
Recentemente veio a público a negociação entre a ESPN e a NFL, um movimento que chama atenção pelo impacto nos modelos de negócio do mercado esportivo norte-americano. O acordo, ainda em avaliação, prevê que a NFL adquira 10% da emissora, ampliando a oferta de conteúdos proprietários em seu portfólio. Embora sujeito a aprovações regulatórias, o negócio reforça o papel estratégico dos direitos de mídia como um dos ativos mais valiosos do setor, capazes de atrair audiências globais e garantir retornos expressivos para anunciantes e parceiros comerciais.
Tanto a NFL quanto a NBA são entidades produtoras de conteúdo premium. E não se trata apenas da transmissão dos jogos, mas de todo o ecossistema de storytelling e fan engagement. Ambas consolidaram uma estratégia multiplataforma, que envolve documentários, podcasts, live shows, programas semanais e cobertura diária nas redes sociais. Na prática, transformaram suas ligas em verdadeiras fábricas de conteúdo, entregando experiências que vão além do jogo ao vivo. Esse formato fortalece o brand equity das competições e cria novos pontos de contato para patrocinadores ativarem suas marcas em jornadas 360°.
Após a pandemia da COVID-19, a disputa global por direitos de transmissão ganhou ainda mais intensidade em um cenário marcado pela fragmentação da atenção do consumidor. O modelo on demand transformou os hábitos de consumo, mas, paradoxalmente, destacou ainda mais o valor do conteúdo ao vivo, sobretudo o esporte, que se diferencia por sua imprevisibilidade, espontaneidade e carga emocional. Ao contrário de filmes ou séries, uma partida pode redefinir contextos, criar narrativas únicas e gerar memórias coletivas. É justamente esse caráter singular que torna o esporte um produto insubstituível, cuja experiência só se completa no ao vivo, seja pela TV tradicional ou pelo streaming.
Mas e o fã? Em um ambiente de competição de atenção, em que convivem NBA, EuroLeague, campeonatos universitários americanos e outras ligas globais, além da proliferação de novos canais de streaming, como garantir que o basquete brasileiro mantenha relevância e audiência? Essa é uma grande questão de posicionamento estratégico de mídia para as entidades que fazem basquete.
O NBB liderou o movimento de reposicionar o basquete nacional nas telas, quando voltou à grade do Sportv e chegou até a TV Globo aberta em algumas finais históricas ou com edições do Jogo das Estrelas. Desde então, o campeonato já foi transmitido pela Band, TV Cultura, Fox Sports, ESPN, SporTV, BandSports, Twitter/X, Facebook, YouTube, DAZN, Disney+ e BasquetPass. Esse histórico revela a busca contínua por ampliar alcance, diversificar canais e adaptar-se ao comportamento de consumo do público. A LBF, por sua vez, consolidou presença em TV Brasil, ESPN, UOL, LiveBasketballBR e YouTube da LBF, com um papel relevante na expansão do basquete feminino no Brasil.
Essa pluralidade, entretanto, traz desafios. O excesso de canais pulveriza a audiência, exigindo que as ligas façam um esforço enorme de comunicação crossmedia para direcionar o fã até o jogo. Num mercado em que transmissões esportivas competem diretamente por atenção com conteúdo premium internacional, a lógica é simples: ou gera audiência relevante (para atrair publicidade e patrocínios), ou perde atratividade comercial.
Ao observarmos as federações de basquete, identificamos um paradoxo: o enorme volume de jogos de base gera uma oportunidade única de engajamento comunitário e formação de talentos, mas com limitações claras em termos de audiência massiva. A base é imprescindível para a renovação de talentos e para consolidar a modalidade no longo prazo, mas precisa ser trabalhada sob outra ótica de entrega de valor: mais educativa, institucional e de ativação local, do que propriamente de geração de mídia com foco em receita. No entanto, produzir conteúdo de qualidade, fazendo uma cobertura das categorias de base parece ser um bom caminho para manter a criação de conteúdos ativa e o engajamento do fã vivo.
Atualmente, as federações trabalham em parceria com canais de streaming que se dispõe a transmitir os jogos da base. É comum observar que um movimento formado por pais interessados, jovens motivados em trabalhar com transmissão esportiva e de inovações tecnológicas nas plataformas de transmissões estão permitindo que muitos jogos sejam disponibilizados na web. E isso é incrível por abrir muitas oportunidades para empreender.
Um ponto importante para avançar neste momento é promover um alinhamento estratégico entre as federações e os responsáveis pelas transmissões, definindo padrões mínimos de qualidade. Com isso, seria possível estruturar a liberação destas transmissões por canais de terceiros, sejam eles os do próprio clube ou de um fã interessado em transmitir os jogos. Considerando o tamanho do Brasil, mesmo se tratando dos estados, ainda lidamos com áreas muito extensas e isso dificulta, naturalmente, a operação logística e de custo para realização das transmissões descentralizadas.
A primeira sugestão é de facilitar o diálogo e valorizar a importância de ter parceiros para transmitir os jogos da base. É possível criar um pacote gráfico pela federação e disponibilizar para quem terá autorização para transmitir. Como mais uma contrapartida, a federação recebe cortes de jogadas para abastecer suas redes sociais. E vale combinar também que após um tempo determinado da transmissão, a federação pode subir o vídeo do jogo em seu canal oficial do Youtube, por exemplo. Mantendo o histórico das partidas numa única plataforma.
Outra possibilidade para gerar conteúdo dos jogos com um investimento menor é ter parceiros que possam estar nas rodadas de jogos e que possa captar vídeos das jogadas e subir (editado) nas plataformas sociais. Um ponto positivo nesse caso é que só será publicado as melhores jogadas, deixando o produto mais dinâmico e atrativo. E essa última sugestão funciona muito bem quando precisamos atender aos diferentes perfis de público que consome basquete no Brasil.
Quando analisamos o perfil do público, conseguimos identificar três clusters principais. O primeiro é o profissional do basquete: técnicos, scouts, dirigentes, jornalistas e atletas, que consomem praticamente todo o conteúdo disponível para estudo, análise e benchmarking. O segundo é o fã apaixonado, que já praticou ou acompanha a modalidade de perto, e que busca ativamente os jogos, independentemente da plataforma. Esse é o segmento mais fiel, que compõe a audiência das competições nacionais e mantém o engajamento orgânico. O terceiro é o consumidor premium, que se conecta ao basquete prioritariamente pela NBA (sobretudo playoffs e finais), e que precisa ser constantemente estimulado para migrar parte de sua atenção ao produto nacional.
Além das transmissões da Seleção Brasileira, NBB e LBF, existe um outro produto que pode ser mais considerado pelos consumidores. E nesse caso me refiro justamente às transmissões das federações e de competições amadoras e/ou independentes.
Nas principais competições amadoras de basquete adulto, o famoso “campeonato dos veteranos” já transformou em realidade a transmissão de jogos mais expressivos. O custo de produção está cada vez menor e, se o profissional que realiza a transmissão for experiente e habilidoso no uso das ferramentas, além de entender da modalidade, com apenas com um bom celular, um tripé e uma excelente conexão de internet temos uma transmissão básica, porém, efetiva.
As categorias adultas das competições estaduais, organizadas pelas federações, devem continuar a explorar mais o potencial como produto de conteúdo esportivo. Atualmente elas exibem seus jogos nos canais de streaming dos próprios times, de pequenos canais digitais e, em alguns poucos casos, de TVs regionais. E concordo com essa estratégia.
Dos campeonatos de divisões especiais do adulto, atualmente, apenas o campeonato da federação paulista teria um apelo de audiência nacional. Isso devido ao fato de ter 9 equipes em seu campeonato que disputam o NBB. Porém, existem outras federações que também estão fazendo um trabalho muito valioso e fomentando o aumento do interesse pelo basquete.
Existe um movimento muito bacana acontecendo com o basquete brasileiro e as perspectivas são muito positivas. Seja nos campeonatos de relevância nacional no alto rendimento, seja nas competições regionais realizadas pelas federações. Mas para ambos os cenários, a principal sugestão é procurar por parceiros com real intenção de cobrir os campeonatos por bastante tempo e ajustar um modelo de negócio bom para ambas as partes. Um ótimo exemplo é a parceria entre NBB e ESPN. Ao consolidar um canal de mídia parceiro e relevante na sua região, a federação ganha recorrência e ajuda o fã a se tornar parte da audiência nas transmissões.





