O Flamengo venceu o leilão do terreno do Gasômetro, de pouco mais de 88 mil metros quadrados no dia 31 de julho de 2024, pagando R$ 138,1 milhões por uma área localizada em uma das zonas mais centrais do Rio de Janeiro. O espaço, que passou a ser incluído em campanhas de marketing imobiliário do entorno, passou a representar a viabilidade concreta do sonhado estádio próprio. Um ano depois da compra, o local segue sem definição clara quanto ao futuro, agora sob nova gestão no clube.
A aquisição foi feita ainda durante a presidência de Rodolfo Landim, no entanto, após as eleições de dezembro, quem assumiu o comando foi Luiz Eduardo Baptista, o BAP, que adotou uma postura mais cautelosa em relação ao terreno vizinho ao Terminal Gentileza e à Rodoviária Novo Rio. Desde então, poucas intervenções foram feitas no local, sendo a única mudança visível em comparação com registros do ano anterior foi a remoção de algumas construções próximas a uma torre.
Ainda no primeiro semestre de 2025, a nova diretoria contratou três empresas para realizar estudos técnicos e revisar os dados deixados pela antiga gestão, que BAP classificou como preliminares, com a Arena E+V, que também coordenou a fase anterior do projeto, seguindo à frente das análises. O ex-presidente sustentava que seria possível construir o estádio e promover adaptações na região por menos de R$ 2 bilhões, mas o atual mandatário considera que esses valores não refletem mais os custos atuais e exigem nova atualização.
Os primeiros relatórios já foram entregues, conforme informou o ge. A Soloteste, responsável por estudos geotécnicos, concluiu sua parte em cerca de um mês e a JDS Engenharia de Precisão, que cuidou do levantamento topográfico, finalizou seu trabalho em seguida, em um prazo inferior a dois meses. Já o parecer mais complexo, elaborado pela AECOM, que avalia contaminações no solo e riscos ambientais, tinha previsão de entrega para outubro deste ano, mas já é tratado internamente como um documento que pode ser concluído apenas em 2026.
Desde que assumiu a presidência, BAP deixou claro que não vê como realistas os valores apontados por seu antecessor, estimando que o estádio deve ultrapassar R$ 3 bilhões. Ao longo de um ano desde a compra do terreno, nenhuma das partes envolvidas, nem a atual diretoria, nem a anterior, nem a empresa responsável pela coordenação, apresentou estimativas consolidadas de orçamento, sem contar também com nenhuma divulgação pública de qualquer estudo técnico.
Em fevereiro, o presidente rubro-negro chegou a informar que a Fundação Getúlio Vargas havia solicitado 60 dias para apresentar uma análise de viabilidade financeira, porém mais de quatro meses depois, esse relatório ainda não veio a público.
“Os estudos demonstram que não dá para fazer no tempo que foi dito e nem no preço que foi comentado. Tem quatro empresas avaliando os trabalhos que eles fizeram, que eram preliminares, e a conclusão é que infelizmente vai demorar mais tempo e mais dinheiro do que foi colocado naquela época”, afirmou BAP, em junho.
Pressão externa e entraves jurídicos
A gestão anterior do Flamengo se baseou em um estudo urbanístico prévio orientado pela Prefeitura, feito para a instalação do Terminal Gentileza, na mesma região. Há duas semanas, Rodolfo Landim concedeu entrevista à CNN Brasil, em que levantou dúvidas sobre o real interesse da nova diretoria em levar o estádio adiante.
O ex-presidente é presença frequente nos jogos no Maracanã e costuma vestir a camisa com o número 29, alusão ao ano que ele gostaria de ver o estádio inaugurado. Ele também mencionou que, no final de 2024, chegou a apresentar ao Conselho de Administração um orçamento do projeto, mas o documento não foi avaliado à época – o presidente do conselho naquele momento era BAP.
“Tenho visto muita gente tentando criar narrativas sobre o estádio. Dizem: ‘Vai custar muito mais caro do que o previsto’. Não é verdade. Dizem que vai faltar dinheiro e isso vai impactar o desempenho esportivo do clube. Isso é uma forma de tentar colocar a torcida contra”, disse Landim à CNN Brasil.
O contrato de venda do terreno previa dois prazos principais. Em até 18 meses a partir da assinatura da promessa de compra e venda, firmada em 16 de agosto de 2024, o Flamengo deveria apresentar à Prefeitura o projeto básico do estádio, prazo que vence em fevereiro do ano seguinte. Já a construção em si deveria ocorrer em até 36 meses, prorrogáveis por mais 36, o que pode levar o processo a até sete anos e meio no total.
Flamengo negocia valor final de terreno com a Caixa
Atualmente, um dos pontos em discussão é o valor definitivo do terreno, que ainda está sendo analisado entre a atual diretoria do Flamengo e a Caixa Econômica Federal, gestora do fundo que era dono da área, com a Prefeitura afirmando que já concluiu os trâmites administrativos necessários para a concessão de uso, no entanto, o edital também impõe outras obrigações: cabe ao clube, por exemplo, arcar com eventuais custos de remanejamento de tubulações de gás localizadas no terreno.
Ainda dentro da negociação com a Caixa, está em avaliação um projeto de lei que permitiria ao Rubro-Negro negociar o potencial construtivo da sede da Gávea, modelo semelhante ao aplicado no Vasco para a reforma de São Januário. O Flamengo, segundo os termos da proposta, não utilizaria os CEPACs (Certificados de Potencial Adicional de Construção) diretamente, e a Caixa seria compensada com a ampliação da área de aplicação desses títulos para a região de São Cristóvão.
Neste momento, o caso segue como um pré-acordo, assinado em 3 de outubro de 2024, no qual o o clube da Gávea se comprometia a pagar R$ 23,9 milhões, divididos em cinco parcelas, para encerrar uma ação judicial movida pela Caixa sobre a desapropriação do terreno. A formalização do contrato definitivo ainda não ocorreu, sendo que a instituição diz aguardar um posicionamento oficial da atual gestão do clube para concluir o processo.






