
Na última sexta-feira (5), pela quarta vez consecutiva, Novak Djokovic encerrou a busca pelo seu vigésimo quinto título de Grand Slam nas semifinais. O maior campeão da história, que precisou se retirar na semifinal do Australian Open, ainda em janeiro, após derrota no tie-break do primeiro set para Alexander Zverev, parece ter finalmente encontrado um muro intransponível em sua carreira. Suas participações em Roland Garros e em Wimbledon foram precocemente encerradas por Janik Sinner, enquanto sua campanha no US Open foi freada por Carlos Alcaraz, os três jogos terminaram em três sets diretos.
Novak parece se convencer de que o momento da passagem de bastão chegou, admitindo em coletiva pós-derrota que o italiano e o espanhol “são bons demais”. A final olímpica em Paris 2024, nesse sentido, parece ter sido um último respiro antes de uma definitiva e inevitável troca de gerações. O problema é que, se o domínio exercido por Federer, Nadal e Djokovic por quase duas décadas serviu como combustível para um aumento de interesse na modalidade, o domínio de Sinner e Alcaraz talvez passe a ser um problema para a ATP. Esse texto, então, é uma reflexão sobre dinastias no esporte.
Em artigo publicado em 1956, Simon Rottenberg deu o pontapé inicial em uma discussão que, praticamente setenta anos depois, ainda não está concluída. Ao analisar a estrutura do mercado de trabalho de jogadores de baseball nos Estados Unidos, Rottenberg argumentou que medidas eram necessárias para garantir a imprevisibilidade dos resultados. Segundo seu argumento, a ausência de regulação levaria equipes como o New York Yankees, com orçamento muito maior do que o de seus concorrentes, a montar equipes muito mais fortes e construir verdadeiras dinastias no esporte. Essa ausência de incerteza nos resultados, então, naturalmente levaria a um desinteresse do público, prejudicando as operações de todas as equipes, incluindo o próprio Yankees.
Com o passar dos anos, essa discussão se provou mais complexa do que isso. De fato, um pilar fundamental para os esportes é a incerteza, mas outros fatores apresentam nuances importantes para essa discussão. Muitos dos fatores que se costumam considerar, como nível de identificação dos fãs, tamanho de mercado e exposição na mídia, são mais facilmente aplicados a esportes coletivos do que a esportes individuais. A ideia aqui é que um amplo domínio do Los Angeles Lakers ou do Boston Celtics – equipes localizadas em dois dos maiores centros urbanos dos Estados Unidos, com ampla exposição midiática e torcidas grandes e apaixonadas – certamente é muito mais positivo para a NBA do que um domínio de equipes como OKC Thunder ou Indiana Pacers, por exemplo.
Essa discussão, no tênis, faz menos sentido, principalmente pelo caráter individual do esporte. Vir de um país menor como a Suíça, que até então só tinha Martina Hingis como campeã de Grand Slams, não representou nenhum empecilho para o sucesso midiático de Roger Federer. Pelo contrário, ser suíço provavelmente foi um aspecto positivo na construção do fator que considero mais importante para esportes individuais: a persona do atleta. Tal qual um relógio suíço, Roger operou com precisão e elegância ao longo de toda a sua carreira. O jogo plástico e calibrado do suíço, nesse sentido, arrastou milhões de pessoas para a frente da televisão por mais de uma década.
No extremo oposto, Rafael Nadal representava a vibração latina, a garra, a vontade. Se Federer colocava a bola onde queria, Nadal representava a disposição em buscá-la em qualquer canto da quadra. Rafa e Roger representavam com perfeição dois extremos opostos, tanto em termos de estratégia de jogo quanto em termos de personalidade, mas o faziam com o mais absoluto respeito, criando interesse no esporte em si e elevando a imagem do tênis globalmente.
A sequência de oito títulos de Grand Slams conquistados por Sinner e Alcaraz não é algo exatamente inédito; o suíço e o espanhol protagonizaram domínio semelhante entre 2005 e 2007, quando venceram onze troféus em sequência. Havia sido a primeira (e, até semana passada, única) vez que dois atletas monopolizaram os títulos de Grand Slam por duas temporadas consecutivas. A diferença entre os dois domínios é que, entre 2005 e 2007, Federer e Nadal jamais chegaram a fazer três finais consecutivas. Os dois ganhavam os títulos, de fato, mas diversos nomes ainda conseguiam chegar à final para disputá-los.
A sequência de onze títulos distribuídos entre os dois só foi quebrada no Australian Open de 2008, justamente quando Novak Djokovic ganhou seu primeiro Slam. Naquele momento, Djokovic deu início ao período que apresentaria o domínio dos três maiores jogadores da história do tênis masculino, sem qualquer espaço para discussão. Num enredo que apresentava a dualidade entre a calma e a vibração, o sérvio tomou para si o papel de intruso, de vilão. A trama, ao longo dos anos que se seguiram, passou também a contar com Andy Murray, um britânico carismático, e aparições esporádicas de outros grandes nomes do esporte, como Wawrinka, Del Potro e Čilić.
O cenário atual, ao menos por enquanto, me parece muito mais preocupante do que o vivido entre 2005 e 2007. Primeiramente porque, conforme mencionei, essas três finais consecutivas não haviam acontecido naquele período. Desde que o italiano e o espanhol passaram a dividir as duas primeiras posições do ranking, ninguém mais chegou em finais de Grand Slam, e a declaração de Djokovic na coletiva pós-jogo acende o alerta de que talvez passe um tempo até que alguém consiga derrotá-los numa melhor de cinco sets.
Sinner e Alcaraz certamente se enfrentarão dezenas de vezes nos próximos anos, várias delas em finais de Grand Slams, e esses jogos serão (como têm sido) disputados. A perspectiva de algum deles em algum momento bater os recordes de Federer, Nadal e Djokovic é, de fato, um enorme atrativo. A questão é que os Slams, disputados em duas semanas, não podem se sustentar somente em finais disputadas. O espectador precisa saber que, em qualquer dos seis jogos que precedem a final, os maiores do mundo podem cair, e esse definitivamente não é o caso atualmente. Nos caminhos de ambos às finais de Roland Garros, Wimbledon e US Open, houve somente uma partida de cinco sets: a estreia do espanhol na grama inglesa, contra o italiano Fabio Fognini. (Sinner também foi levado às cordas em Wimbledon, dessa vez por Grigor Dimitrov, mas o búlgaro precisou se retirar devido a uma lesão após abrir dois sets a zero.)
Tão importante quanto a imprevisibilidade ao longo do torneio é o fato de que, ainda que Alcaraz seja carismático como Nadal, o italiano não é o novo Federer. Um jogador que vence a imensa maioria de suas partidas em Slam em sets diretos, com polêmicas relacionadas a doping e que não consegue desenvolver seu carisma fora de quadra é o pesadelo de qualquer um que comande a elite do tênis mundial. Nesse início de rivalidade, Alcaraz consegue sustentar o enredo, mas o público logo chegará a um ponto de fatiga, na minha opinião.
Se a geração dos anos 90, com nomes como Medvedev, Zverev e Tsitsipas, já demonstrou que não conseguirá chegar e se manter no topo, a ATP precisa desesperadamente de alguém que bagunce a elite. Em termos de mercado – ainda que eu tenha dito que o mercado não importa tanto para esportes individuais –, João Fonseca é certamente o melhor nome para isso, com potencial para trazer um país com centenas de milhões de habitantes para o tênis. Learner Tien e Ben Shelton, americanos, Jack Draper (britânico) e Holger Rune (dinamarquês) são todos nomes com bom potencial dentro e fora de quadra. Independentemente de quem for, fato é que o circuito masculino de tênis precisa que alguém assuma esse papel em menos de um ou dois anos, sob risco de nos acostumarmos com uma monotonia altamente prejudicial ao esporte.





