKTEsportivo, Mário Marra, comentarista da Premier League dos canais ESPN, único detentor dos direitos de transmissão da liga no mercado brasileiro, detalhou os primórdios da organização e as iniciativas que consolidaram o campeonato nas décadas seguintes.
“Um pouco antes da fundação da Premier League, era um período de muita violência por causa dos hoolIgans. Além disso, devemos destacar também a questão econômica. Os ingleses perceberam que estavam perdendo para outros mercados. Eles entenderam que se não mudassem algumas estratégias ficaria difícil concorrer com outras grandes ligas da Europa, como a italiana, que era muito forte na época e a espanhola”, declarou Marra, com exclusividade para o MKTEsportivo.

A era do hooliganismo
Nos anos 80, o futebol inglês enfrentava uma grave crise de imagem. Tragédias como o desastre de Heysel (1985), que resultou na morte de 39 torcedores, e Hillsborough (1989), que vitimou 97 pessoas, escancararam a urgência de reestruturação. O hooliganismo não era um problema periférico: estava entranhado nos estádios, nas ruas e no imaginário popular.
A virada veio com o Relatório Taylor, publicado após Hillsborough, que recomendou profundas mudanças nos estádios, incluindo o fim das arquibancadas de pé e a introdução de assentos numerados, além de melhorias em segurança, acesso e conforto.
Os ajustes promovidos não apenas humanizaram a experiência do torcedor como também abriram espaço para um novo perfil de público: famílias, turistas e consumidores com maior poder aquisitivo.
“O perfil do público mudou e as punições ficaram cada vez mais severas para episódios de violência. Segundo os relatos, antes dos relatórios, os estádios de futebol no Reino Unido não eram ambientes para o pai levar o filho, o marido levar a esposa ou pro irmão levar a irmã. Era um ambiente para pessoas rústicas. Com o passar do tempo, o público foi entendendo que se normas fossem extrapoladas, haveriam punições severas para repreender. Foi uma forma de reeducação”, completou Marra.
A internacionalização da Premier League
Nos anos seguintes, muito por conta da Lei Bosman, a abertura para o mercado internacional transformou o perfil técnico e comercial do campeonato. Jogadores estrangeiros passaram a chegar, incluindo nomes como Eric Cantona, Dennis Bergkamp e Gianfranco Zola, elevando o nível competitivo e atraindo atenção internacional.
“Após a liga se estabilizar, chegou a hora de reforçar o campeonato. E nesse movimento, a Premier League começou a buscar talentos em outros mercados. Arsène Wenger, por exemplo, técnico do time campeão invicto do Arsenal, estava no futebol japonês. Além de ter o poderio financeiro para contratar, os clubes não buscavam qualquer aquisição. Daí em diante, abriu-se a possibilidade da liga seguir trabalhando com talentos locais, mas também iniciar um scout do que havia de diferente em outros campeonatos”, pontuou.
Atualmente, mais de 60% dos atletas atuando na Premier League são estrangeiros, e as comissões técnicas também seguem essa tendência. Clubes como Chelsea, Arsenal, Manchester City e Liverpool se tornaram hubs globais, refletindo culturas e ampliando seu apelo em mercados como África, Ásia, América Latina e Oriente Médio.
Clubes como marcas globais
Com a base comercial consolidada, os clubes da Premier League passaram a atuar como conglomerados. Investiram em redes sociais, academias no exterior, excursões internacionais e parcerias com multinacionais.
Esse processo também atraiu investidores bilionários, como o russo Roman Abramovich no Chelsea, os cataris no Manchester City e os sauditas no Newcastle. Essas injeções de capital consolidaram a Premier League como destino dos principais talentos do futebol e como palco para algumas das maiores rivalidades comerciais do esporte moderno.
“Depois que perceberam a chegada de novos patrocinadores e atestaram que aquele modelo funcionava, passou-se a investir mais na Premier League. E com a chegada de bons jogadores, o futebol melhorou e com a contratação de astros como Ruud Gullit, Gianfranco Zola, o mundo passou a olhar mais ainda para o futebol inglês. Se história e paixão eles já tinham, de repente, aquela competição estava mais organizada, menos violenta, com regras e bonita. Dessa forma, o produto reforçou ainda mais seu posicionamento no mercado internacional”, finalizou Marra.
O sucesso comercial da Premier League é o resultado de decisões estratégicas que envolveram não apenas o marketing, mas também soluções firmes a problemas estruturais. O combate ao hooliganismo, a modernização dos estádios, a internacionalização do elenco e a gestão empresarial dos clubes criaram um ecossistema em que o futebol é entretenimento, investimento e cultura global.





