Indústria

Com Le Mans FC, OutField quer construir a próxima grande marca do futebol global

Aquisição marca um avanço na estratégia de internacionalização da companhia e reforça sua proposta de atuar como operadora e aceleradora de valor dentro do esporte

06 de agosto de 2025

8 minutos de Leitura

A OutField anunciou sua entrada no futebol europeu com a aquisição de uma participação minoritária no Le Mans FC, clube tradicional da França recentemente promovido à Ligue 2. A operação, com path to control, marca um avanço na estratégia de internacionalização da companhia e reforça sua proposta de atuação como operadora e aceleradora de valor dentro do ecossistema esportivo global.

Em entrevista ao MKTEsportivo, Pedro Oliveira, sócio da OutField, explicou que o fator decisivo para a escolha do Le Mans foi a excelência na gestão. Segundo ele, o presidente do clube, Thierry Gomez, realizou ao longo de uma década um trabalho financeiro sólido e responsável, o que o diferencia em um cenário marcado por práticas questionáveis, inclusive em mercados europeus.

“O clube é equilibrado financeiramente, sem qualquer tipo de endividamento e com um bom volume de recursos em caixa. Isso nos chamou atenção positivamente, principalmente por ter sido feito sem alavancagem ou engenharia financeira, como vemos com frequência no futebol”, explica Pedro.

A aquisição vai além da busca por um ativo viável. A OutField enxerga no Le Mans uma plataforma com alto potencial de desenvolvimento em branding, lifestyle e conexão cultural. A cidade francesa é globalmente reconhecida por sua relação histórica com o automobilismo, o que abre espaço para um posicionamento diferenciado no mercado do futebol.

“Vemos um grande espaço para conectar a herança do automobilismo à construção de uma marca global no futebol. A cidade tem mais de 300 mil habitantes, forte presença de empresas e está próxima de Paris, o que facilita captação de talentos e ativações comerciais”, acrescentou o executivo.

A OutField também planeja integrar esse universo esportivo a partir de nomes estratégicos. Entre os investidores estão o piloto Felipe Massa e o dinamarquês Kevin Magnussen, que irão contribuir com o reposicionamento da marca e o desenvolvimento da plataforma lifestyle do clube.

Enquanto mantém posição minoritária, a gestora já atua diretamente na operação, ao lado do atual presidente, com foco inicial em três frentes: consolidar o clube na Ligue 2, potencializar as receitas e investir em infraestrutura. O objetivo, segundo Pedro, é reduzir a dependência das receitas de transmissão e encontrar novos caminhos de monetização, uma prioridade em meio ao cenário de transformação do futebol europeu.

A entrada na França também difere dos modelos aplicados no Brasil, como no caso do Coritiba, e reflete uma visão de longo prazo.

“Estamos falando de um investimento estratégico, por meio de uma participação minoritária, porém relevante que demandará bastante contribuição nossa na operação. Houve um alinhamento de mentalidade muito grande entre nós e o Thierry. Por isso, nosso objetivo é conseguir ajudá-lo nos principais desafios de consolidar o Clube na Ligue 2 e, ao mesmo tempo, encontrar um modelo de receitas mais sustentável e diversificado que dependa cada vez menos da televisão”, destaca.

Com o movimento, a OutField reforça sua ambição de ser percebida não apenas como uma investidora, mas como uma parceira estratégica no desenvolvimento de ativos esportivos. A empresa, que acumula mais de uma década de experiência como consultoria no setor, agora consolida sua atuação como operadora e construtora de valor dentro e fora de campo.

“Não queremos ser percebidos apenas como alocadores de capital. Queremos que os Clubes ou empresas que busquem a OutField saibam que podem contar com uma companhia que é uma parceira estratégica na essência da palavra”, conclui Pedro.

Confira a entrevista completa com Pedro Oliveira, sócio-fundador da OutField

Pedro, vocês definiram o Le Mans como um “ativo muito organizado”, com zero dívida, estádio próprio e histórico de formação. O que exatamente fez o clube se destacar entre outras opções na Europa?

Gestão. O Thierry Gomez, em seus 10 anos à frente do Clube, desenvolveu um trabalho sustentável financeiramente, sem dar o passo maior do que a perna. Isso resultou num clube equilibrado financeiramente, sem qualquer tipo de endividamento e com um bom volume de recursos em caixa. Num universo do futebol em que, no Brasil e inclusive países europeus, estamos habituados com práticas questionáveis de gestão, o trabalho dele no Le Mans nos chamou a atenção positivamente. Eficiente alocação de recursos vs bom resultado esportivo, sem qualquer tipo de alavancagem ou engenharia financeira, como vemos muito no Brasil, por exemplo.

O que significa, para a OutField, participar da reconstrução de um clube tradicional como o Le Mans e como essa filosofia de resgate dialoga com a tese de vocês sobre futebol como ativo de investimento?

Pra nós é um privilégio e satisfação poder contribuir com o crescimento de um Clube como o Le Mans, especialmente tendo esse passo como algo estratégico em nosso movimento de internacionalização. A nossa tomada de decisão foi pautada no entendimento de que, até o momento, o trabalho de gestão desenvolvido pelo Thierry é excelente, mas que o Clube ainda tem um potencial maior que pode ser explorado. Na nossa visão não é uma reconstrução e sim a potencialização do clube, dentro de um ambiente e de um contexto que permitem isso. Além da gestão qualificada, na nossa tese de investimento consideramos ser fundamental: (i) o potencial da cidade, com seus 300k habitantes, com forte presença de empresas, bom mercado consumidor e geograficamente próxima a Paris, o que facilita a captação de talentos com alto potencial de desenvolvimento; e (ii) toda a plataforma de branding e potencial para posicionamento disso em nível global.

Le Mans é uma cidade reconhecida mundialmente pela sua conexão endêmica com o automobilismo – a partir disso, vemos um espaço grande para conectar essa herança positiva do automobilismo e do esporte à motor com o futebol, construindo assim a próxima grande marca do futebol global.

A aquisição foi de uma participação minoritária com “path to control”. Por que seguir esse modelo e quais são os próximos passos esperados nesse processo de transição?

Por enquanto, nosso foco está inteiramente em trabalhar ao lado do Thierry para que consigamos contribuir com os principais objetivos do Le Mans: (i) consolidar o Clube na 2a divisão francesa, (ii) realizar os investimentos necessários em infraestrutura, (iii) potencializar as receitas do Clube.

Foto: Denis LAMBERT

A cidade de Le Mans tem um apelo internacional por conta do automobilismo. De que forma vocês planejam integrar esse ativo cultural e histórico à estratégia de expansão e branding do clube?

Queremos traduzir a potência/relevância do brand equity/brand recall do automobilismo para o mundo do futebol. A partir disso, queremos criar uma plataforma de lifestyle que eleve a marca da cidade (e do Clube) em nível global. Parte dessa estratégia é contarmos com investidores ativos como Felipe Massa e Kevin Magnussen que irão nos ajudar a traduzir os principais conceitos do que significa o automobilismo em Le Mans para o nosso universo do futebol. Afinal, nós acreditamos que Clubes de futebol são plataformas locais/regionais que precisam representar os valores/emanar os princípios de uma região e sua comunidade. O valor do Clube e seu significado estão profundamente relacionados a essa conexão e senso de pertencimento dos torcedores/cidade para com o Clube. E nada melhor do que conseguirmos cada vez mais aproximar a herança histórica do automobilismo em Le Mans de tudo que iremos construir no Clube.

O que diferencia essa operação na França dos projetos conduzidos pela empresa no Brasil?

A principal mudança é que estamos falando de um investimento estratégico, por meio de uma participação minoritária, porém relevante que demandará bastante contribuição nossa na operação. Houve um alinhamento de mentalidade muito grande entre nós e o Thierry. Por isso, nosso objetivo é conseguir ajudá-lo nos principais desafios de consolidar o Clube na Ligue 2 e, ao mesmo tempo, encontrar um modelo de receitas mais sustentável e diversificado que dependa cada vez menos da televisão.

Para além do Le Mans, nossa expectativa é que possamos começar a construir nossa presença no futebol europeu, influenciando positivamente o crescimento da OutField em nível global.

Como a OutField quer ser percebida no ecossistema do futebol global? Mais do que investidores, vocês estão se posicionando como construtores de marca, gestores e parceiros de longo prazo?

Perfeito. Não queremos ser percebidos apenas como alocadores de capital. Queremos que os Clubes ou empresas que busquem a OutField saibam que podem contar com uma companhia que é uma parceira estratégica na essência da palavra. Na prática, nossos 10 anos como consultores, nos credenciaram para avaliar melhor os investimentos que fazemos e para que a gente entenda qual é o nosso papel enquanto operador ou acelerador dos negócios em que investimos. Da mesma forma que atuamos em empresas early-stage como a Bepass ou em empresas mais bem estabelecidas como o Coritiba FC, nosso objetivo é ser operadores que contribuem efetivamente para criação de valor a longo prazo nos negócios em que investimos e atuamos.

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