
Acho importante começar pela informação mais importante ao responder essa pergunta do título. Os dois mecanismos, tanto o teto salarial da MLS quanto o Fair Play Financeiro (FFP) da UEFA têm a intenção de deixar o produto futebol mais forte, mais atraente para marcas e público. Eles não funcionam como um fator limitador de investimentos, muito menos para fazer clubes de maior receita se ‘igualarem’ a clubes de menor receita. Os dois querem promover sustentabilidade, mas fazem isso de formas bem diferentes. Ambos com muito a ensinar para o, ainda em desenvolvimento, mercado de futebol brasileiro.
A Major League Soccer (MLS), que acompanho de muito perto desde o seu início, funciona com um sistema financeiro bem diferente do que a gente vê nos campeonatos europeus. Aqui as equipes usam um modelo de teto salarial, que está ligado à sua estrutura única, em que a liga é dona de tudo.
Fazendo uma contextualização histórica…A MLS nasceu em 1996 como uma liga “single-entity”, ou seja, quem manda mesmo é a liga. Ela é dona de todos os times e os “donos das franquias”, na verdade, de modo geral e bem simplificado ,compram o direito de operá-las. Isso foi pensado para evitar o caos financeiro que destruiu a antiga NASL, que inflou seus custos com estrelas globais como Pelé e Cruyff, mas não teve renda ou estrutura pra bancar isso tudo nos anos 70 e 80. Na estrutura atual, por exemplo, os contratos dos jogadores são com a liga, e não com os clubes. Isso ajuda a controlar gastos e evita briga interna para ver quem paga mais por um atleta, o que acaba gerando mais equilíbrio entre os times enquanto a liga vai crescendo de forma planejada, inclusive no cenário internacional.
O que poucas pessoas sabem é que, com o tempo, o teto evoluiu. A MLS criou brechas inteligentes para permitir que os times invistam com mais estratégia. Um exemplo famoso é a “vaga de jogador designado” (Designated Player), que permite contratar jogadores caros fora do teto, criada em 2007 com a chegada do Beckham. Mais tarde vieram coisas como o TAM (Targeted Allocation Money), dispositivo para reforçar o ‘meio do elenco’, e a Iniciativa Sub-22, que ajudam os clubes a trazer jovens promessas. Isso dá flexibilidade, mas também cria uma certa desigualdade entre os clubes que gastam mais e os que gastam menos.
Já o Fair Play Financeiro da UEFA funciona com outra lógica. Em vez de limitar o gasto total com base em números fixos, o FFP quer que os clubes gastem de acordo com o que arrecadam. A ideia é cortar os déficits, evitar dívidas malucas e fazer os clubes viverem dentro do próprio orçamento. Quem fura as regras pode levar multa, ser proibido de inscrever jogadores, ou até ser banido de competições europeias.

Importante: nem o FFP, nem o teto salarial da MLS foram criados para igualar os gastos dos clubes. Na MLS, tem clube que gasta bem mais usando as ferramentas que mencionei. Na Europa, times como Real Madrid, Bayern ou Manchester City têm receita muito maior que os pequenos, e por isso conseguem gastar mais dentro das regras.
Isso é muito relevante para o Brasil, onde está se iniciando uma discussão sobre Fair Play Financeiro. Muita gente confunde (ou teme, ou torce) que times como Flamengo ou Palmeiras teriam que reduzir seus investimentos pra se igualar aos menores. Caso sigam os exemplos mencionados por mim, praticados nos maiores mercados de futebol do mundo, não será bem assim. O que será ajustada é a equação entre arrecadação x investimento. Quem fatura mais pode investir mais, desde que não estoure o orçamento. Isso também tende a ajudar os clubes de menor arrecadação a se estruturarem para que possam crescer de forma organizada, provavelmente não imediata, mas que leve a eventuais investimentos de maior porte.
Deixando as discussões clubísticas de lado, o mercado brasileiro deve entender que, para se tornar um produto com relevância internacional, precisa de mais que qualidade técnica. Tanto o modelo da MLS quanto o europeu têm o mesmo objetivo: crescimento sustentável e um futebol saudável a longo prazo. É fundamental que se crie um sistema que proteja o futebol brasileiro, com todas as suas peculiaridades, sem matar a ambição, de pequenos e dos gigantes.
*Luiz Muzzi atua como assessor do grupo Wilf, proprietário do Orlando City (MLS) e do Minnesota Vikings (NFL), liderando iniciativas de investimento em futebol no cenário global. Foi VP executivo e General Manager do Orlando City, onde transformou o clube em uma das equipes mais competitivas da MLS, e anteriormente teve papel decisivo no sucesso do FC Dallas. Com passagens marcantes por projetos como Traffic Sports USA, onde desenvolveu a primeira iniciativa multiclubes do mundo, e profundo conhecimento dos mercados da América do Norte e do Sul, Muzzi é referência em gestão esportiva e estruturação de clubes de futebol.





