A suspensão provisória de Ruth Chepngetich, recordista mundial da maratona feminina, traz à tona uma discussão urgente na elite do atletismo: os efeitos financeiros e reputacionais de um eventual caso de doping na corrida mais valorizada do mundo.
Chepngetich foi suspensa pela Athletics Integrity Unit após teste positivo para hidroclorotiazida (HCTZ), um diurético proibido que pode mascarar o uso de outras substâncias. A amostra foi coletada no dia 14 de março, e os exames apontaram concentração de 3.800 ng/mL, cerca de 190 vezes acima do limite permitido pela WADA (20 ng/mL).
A atleta optou por uma suspensão voluntária em abril, antes que fosse oficialmente imposta pela órgão. Em julho, foi emitida a notificação formal de acusação, e ela poderá receber uma pena de até dois anos, conforme o regulamento anti-doping.
Perdas financeiras e mercadológicas
Chepngetich faturou US$ 150 mil pela vitória e recorde na maratona de Chicago em 2024, mas o valor real de sua conquista deve ultrapassar US$ 500 mil, incluindo bônus de patrocinadores, premiações de circuitos e valorização de sua imagem para futuras corridas. Caso o título seja invalidado, isso tragará perdas diretas e indiretas à atleta e seus agentes.
A segunda colocada, a etíope Sutume Kebede, foi prejudicada, tanto na premiação de US$ 50 mil do World Marathon Majors quanto na visibilidade que uma vitória em prova desse porte proporciona.
A continuidade do caso tem implicações amplas: patrocinadores e organizadores podem se afastar de uma modalidade abalada por incertezas. Brendan Reilly, agente de Edna Kiplagat, destaca que “o doping corrói credibilidade e prejudica o valor econômico de uma competição”.
“É uma oportunidade perdida que não se recupera”, disse Hawi Keflezighi, agente de atletas, em entrevista ao site Sportico.
Além do impacto sobre as atletas envolvidas, o caso levanta preocupações mais amplas no mercado esportivo, especialmente entre patrocinadores e organizadores. O Bank of America, patrocinador master da Maratona de Chicago desde 2008, ainda não se manifestou publicamente sobre o episódio. No entanto, especialistas apontam que empresas estão cada vez mais criteriosas ao vincular sua marca a competições e atletas, diante do risco de danos reputacionais associados a escândalos de doping.
Casos como o de Diana Kipyokei (desclassificada do título de Boston em 2021) e a posterior atribuição da vitória à Edna Kiplagat em 2022 reforçam que mesmo ajustes oficiais não apagam o impacto emocional e comercial do escândalo.
A situação de Chepngetich não é isolada. Em 2024, a World Athletics listava cerca de 500 suspensões relacionadas a dopagem envolvendo atletas, treinadores e comissões técnicas. Essa recorrência gera questionamentos sobre os limites esportivos e os critérios de confiança da comunidade global.
Chepngetich continua registrada como recordista mundial com o tempo de 2h09min56s em Chicago, já que o resultado não foi formalmente anulado. Na ocasião, seu desempenho superou em quase dois minutos a marca anterior da etíope Tigist Assefa, a primeira mulher a correr a maratona abaixo de 2h11min e 2h10min, respectivamente.
A confirmação da infração resultará em prejuízo direto a direitos de imagem, contratos e premiações. O efeito “espelho” causará impacto na agenda de grandes provas, como Tokyo Worlds ou futuras Maratonas Majors.






